|
|
Vinte e Sete Anos Até a Patente
Buckminster Fuller perdeu em 1927 a empresa de blocos de construção que dirigia em Chicago e ficou sem emprego aos trinta e dois anos.
|
Chicago, 1927: fora da empresa aos 32
|
| ▼ |
| |
| |
|
1922: um engenheiro sem diploma e o sogro arquiteto abrem em Nova York a Stockade Building Systems, empresa de blocos de construção feitos de aparas de madeira prensadas, montados a seco como peças encaixadas umas nas outras.
1926: a empresa já tem fábricas em cinco estados e o genro dirige a operação, viajando de canteiro em canteiro para vender um método de parede que os construtores americanos ainda achavam esquisito.
1927, Chicago: os investidores vendem o controle da companhia. O novo dono dispensa a direção antiga, e o homem de trinta e dois anos que passara cinco anos erguendo aquele negócio fica sem cargo, sem participação e sem salário, morando de aluguel com a mulher e uma filha recém-nascida.
Ele já tinha sido expulso de Harvard duas vezes, em 1913 e em 1915, e enterrado a primeira filha em 1922, antes de ela completar quatro anos. O desemprego de 1927 chegou em cima de um histórico que qualquer banco leria como incompetência crônica.
1928: sem emprego e sem crédito, começa a desenhar uma casa suspensa por um mastro central, que batiza de 4D e depois de Dymaxion. Ninguém constrói. 1933: apresenta um carro de três rodas em Chicago. Ninguém compra. 1940: vende ao Exército americano abrigos circulares de aço galvanizado, e produz poucas centenas.
29 de junho de 1954: o Escritório de Patentes dos Estados Unidos concede a patente 2.682.235, de estruturas de construção geodésicas, ao mesmo homem que em 1927 tinha saído da fábrica de blocos sem nada. Passaram vinte e sete anos entre uma coisa e outra.
1967: a cúpula geodésica desenhada por ele vira o pavilhão dos Estados Unidos na Feira Mundial de Montreal, com setenta e seis metros de diâmetro, e é o edifício mais fotografado do evento.
O caminho entre o desemprego em Chicago e a esfera de Montreal passa por três décadas de projeto recusado, patente sem comprador e trabalho pago em aula de escola de arte.
|
| |
|
Continue lendo ↓
|
| |
|
| |
|
I A Queda
O escritório fechado em Chicago
|
| |
| |
|
12 de julho de 1895: nasce em Milton, Massachusetts, numa família de Nova Inglaterra que tinha mandado quatro gerações seguidas para Harvard. O menino é míope a ponto de não enxergar contorno de rosto até ganhar óculos aos quatro anos, e passa a infância montando objetos com o que encontra no verão da ilha de Bear, no Maine.
1913: entra em Harvard e é expulso no primeiro ano, depois de gastar o dinheiro da mensalidade numa temporada em Nova York. 1914: trabalha como mecânico numa fábrica têxtil no Canadá. 1915: readmitido em Harvard, é expulso pela segunda vez, agora em definitivo. Nunca terminou curso superior nenhum.
1917: entra para a Marinha americana, serve na Primeira Guerra e casa com Anne Hewlett, filha do arquiteto James Monroe Hewlett. 1918: nasce Alexandra, a primeira filha. 1922: a menina morre de complicações de uma sequência de infecções, quatro anos incompletos, e ele passa o resto da vida atribuindo parte daquilo às casas frias e úmidas em que a família tinha morado.
1922: funda com o sogro a Stockade Building Systems, para fabricar um bloco de construção de aparas de madeira e cimento, patenteado por Hewlett. Ele assume a operação, monta fábricas, treina equipes e vende parede a parede.
|
| |
Quem tirou a empresa das mãos dele em 1927 não foi um concorrente melhor: foi o próprio grupo de investidores, num acordo de venda em que a direção antiga não entrava. |
|
| |
|
1927: os investidores vendem a companhia. A nova administração não quer o método dele, não quer o discurso dele sobre habitação industrializada e não quer ele. Aos trinta e dois anos, Buckminster Fuller está em Chicago, desempregado, sem diploma, sem economias, com um histórico de duas expulsões de Harvard e uma filha morta, e com Allegra, a segunda filha, nascida naquele mesmo agosto.
