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Os Vistos Que Saíram Pela Janela do Trem
Ele desobedeceu a três telegramas do próprio governo, escreveu vistos à mão por cinco semanas e pagou com a carreira inteira.
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Kaunas, 1940: a fila no portão do consulado
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Estação ferroviária de Kaunas, Lituânia, 4 de setembro de 1940. O trem para Berlim já está andando quando um homem de quarenta anos se debruça na janela do vagão com um maço de papéis na mão.
Ele estica o braço e alguém corre ao lado do trilho para alcançar o papel. Estica de novo. A composição ganha velocidade, as mãos lá embaixo continuam vindo, e ele passa a soltar os papéis no ar.
São vistos de trânsito para o Japão, escritos à mão, com o carimbo do consulado japonês e a assinatura dele. Uma parte já tem nome preenchido. Outra parte está em branco, para que alguém escreva o próprio nome depois.
Antes de o vagão sumir na curva, ele entrega o carimbo consular a um dos homens que corriam junto ao trem. Sem o carimbo, o papel em branco não vale nada. Com ele, o papel continua valendo depois que o dono for embora.
A mão direita dele está travada. Nas últimas cinco semanas escreveu de dezoito a vinte horas por dia, todos os dias, e a esposa passou noites massageando aquele braço para que a letra saísse legível na manhã seguinte.
O nome do homem era Chiune Sugihara, vice-cônsul do Japão em Kaunas. O registro que ele entregou depois ao próprio ministério listava 2.139 vistos emitidos naquele verão.
Cada visto cobria uma família inteira. Com o papel no passaporte dava para comprar a passagem do Transiberiano, atravessar a União Soviética até Vladivostok e embarcar num navio rumo ao porto japonês de Tsuruga.
Tóquio havia negado a autorização três vezes por telegrama. Sete anos depois, o mesmo ministério pediria a demissão dele, e o homem que assinou aqueles papéis passaria décadas vendendo lâmpadas de porta em porta sem que ninguém na rua soubesse o que ele tinha feito.
A conta daquele verão começa cinco semanas antes, num portão de ferro da rua Vaižganto, com uma multidão que passou a noite na calçada.
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I A Queda
Três telegramas para Tóquio
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Consulado do Japão em Kaunas, rua Vaižganto, manhã de 27 de julho de 1940. A esposa de Sugihara abre a cortina e vê o portão de ferro tomado por gente. Algumas famílias tinham dormido ali.
Eram judeus poloneses que haviam fugido para o leste em setembro de 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia. A Lituânia era o último país livre que restava no caminho, e em junho de 1940 a União Soviética a anexou.
Com a anexação veio a ordem de fechar todos os consulados estrangeiros em poucas semanas. A porta de saída estava se fechando em cima daquela gente, e atravessá-la exigia dois papéis que quase ninguém tinha.
O primeiro apareceu por acaso. Jan Zwartendijk, cônsul honorário da Holanda na cidade, passou a escrever nos passaportes que a ilha de Curaçao, colônia holandesa no Caribe, não exigia visto de entrada. Estava tecnicamente correto.
Faltava o segundo. Para chegar ao Caribe pelo leste era preciso cruzar a União Soviética inteira, e Moscou só vendia a passagem do Transiberiano a quem tivesse um visto de trânsito japonês carimbado no passaporte.
O carimbo estava dentro daquele consulado. Sugihara tinha quarenta anos, falava russo fluente e vivia em Kaunas desde novembro de 1939, com a tarefa de observar movimentação de tropas alemãs e soviéticas. Autoridade para abrir exceção ele não tinha.
Ele telegrafou para Tóquio pedindo permissão. Depois telegrafou de novo. E uma terceira vez.
