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Trinta Anos Medindo Vento
Gustave Eiffel foi condenado em 1893 no processo do canal do Panamá, viu a pena anulada em junho e nunca mais assinou uma grande obra.
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Paris, 1912: o laboratório da rue Boileau
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1887, Paris. Um engenheiro de cinquenta e cinco anos assina com a Compagnie Universelle du Canal Interocéanique o contrato para construir dez eclusas no istmo do Panamá, obra orçada em cerca de cento e vinte e cinco milhões de francos. É a maior encomenda já recebida pela empresa dele, e chega no mês em que a torre de trezentos metros que leva o seu nome passa da altura de cem metros no Champ-de-Mars.
4 de fevereiro de 1889: o tribunal do Sena decreta a liquidação da companhia do canal. As escavações no istmo param, as eclusas ficam pela metade e o dinheiro de centenas de milhares de pequenos poupadores franceses vira papel sem valor. Dois meses e meio depois, a torre é entregue pronta para a Exposição Universal, e o mesmo nome está nas duas notícias.
1892: o jornal La Libre Parole publica a lista de parlamentares e jornalistas que recebiam pagamento da companhia para manter o crédito aberto. O caso vira o maior escândalo financeiro da Terceira República francesa, derruba ministros e arrasta para o banco dos réus o construtor mais famoso da Europa.
9 de fevereiro de 1893: a Corte de Apelação de Paris o condena a dois anos de prisão e vinte mil francos de multa por abuso de confiança. Ele tem sessenta anos e acabara de erguer a estrutura mais alta do mundo.
15 de junho de 1893: a Corte de Cassação anula a condenação inteira por prescrição. Ele não passa um único dia atrás das grades. Também não volta a assinar obra alguma: renuncia à direção da empresa que fundara em 1867, vende a participação e tira o próprio nome da razão social.
O que ele faz nos trinta anos seguintes cabe numa frase esquisita para um construtor de pontes de ferro: passa a medir vento, todos os dias, num galpão que pagou do próprio bolso. A história começa em Dijon, com um menino que herdou um apelido alemão.
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I A Queda
Dez eclusas no istmo
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15 de dezembro de 1832: nasce em Dijon Alexandre Gustave Bönickhausen, filho de um casal que tocava um comércio de carvão. A família usava havia gerações o apelido Eiffel, tirado da região alemã de onde os antepassados tinham vindo, e foi esse o nome que o menino levou para a escola e, em 1880, para o registro civil.
1855: forma-se na École Centrale des Arts et Manufactures, em Paris, na seção de química, porque a vaga que queria em metalurgia já estava tomada. Cai por acaso no ramo das estruturas de ferro, montando pontes ferroviárias para uma empresa de Bordeaux, e nunca mais sai de lá.
1867: abre a própria oficina em Levallois-Perret. 1877: entrega a ponte Maria Pia sobre o Douro, no Porto, com um arco de cento e sessenta metros de vão e nenhum pilar dentro do rio. 1884: termina o viaduto de Garabit, com a via férrea passando a cento e vinte e dois metros acima do rio Truyère. 1885: monta em Paris o esqueleto de ferro que sustenta a Estátua da Liberdade antes de ela seguir para Nova York.
1886: vence o concurso da torre de trezentos metros da Exposição Universal, entrando com a maior parte do dinheiro do próprio bolso em troca de vinte anos de exploração comercial. 28 de janeiro de 1887: começam as fundações no Champ-de-Mars.
Dezembro de 1887: ele assina o contrato do Panamá. Ferdinand de Lesseps, o homem que abrira o canal de Suez, tinha passado oito anos tentando cavar no istmo um canal ao nível do mar e perdera para a febre amarela, para a rocha vulcânica e para o próprio orçamento. A companhia enfim aceitou o desenho com eclusas e chamou o construtor de ferro mais competente da França para executá-lo.
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Ele entrou para resolver um problema técnico numa empresa que já estava financeiramente quebrada havia anos. |
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O contrato previa dez eclusas. Ele recebeu adiantamentos, montou canteiro no istmo e começou a fabricar. 4 de fevereiro de 1889: catorze meses depois da assinatura, o tribunal do Sena decreta a liquidação da companhia e a obra para com as eclusas incompletas.