O relato que ele repetiu por décadas conta uma noite de inverno às margens do lago Michigan em que considerou desaparecer, e a decisão de fazer o contrário: viver como experimento, para descobrir o que um homem sozinho e sem recursos ainda consegue produzir em benefício de outras pessoas.
1928 a 1930: ele se tranca num apartamento barato do lado sul de Chicago, corta o convívio social por quase dois anos e desenha. Sai dali a casa Dymaxion, estrutura hexagonal de alumínio pendurada num mastro central, com banheiro pré-fabricado e sistema de captação de água. A indústria de construção americana ignora o projeto por completo.
1933: constrói o carro Dymaxion, veículo de três rodas para onze passageiros. Um acidente diante do público da Feira Mundial de Chicago, naquele mesmo ano, enterra o interesse dos investidores. 1940: vende ao Exército unidades circulares de abrigo em aço galvanizado, e a produção para quando o metal é redirecionado para a guerra.
Treze anos depois de perder a empresa, ele continuava com uma pasta cheia de invenções que ninguém tinha comprado em escala.
|
| |
|
| |
|
II O Triunfo
A patente 2.682.235
|
| |
| |
|
1948: convidado a dar aula de verão no Black Mountain College, na Carolina do Norte, ele tenta erguer com os alunos a primeira cúpula geodésica grande, feita de tiras de persiana veneziana. A estrutura desaba antes de fechar. Os alunos apelidam a tentativa de cúpula de supino, porque nada ficou de pé.
1949: volta ao mesmo lugar no verão seguinte e a cúpula fica em pé. O princípio é simples de enunciar e difícil de calcular: uma superfície esférica dividida em triângulos distribui a carga por toda a casca, o que permite cobrir área enorme com peso ridículo e sem uma coluna interna sequer.
1951 a 1953: as encomendas começam pela via mais improvável. A Marinha americana quer abrigos leves que possam ser transportados de helicóptero e montados em horas. A Ford Motor Company quer cobrir o pátio circular do Rotunda, em Dearborn, sem que a estrutura antiga suporte peso. A cúpula da Ford é levantada em 1953, com noventa e três toneladas a menos do que uma cobertura convencional exigiria.
|
| |
Eu não sou uma coisa, um substantivo. Pareço ser um verbo. Buckminster Fuller, I Seem To Be a Verb, 1970 |
|
| |
|
29 de junho de 1954: sai a patente 2.682.235, de estruturas de construção geodésicas, em nome dele. Vinte e sete anos separam o desemprego de Chicago daquele documento. Ele tem cinquenta e nove anos, e é a partir dali que o trabalho de três décadas passa a gerar renda.
1954 a 1960: o Departamento de Defesa encomenda cúpulas de radar para a linha de alerta antecipado no Ártico, onde a estrutura precisa resistir a vento de furacão e ser montada por poucos homens no frio. As mesmas cúpulas viram pavilhões de feira americana em Cabul, Tóquio e Moscou, onde a exposição de 1959 abriga o famoso encontro entre Nixon e Khrushchev.
1959: assume cátedra na Universidade Southern Illinois, em Carbondale, e passa a morar numa cúpula geodésica que ele mesmo construiu, a única casa própria que teve na vida.
|
| |
A patente que ninguém quis financiar em 1928 virou, em vinte e cinco anos, item de catálogo militar e cartão-postal de feira internacional. |
|
| |
|
Abril de 1967: abre a Expo 67 em Montreal, e o pavilhão dos Estados Unidos é uma cúpula geodésica de setenta e seis metros de diâmetro e sessenta e um de altura, com casca de acrílico e sistema de persianas móveis para controlar a luz do sol. Cinco milhões e meio de pessoas entram na estrutura durante os seis meses da feira.
1969: publica Manual de Operação para a Espaçonave Terra, livro que vende em dezenas de países e transforma um inventor conhecido de engenheiros num nome de circulação ampla. Ele passa a dar centenas de palestras por ano, com agenda que dá a volta ao mundo mais de quarenta vezes.
23 de fevereiro de 1983: recebe a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil dos Estados Unidos, aos oitenta e sete anos. Ao fim da vida, tinha vinte e oito patentes registradas, quarenta e sete títulos honorários de doutor e cerca de trezentas mil cúpulas geodésicas erguidas pelo mundo a partir do seu princípio.
|
|
| |