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Queda e Triunfo

A Queda do Dia

A Perna que Disseram Estar Morta

Disseram que ela jamais andaria. Virou a mulher mais rápida do planeta.

 
 

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Queda e Triunfo 

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Menina com aparelho ortopédico de metal na perna esquerda, sentada na penumbra
I

A Menina que Não Devia Andar

 

A menina que os médicos duvidavam que andasse sem aparelho cruzou três linhas de chegada olímpicas em primeiro. A perna presa no metal virou a mais rápida do mundo. Poucas distâncias na história foram tão longas. A cena abre com uma criança de cinco anos no Tennessee.

1945. Clarksville, Tennessee, Estados Unidos.

A perna esquerda está presa num aparelho de metal e couro que vai do tornozelo à coxa. A menina tem cinco anos. Ela já teve escarlatina. Já teve pneumonia dupla. E agora carrega o nome da doença que mais aterrorizava as famílias americanas daquela década: poliomielite.

Wilma Glodean Rudolph nasceu prematura, pesando pouco mais de dois quilos, a vigésima de vinte e dois filhos. O corpo veio frágil e ficou frágil. Quando a pólio chegou, atacou a perna esquerda, torcendo o pé para dentro, drenando a força do músculo. Os médicos foram diretos com a mãe: a menina provavelmente nunca andaria normalmente. O aparelho seria para o resto da vida.

No Sul segregado dos anos 1940, o hospital local não atendia pacientes negros. Para tratar a perna, a mãe colocava Wilma num ônibus duas vezes por semana e percorria mais de oitenta quilômetros até Nashville, o hospital negro mais próximo.

 

Ela ouviu, repetidas vezes, das pessoas que mais entendiam de corpos humanos, que aquela perna não tinha conserto.

 
 
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II

A Queda

 

A pólio não foi um episódio. Foi a infância inteira.

Por anos, Wilma não pôde frequentar a escola como as outras crianças. Ficava em casa, isolada, enquanto a perna era massageada quatro vezes por dia. A mãe aprendeu as técnicas de fisioterapia com os enfermeiros de Nashville e ensinou os irmãos mais velhos. Em rodízio, a família massageava aquela perna manhã, tarde e noite, ano após ano, sem nenhuma garantia de que algo aconteceria.

Wilma cresceu sabendo que as outras crianças corriam, pulavam, jogavam, e ela observava da janela. O aparelho era pesado. Era visível. Era a primeira coisa que qualquer pessoa via nela.

 

Meus médicos me disseram que eu nunca andaria de novo. Minha mãe me disse que eu andaria. Acreditei na minha mãe.

~ Wilma Rudolph

 

Aos nove anos, num domingo, ela entrou na igreja sem o aparelho. Andou pela nave inteira, sozinha, diante da congregação. Tinha treinado em segredo, tirando o aparelho quando ninguém via, testando os limites de uma perna que todos haviam condenado.

Aos doze, o aparelho foi embora de vez. Pela primeira vez na vida, Wilma pôde andar como qualquer outra criança.

 

A maioria das histórias terminaria aqui, no alívio de simplesmente andar. A dela estava só começando.

 
 
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III

O Triunfo

 

A perna que não deveria sustentar o próprio peso começou a correr. E não corria como as outras.

No ensino médio, Wilma se tornou um fenômeno do basquete e do atletismo. Aos dezesseis anos, em 1956, foi aos Jogos Olímpicos de Melbourne e voltou com uma medalha de bronze no revezamento. Era apenas o aquecimento.

 

Em 1960, nos Jogos de Roma, sob o calor que derretia o asfalto, Wilma Rudolph fez o que nenhuma mulher americana havia feito. Ganhou os 100 metros. Ganhou os 200 metros. Ganhou o revezamento 4x100. Três medalhas de ouro numa única Olimpíada. A primeira americana a conseguir o feito.

Roma a chamou de "a Gazela". A Itália inteira parou para vê-la correr. Aos vinte anos, a menina do aparelho de metal era a mulher mais rápida do planeta, transmitida ao vivo numa das primeiras Olimpíadas televisionadas para o mundo.

 

Quando voltou a Clarksville, a cidade quis organizar um desfile em sua homenagem. Wilma impôs uma condição: seria o primeiro evento público integrado da história da cidade, aberto a negros e brancos juntos. Foi. A mulher que o hospital se recusara a atender obrigou a cidade a se sentar lado a lado para celebrá-la.

Ela se aposentou cedo, ainda no auge, e passou o resto da vida como professora e treinadora, dirigindo uma fundação para crianças pobres no esporte. Morreu em 1994, aos cinquenta e quatro anos. Deixou um nome que virou sinônimo de uma única ideia: o que dizem ser impossível e o que é impossível raramente são a mesma coisa.

 
 
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IV

A Lição

 

Existe uma distância enorme entre um diagnóstico e uma sentença. O médico que examinou aquela perna estava descrevendo o presente, não decretando o futuro. O erro não foi dele. O erro seria de Wilma, se ela tivesse confundido as duas coisas.

Você provavelmente carrega algum aparelho invisível, algo que te disseram cedo demais que você não conseguiria. Uma limitação que virou identidade só porque alguém com autoridade a pronunciou em voz alta. A pergunta não é se o obstáculo é real.

A perna dela era real, a pólio era real, a segregação era real. A pergunta é se você aceitou o veredito como definitivo ou como ponto de partida.

 

A reconstrução quase nunca vem com garantia. Vem com repetição teimosa no escuro, muito antes de qualquer resultado aparecer.

 

Wilma massageou aquela perna quatro vezes por dia durante anos sem nenhuma prova de que valeria a pena. Acreditou na mãe quando todo o resto dizia o contrário. E correu mais rápido que o mundo inteiro.

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Verdadeiro ou Falso: Wilma Rudolph usou um aparelho ortopédico na perna esquerda até os doze anos por causa da poliomielite, e ainda assim ganhou três medalhas de ouro numa única Olimpíada, em Roma, 1960.

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