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A Queda do Dia
As Páginas no Lixo
Jogou o manuscrito no lixo morando num trailer. A esposa o resgatou e nasceu o autor mais vendido do horror.
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| I | As Três Páginas Amassadas |
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O manuscrito de Carrie terminou no lixo, jogado pelo próprio autor. A esposa o resgatou da lata e insistiu que havia algo ali. O rei do horror existe porque alguém revirou uma lixeira de cozinha. O trailer no Maine é onde tudo começa.
Início dos anos 1970. Hermon, Maine, Estados Unidos.
O trailer tem dois quartos, paredes finas e um cheiro de mofo que nunca sai. Mora ali um casal com dois filhos pequenos. Ele dá aulas de inglês numa escola pública por um salário que mal cobre o aluguel. Ela trabalha num turno na Dunkin' Donuts. O telefone foi cortado porque não dava para pagar a conta.
Stephen King tem vinte e poucos anos e escreve à noite, depois de corrigir provas, numa escrivaninha encaixada na área de serviço, entre a máquina de lavar e a secadora. Vende contos para revistas masculinas baratas quando consegue, cinquenta dólares aqui, duzentos ali, dinheiro que some no mesmo dia em remédio das crianças e conserto do carro.
Numa dessas noites, ele começa um conto sobre uma garota do colégio, humilhada no vestiário, que descobre ter poderes telecinéticos. Escreve três páginas. Releia, não gosta. A protagonista é uma menina, um terreno que ele acha que não domina. A história lhe parece morna, sem futuro, perda de tempo que ele não tem.
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Amassa as folhas e joga no cesto de lixo. Mais uma coisa que não deu certo, recolhida junto com o resto. |
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O cesto de lixo não era uma metáfora. Era o estado das coisas.
King bebia para aguentar a rotina. Ensinava de dia, escrevia de madrugada e olhava as contas se acumularem sem nenhuma evidência de que aquilo um dia daria certo. Tinha um romance pronto, depois outro, depois mais um, e uma gaveta cheia de cartas de recusa espetadas num prego na parede.
Quando o prego não suportou mais o peso, ele trocou por um espigão maior e continuou pendurando recusas.
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A ideia de ser escritor profissional parecia, àquela altura, uma piada particular que a realidade contava à custa dele. |
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Os personagens viviam num trailer apertado, sem dinheiro para o dentista, sem dinheiro para o telefone, com dois bebês chorando do outro lado de uma parede de compensado. O conto da garota do vestiário era só mais uma coisa que não tinha dado certo.
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Foi a esposa, Tabitha, quem mexeu no cesto. Tirou as três páginas amassadas, alisou o papel sobre a mesa, leu, e disse que ali tinha alguma coisa. Que ele devia continuar. ~ O resgate no trailer de Maine |
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Quando ele respondeu que não sabia escrever do ponto de vista de uma adolescente, que não conhecia aquele universo de meninas, ela ofereceu o que faltava: ela conhecia. Disse que o ajudaria com os detalhes, que ele seguisse em frente.
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King voltou à escrivaninha entre a lavadora e a secadora e terminou a história. Virou um romance curto. Quando ficou pronto, mandou para uma editora. E para outra. E para outra. O manuscrito de Carrie foi recusado, conta após conta, por cerca de trinta editoras.
Uma das cartas trazia a frase que ele guardaria a vida inteira: não estamos interessados em ficção científica que trata de utopias negativas, ela não vende.
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A trigésima e tantas tentativa caiu na mesa de um editor da Doubleday chamado Bill Thompson. Ele viu o que Tabitha tinha visto no cesto de lixo. Mandou um telegrama, porque o telefone do trailer continuava cortado, oferecendo um adiantamento de dois mil e quinhentos dólares pela publicação de Carrie.
Para um professor que contava moedas, era uma fortuna e uma sentença de absolvição ao mesmo tempo.
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Os direitos da edição de bolso foram vendidos por quatrocentos mil dólares. King recebeu a notícia num Dia das Mães e a primeira coisa que fez foi comprar um secador de cabelo para Tabitha, porque era o presente que conseguia imaginar naquele instante de vertigem. ~ O domingo que mudou tudo |
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Largou a escola. Nunca mais precisou corrigir uma prova. Carrie saiu em 1974 e virou filme dois anos depois. Foi a abertura de uma carreira sem paralelo no horror. Vieram O Iluminado, A Coisa, Christine, À Espera de um Milagre, e dezenas de outros.
Mais de trezentos e cinquenta milhões de livros vendidos. O professor falido do trailer de Maine virou o nome mais vendido do gênero, lido em todas as línguas que se possa imaginar.
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E ele nunca escondeu a origem de tudo. Em livro, em entrevista, repetiu a cena dezenas de vezes: as primeiras páginas de Carrie estavam no lixo. Quem as tirou de lá foi a mulher dele. |
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A parte mais frágil dessa história não é a pobreza nem a fila de recusas. É o gesto de dois segundos em que um autor cansado decide que aquilo não presta e joga no cesto. O talento estava lá o tempo todo. O que quase se perdeu foi a continuação, abortada por um julgamento apressado feito por quem estava perto demais do trabalho para enxergá-lo.
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Às vezes o que separa o trailer da carreira não é um talento maior. É alguém que tira a folha do lixo, alisa o papel e diz: continua, aqui tem alguma coisa. |
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Você vai ter ideias que parecem mornas no primeiro rascunho. Antes de amassar e jogar fora, vale lembrar que o criador raramente é o melhor juiz da própria obra recém-nascida. E que, com mais frequência do que gostaríamos, esse alguém que resgata a folha precisa ser você mesmo.
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☞ Quiz da edição
Verdadeiro ou Falso: as primeiras páginas de Carrie foram parar no lixo porque o próprio Stephen King as jogou fora, e quem as resgatou do cesto foi sua esposa, Tabitha.
Clique para descobrir se acertou.
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