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Um Galpão no Quintal de Ikeda
Momofuku Ando perdeu tudo com a quebra de uma cooperativa em 1957 e, aos 48 anos, inventou o macarrão instantâneo sozinho.
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O galpão de quintal em Ikeda, 1958
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5 de março de 1910: Momofuku Ando nasce no condado de Chiayi, em Taiwan, então colônia japonesa, e cresce com os avós, donos de uma loja de tecidos.
1932: aos 22 anos, abre em Taipei uma pequena empresa de malhas.
1933: muda para Osaka e monta uma firma de comércio de tecidos.
1945: os bombardeios americanos destroem as fábricas e o escritório.
1948: funda uma empresa de sal em Izumiotsu, perto de Osaka, e acaba preso sob acusação de sonegação fiscal.
1957: a cooperativa de crédito que ele preside quebra, e da fortuna sobra a casa de Ikeda.
1958: aos 48 anos, passa doze meses num galpão de quintal testando macarrão.
25 de agosto de 1958: o Chicken Ramen chega às lojas japonesas.
1971: lança o Cup Noodles.
No inverno de 1945, Osaka era uma cidade de telhados queimados. A fome durava mais que a guerra: o arroz vinha racionado, a comida circulava no mercado negro, e a ocupação americana mandava farinha de trigo dos Estados Unidos para virar pão nas escolas.
Numa noite fria perto da estação Hankyu de Umeda, um comerciante arruinado pelas bombas parou diante de uma barraca de lámen (o macarrão servido em caldo quente). A fila dava voltas no quarteirão, com gente de casaco puído esperando uma tigela.
A cena ficou com ele por doze anos. Macarrão, pensava, combinava mais com o paladar japonês que o pão da farinha doada. Faltava um jeito de guardar a tigela no armário de casa, pronta em minutos, sem cozinheiro e sem barraca.
Em 1957, ele não tinha dinheiro para testar a ideia. Não tinha empresa, cargo nem crédito na praça. Tinha um quintal, uma panela de ferro e uma idade em que boa parte dos japoneses da época já pensava em parar.
A primeira seção mostra como um empresário de Osaka perdeu o patrimônio inteiro por causa de um banco que nem era dele.
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I A Queda
Um banco que não era dele
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Momofuku Ando tinha 47 anos em 1957 e fama de sobrevivente. Tinha perdido fábricas para as bombas de 1945 e passado uma temporada preso em 1948, acusado de sonegar impostos por causa das bolsas que pagava a estudantes universitários. Saiu das duas quedas com negócios novos. Quando uma cooperativa de crédito de Osaka o convidou para presidir a casa, aceitou um cargo que parecia de prestígio.
Cooperativas de crédito (associações de poupança e empréstimo que atendiam pequenos comerciantes) se multiplicaram no Japão do pós-guerra. Os bancos grandes preferiam financiar siderúrgicas e estaleiros. O dono de loja, de oficina ou de barraca recorria à cooperativa do bairro. Ando não tinha experiência bancária. Entrava com a reputação que tinha construído em Osaka desde 1933.
A cooperativa emprestou mal, os devedores deixaram de pagar e, em 1957, a instituição quebrou. A responsabilidade caiu sobre quem a presidia. Ando entregou empresas, imóveis e economias para cobrir os depositantes. De tudo o que tinha montado desde Taiwan, sobrou a casa em Ikeda, cidade residencial ao norte de Osaka.
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Aos 47 anos, ele pagou com o próprio patrimônio a dívida de uma casa bancária que não tinha fundado. Ficou com um teto, a família e uma ideia guardada desde 1945. |
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A família cabia naquela casa: Masako Ando, com quem ele casara em 1946, e os filhos pequenos, entre eles Koki, nascido em 1947, que décadas depois presidiria a empresa do pai. Masako cuidava das contas apertadas e da cozinha. Ninguém em casa tinha salário.
Ando decidiu não procurar emprego. No quintal havia um galpão de madeira de poucos metros quadrados. Ele comprou uma máquina usada de fazer macarrão, uma panela funda e sacos de farinha. Começou a trabalhar sozinho, sem sócio, sem funcionário e sem laboratório.
Na autobiografia, ele conta que acordava às cinco da manhã, voltava para casa de madrugada e dormia cerca de quatro horas por noite. Seguiu nessa rotina durante um ano, sem folga, inclusive aos domingos.
Antes de ligar o fogo, escreveu cinco exigências para o produto. Tinha de ser saboroso. Tinha de durar meses no armário da cozinha. Tinha de ficar pronto em poucos minutos. Tinha de custar pouco. E tinha de ser seguro para comer.
Os primeiros meses foram de fracasso. Macarrão cozido estragava em dias, e macarrão seco demorava tanto quanto o fresco para cozinhar. A massa grudava na panela, esfarelava no saco ou saía crua por dentro. Ele jogava fora os lotes ruins e recomeçava no dia seguinte.
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II O Triunfo
A panela de tempurá de Masako
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A resposta veio da cozinha de casa. Masako fritava tempurá (legumes e frutos do mar envoltos em massa leve e fritos em óleo), e Ando observou a massa entrando no óleo quente. A água escapava em borbulhas e deixava a casca cheia de furinhos.
Ele levou a observação para o galpão. Mergulhou o macarrão, já cozido no vapor e temperado, em óleo a cerca de 160 graus. O calor arrancava a umidade e deixava os fios porosos. Seca, a massa aguentava meses na prateleira. Na hora de comer, a água fervente entrava pelos poros e reidratava os fios em cerca de dois minutos.
Chamou o método de secagem instantânea em óleo quente e registrou a patente no Japão em 1962. Para dar forma regular aos blocos, fritava a massa dentro de cestos de arame, que saíam do óleo com o macarrão no formato de um tijolo baixo.
O tempero resolveu a tigela inteira. Ando temperava a massa com caldo de galinha antes de fritar, e o produto dispensava sachê: bastava água quente. A família criava galinhas no quintal, e o caldo de frango, no Japão da época, tinha fama de comida que fortalece doente e criança.
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Na vida, nunca é tarde demais. Momofuku Ando, Mahō no rāmen hatsumei monogatari (A história da invenção do lámen mágico), autobiografia publicada pela Nikkei em 2002 |
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Em 25 de agosto de 1958, o Chicken Ramen (lámen de galinha, em inglês no pacote) chegou às lojas por 35 ienes. Os atacadistas torceram o nariz: uma porção de udon (macarrão grosso de trigo) fresco custava bem menos na barraca da esquina. Ando levou amostras a uma loja de departamentos de Osaka e deixou o público provar ali mesmo.
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O macarrão caro vendia minutos. Dois minutos de água fervente contra uma panela no fogão e uma ida à barraca. |
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O estoque acabou. Os pedidos dos atacadistas começaram a chegar em volume que o galpão não dava conta de atender. Em dezembro de 1958, Ando rebatizou a empresa como Nissin Food Products e trocou o quintal por uma fábrica de verdade.
Com o sucesso vieram as cópias. Dezenas de fabricantes lançaram macarrão frito parecido, alguns de qualidade ruim, e a disputa de patentes chegou aos tribunais. Em 1964, Ando fundou uma associação japonesa de fabricantes de alimentos instantâneos e abriu o método a concorrentes licenciados, para que produtos mal feitos não derrubassem a categoria inteira.
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