1889 a 1892: cerca de oitocentos mil franceses que tinham comprado títulos do canal descobrem que não receberão nada. Édouard Drumont abre a campanha no La Libre Parole, o Parlamento instala inquérito, ministros caem e um chefe de gabinete foge do país. A instrução judicial junta os administradores da companhia e os empreiteiros num processo só.
9 de fevereiro de 1893: a Corte de Apelação de Paris condena Ferdinand de Lesseps, o filho Charles e mais três, entre eles o construtor da torre, por abuso de confiança. A pena dele sai em dois anos de prisão e vinte mil francos de multa. O nome gravado na fachada mais visível da Europa passou a figurar também numa sentença criminal.
15 de junho de 1893: a Corte de Cassação anula o acórdão inteiro, por prescrição. Ele nunca é julgado de novo quanto ao mérito e nunca cumpre pena. A anulação jurídica não desfaz o que catorze meses de campanha de imprensa já tinham feito com a assinatura dele.
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II O Triunfo
O laboratório da rue Boileau
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1893: com sessenta anos e a pena anulada, ele deixa a direção da empresa que fundara em 1867, vende a participação e retira o próprio nome da razão social. A firma continua funcionando sem ele. Nenhuma ponte, nenhum viaduto, nenhuma cobertura de estação leva a assinatura dele depois dessa data.
O que sobra nas mãos dele é a torre, com concessão de exploração até 1910, e uma pergunta prática: para que serve aquela estrutura depois que a Exposição fechou as portas. Parte de Paris queria a demolição no fim do prazo, e o desprezo era público desde antes da primeira viga.
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Vimos protestar com todas as nossas forças contra a construção, no coração da nossa capital, da inútil e monstruosa Torre Eiffel. Protesto dos Artistas, jornal Le Temps, 1887 |
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A resposta dele foi transformar a torre em instrumento de medida. Instala no alto do pilar uma estação meteorológica e passa a registrar pressão, temperatura e velocidade do vento a trezentos metros do chão, série que entrega ao serviço meteorológico francês. Monta estações irmãs em propriedades suas na França e acompanha os boletins durante anos.
1898: autoriza Eugène Ducretet a usar a torre como antena numa transmissão sem fio até o Panthéon, a quatro quilômetros de distância. 1903: banca do próprio bolso as experiências do capitão Gustave Ferrié com telegrafia militar. Quando a concessão vence, em 1910, a estrutura já é uma antena de que o Exército francês não abre mão, e a demolição sai de pauta.
1903 a 1906: ele estica um cabo vertical de cento e quinze metros entre o segundo andar e o solo e deixa cair por ele placas presas a um carro registrador. Cada queda dura cerca de três segundos e desenha num tambor a resistência que o ar opõe à placa. Um senhor de setenta anos subindo a torre para soltar o aparelho, dia após dia.
1909: com a concessão vencida e a aviação engatinhando, ele constrói ao pé da torre um túnel de vento fechado, onde o ar corre sobre a maquete parada. 1912: a prefeitura o obriga a desocupar o Champ-de-Mars e ele reconstrói o laboratório, maior, no número 67 da rue Boileau, no bairro de Auteuil.
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O laboratório da rue Boileau abriu em 1912 e continua ensaiando modelos no mesmo endereço. |
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1910: publica La Résistance de l'air et l'aviation, com os ensaios de perfis de asa e de hélice que Louis Blériot, os irmãos Farman e os fabricantes franceses passam a consultar para escolher desenho antes de cortar chapa. 1912: mede a queda brusca da resistência de esferas acima de certa velocidade, resultado que Ludwig Prandtl, em Göttingen, primeiro contestou e depois confirmou no próprio laboratório alemão.
1913: a Smithsonian Institution lhe entrega a Medalha Langley pelas pesquisas de aerodinâmica. 1914 a 1918: o laboratório de Auteuil trabalha para a aviação militar francesa, ensaiando os aparelhos que iam para a frente. Ele morre em 27 de dezembro de 1923, aos noventa e um anos, em Paris, com três décadas de trabalho científico atrás e nenhuma obra metálica nova assinada desde 1893.
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