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A Queda do Dia
O Manuscrito Costurado no Casaco
Frankl perdeu a família e o livro de uma vida em Auschwitz. Reescreveu tudo de memória.
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Outono de 1944. Rampa de chegada de Auschwitz-Birkenau, Polônia ocupada.
O trem para. As portas do vagão de carga se abrem. Lá fora, holofotes, cães, gritos em alemão e uma fileira de oficiais decidindo, com um gesto de dedo, quem vive e quem morre nas próximas horas.
Viktor Frankl tem 39 anos. É psiquiatra e neurologista vienense. Por baixo do casaco, costurado no forro com as próprias mãos, ele carrega a coisa mais valiosa que possui: o manuscrito de um livro que vinha escrevendo havia anos, a obra que pretendia ser o trabalho da sua vida. Uma nova teoria sobre o que move o ser humano.
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Um prisioneiro veterano percebe o pânico no rosto dele e sussurra a única palavra que importa naquela rampa para sobreviver à primeira seleção. Frankl é mandado para a fila da esquerda. A da direita ia direto para a câmara de gás. |
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O casaco, com tudo dentro, é trocado pelos farrapos de alguém que já tinha sido morto. O manuscrito de uma vida inteira evapora numa pilha de roupas confiscadas.
Frankl entra no campo sem nome, sem profissão, sem família por perto e sem a única página do que havia pensado.
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A conta do que Frankl perdeu não cabe num parágrafo.
A esposa, Tilly, grávida, foi deportada para Bergen-Belsen e morta. A criança que nunca nasceria morreu com ela, antes de existir. O pai morreu no campo de Theresienstadt, nos braços do filho, de fome e pneumonia. A mãe foi assassinada na câmara de gás de Auschwitz. O irmão morreu numa mina ligada ao campo. De uma família inteira, só uma irmã, que tinha emigrado, sobreviveu.
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Frankl cavou trincheiras e assentou trilhos de trem no inverno polonês, com sapatos furados, os pés em chagas abertas, alimentado com uma concha de sopa aguada por dia. |
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Foi transferido de Auschwitz para um campo satélite de Dachau chamado Türkheim, onde adoeceu de tifo. Para não desmaiar de noite e morrer, reconstruía de cabeça, em pedaços de papel roubados, as anotações do livro perdido. Reescrever de memória virou o motivo para o coração continuar batendo até o amanhecer.
No campo, ele observava os outros prisioneiros com o olho clínico que ninguém lhe podia confiscar. E viu uma coisa que não estava em nenhum manual de psiquiatria.
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Dois homens, com a mesma fome, o mesmo frio, a mesma sentença, podiam reagir de formas opostas. Um se entregava e morria em dias. O outro encontrava um pedaço de razão para o sofrimento, um filho à espera, uma obra a terminar, e resistia. ~ O que se via atrás do arame |
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A diferença entre os dois não era a força do corpo. Era se restava, ou não, um sentido.
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Türkheim foi libertado em abril de 1945. Frankl voltou a Viena pesando pouco mais que os ossos e descobriu, uma morte de cada vez, que não tinha para quem voltar. A esposa, os pais, o irmão, a criança: todos perdidos.
Então fez a única coisa que sabia fazer. Sentou-se e, em nove dias, ditou um livro inteiro. Reconstruiu de memória o manuscrito arrancado dele na rampa, agora atravessado por tudo que tinha visto atrás do arame farpado. O livro saiu em 1946 com o título que ficaria conhecido no mundo como Em Busca de Sentido.
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Não era um relato de vítima. Era a tese de um cientista que tinha usado o pior lugar da Terra como laboratório. A ideia central: o ser humano não é movido em primeiro lugar pelo prazer nem pelo poder, mas pela busca de um sentido para a própria existência.
E esse sentido sobrevive mesmo quando tudo o mais é arrancado, porque ninguém pode tirar de você a liberdade de escolher como reagir ao que lhe acontece.
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Sobre essa descoberta, Frankl fundou a logoterapia: uma escola inteira de psicoterapia centrada na pergunta pelo sentido, hoje chamada de terceira escola vienense, depois da de Freud e da de Adler. ~ O que nasceu da perda |
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Tornou-se professor, deu aulas em universidades de vários continentes, recebeu dezenas de títulos honorários e, já octogenário, aprendeu a pilotar avião.
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O livro que ele perdeu costurado num casaco e reescreveu de memória vendeu milhões de exemplares e nunca saiu de catálogo. |
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Você provavelmente não vai perder tudo numa rampa de trem. Mas vai, em algum ponto, encarar uma dor que não pode controlar, uma perda que não pediu, uma circunstância que não escolheu. E vai descobrir que a única coisa que ainda lhe pertence ali é a postura que você toma diante dela.
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Entre o que te acontece e como você responde existe um espaço. Nesse espaço mora a última das liberdades humanas. ~ A descoberta de Frankl |
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O sofrimento não vira nobre sozinho. Mas, no instante em que você encontra um porquê para carregá-lo, ele deixa de ser só castigo e passa a ter um endereço.
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Quem tem um porquê aguenta quase qualquer como. |
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P.S.: Amanhã, no mesmo horário, outra história desenterrada. Outra queda. Outro triunfo. |
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☞ Quiz da edição
Verdadeiro ou Falso: Viktor Frankl perdeu o manuscrito do seu livro ao chegar a Auschwitz e, depois de libertado, reconstruiu a obra de memória em poucos dias, fundando sobre ela a logoterapia.
Clique para descobrir se acertou.
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