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A Queda do Dia
O Laboratório Escondido no Quarto
Uma lei racial que fechou todas as portas. Uma agulha de costura afiada até virar bisturi. E um quarto de dormir devolvendo ao mundo um segredo do cérebro.
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| I | A Cientista Que o Regime Baniu |
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Um decreto que a expulsa da universidade e da medicina de uma vez. Um quarto de dormir virado laboratório, com agulhas de costura no lugar de bisturi. E, escondido ali, um segredo do sistema nervoso que renderia o Nobel décadas depois.
Setembro de 1938. Turim, Itália. Uma médica de vinte e nove anos abre o jornal e descobre que, por ter nascido judia, está proibida de entrar num laboratório ou de atender um paciente.
Rita Levi-Montalcini tinha acabado de se formar em medicina com louvor, aluna de um dos maiores histologistas da Itália. Ela sonhava em decifrar como as células nervosas crescem e se conectam, o enigma mais difícil da biologia da época.
O pai relutou em deixá-la estudar; ela insistiu até vencer. Entrou na faculdade de medicina de Turim decidida a não ser só dona de casa, e saiu de lá com a melhor nota da turma e um convite para pesquisar o sistema nervoso.
Não era uma carreira qualquer que o regime interrompia. Era um talento raro, ainda no começo, cortado por uma canetada. As leis raciais de Mussolini fecharam de uma vez a universidade, o hospital e o futuro que ela vinha desenhando desde menina.
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Num canto do próprio quarto, sem verba, sem cargo e sem permissão, ela ergueu um laboratório clandestino. |
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O material cirúrgico ela mesma fabricou. Afiou agulhas de costura numa pedra até a ponta virar um bisturi fino o bastante para operar embriões de galinha que cabiam na cabeça de um alfinete. Os ovos vinham de granjas dos arredores, buscados de bicicleta.
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A queda de Rita não foi só perder um emprego. Foi ser apagada da própria profissão por aquilo que ela era, não pelo que fazia.
O nome dela sumiu das listas. Colegas que a admiravam passaram a desviar o olhar na rua. Publicar um artigo com a própria assinatura tornou-se impossível, porque a assinatura de uma judia não podia aparecer numa revista italiana.
Depois vieram os bombardeios. A guerra empurrou a família para o campo e, mais tarde, para um esconderijo em Florença, sob nome falso, enquanto a ocupação alemã caçava judeus de porta em porta.
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Ela desmontou o laboratório do quarto, embrulhou o microscópio numa mala e reconstruiu tudo onde deu, entre um alarme antiaéreo e outro. |
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Nada daquilo tinha plateia. Não havia congresso para apresentar resultados, nem colega para discutir uma dúvida, nem salário no fim do mês. Havia uma mulher proibida de existir como cientista, insistindo em ser uma.
O mundo lá fora dizia, com todas as letras, que o lugar dela não era a ciência. Todo decreto, todo jornal, toda esquina repetia o mesmo veredito.
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Tiraram dela o laboratório, o cargo e o direito de assinar o próprio trabalho. Não conseguiram tirar a única coisa que a fazia cientista: a pergunta. ~ O que o decreto não alcançou |
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Foi nesse porão da história, sem título e sem público, que ela viu o que mudaria a biologia. Observando embriões de galinha, notou que certos nervos cresciam em disparada rumo a alvos específicos, como se algo os chamasse.
Alguma substância, invisível, parecia ordenar às células nervosas onde crescer. Ela ainda não tinha como prová-lo. Mas tinha visto, e o que se vê não se desvê.
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Mas nem o decreto, nem a guerra, nem os anos escondida apagaram o que Rita tinha visto no embrião.
Terminada a guerra, um professor americano que lera seus poucos artigos publicados no exterior fez o convite: venha para St. Louis refazer o experimento no meu laboratório. Ela foi por alguns meses e ficou trinta anos.
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Foi ali, com equipamento de verdade e a parceria de um bioquímico, que a intuição do quarto de Turim ganhou nome e prova. A substância que chamava os nervos existia, podia ser isolada, medida e injetada.
Batizaram-na de fator de crescimento nervoso. Uma molécula que diz às células nervosas quando nascer, para onde ir e quando parar. A peça que faltava para entender como um cérebro se monta a si mesmo.
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A descoberta rascunhada com agulhas de costura num quarto proibido abriu caminho para investigar Alzheimer, câncer e lesões do sistema nervoso. O laboratório clandestino virou fundação da neurociência. ~ A vingança dos fatos |
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Em 1986, aos setenta e sete anos, Rita subiu ao palco em Estocolmo para receber o Nobel de Medicina. |
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A mesma mulher que o regime riscara das listas em 1938 estava agora escrita, em ouro, na mais alta lista da ciência. Não como exceção tolerada, mas como uma das mentes que redesenharam o que sabíamos do corpo humano.
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Você pode estar, agora, carregando um trabalho que o mundo fez questão de interromper. A porta que bateram na sua cara, o talento que mandaram guardar, o projeto que declararam impossível antes de olhar direito.
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Rita perdeu o laboratório, o cargo e um país inteiro virado contra ela. Não perdeu a curiosidade. E foi a curiosidade, não a permissão, que a levou ao Nobel. ~ O que a queda ensina |
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Ela não esperou o regime cair para voltar a pesquisar. Montou o laboratório possível, com o material que tinha, no espaço que sobrava. Fez ciência de primeira num quarto de dormir, porque a pergunta não pediu licença para continuar viva.
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Quando fecham a porta do laboratório, restam duas saídas. Esperar a porta reabrir. Ou afiar a agulha que já está em casa. |
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