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Certifique-se de que concluíram o procedimento do visto de entrada e de que possuem o dinheiro da viagem ou o necessário para a estadia no Japão. Caso contrário, não conceda o visto de trânsito. ~ Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão, telegrama a Chiune Sugihara, 1940, citado em Visas for Life, Yukiko Sugihara, 1995 |
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Quase ninguém do lado de fora do portão tinha visto de entrada em lugar nenhum, nem dinheiro guardado. A resposta do ministério, cumprida à risca, deixava a fila inteira na calçada.
Sugihara reuniu a família no quarto e explicou o que aconteceria com a carreira dele se assinasse. Depois desceu e mandou entrar o primeiro grupo.
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Nenhum dos três telegramas dizia que ele estava proibido de escrever. Os três diziam que, se escrevesse, ele escreveria sozinho. |
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De 31 de julho até o dia do trem ele escreveu à mão. Cada visto pedia texto, data, carimbo e assinatura, e num único dia ele produzia o que um consulado costumava emitir num mês inteiro.
Quando o consulado foi fechado, mudou-se para o Hotel Metropolis e continuou escrevendo no quarto. Quando o hotel acabou, escreveu na estação.
O resto da guerra ele passou em Praga, em Königsberg e em Bucareste. Em 1945 o Exército Vermelho prendeu a família num campo na Romênia, onde ficaram dezoito meses.
Voltaram ao Japão em abril de 1947 pelo Transiberiano, o mesmo trilho que os vistos dele tinham usado. Poucos meses depois, o ministério pediu a demissão do vice-cônsul. Ele tinha quarenta e sete anos e nenhuma outra profissão.
A justificativa oficial foi corte de pessoal no pós-guerra. Sugihara nunca acreditou na versão oficial, e naquele mesmo ano perdeu o filho Haruki, de sete anos.
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II O Triunfo
O visto guardado por vinte e oito anos
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Tóquio, 1968. Um adido econômico da embaixada de Israel chamado Yehoshua Nishri desdobra um papel que carregava desde os dezesseis anos. É um visto de trânsito japonês emitido em Kaunas.
Nishri passou anos procurando o homem cuja assinatura estava naquele papel. Encontrou um Sugihara vivo em Tóquio, empregado de uma empresa comercial, e ligou.
O encontro na embaixada foi a primeira vez em vinte e oito anos que alguém agradeceu por aqueles vistos.
No intervalo entre uma coisa e outra, Sugihara tinha trabalhado como tradutor, como intérprete de meio período e num posto de venda do exército americano, e tinha vendido lâmpadas de porta em porta. Depois passou dezesseis anos em Moscou representando uma trading japonesa, longe da família.
Enquanto ele fazia essas contas de fim de mês, o que tinha escrito à mão em Kaunas seguia funcionando do outro lado do mundo.
A ieshivá de Mir atravessou a guerra inteira com cerca de trezentos alunos e professores porque saiu da Lituânia com os papéis de Zwartendijk e de Sugihara. Foi a única academia talmúdica da Europa continental a chegar ao fim do conflito intacta.
Zorach Warhaftig, um dos organizadores daquela fuga e portador de um dos vistos, virou ministro em Israel e assinou a declaração de independência do país. Foi ele quem levou a história ao governo israelense.
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Enquanto o autor daqueles papéis tocava campainha vendendo lâmpadas em Tóquio, os nomes escritos com a letra dele já eram famílias inteiras em quatro continentes. |
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Em 1969 Sugihara foi convidado a Israel. Perguntado sobre o que o tinha levado a desobedecer, ele repetia um provérbio de samurai que tinha ouvido em casa quando criança.
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Nem o caçador consegue abater o pássaro que voa até ele em busca de abrigo. ~ Chiune Sugihara, citado em In Search of Sugihara, Hillel Levine, 1996 |
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Em 1985 o memorial Yad Vashem, em Jerusalém, o reconheceu como Justo entre as Nações. Ele tinha oitenta e cinco anos e estava doente demais para viajar, e a esposa e o filho receberam a honra no lugar dele.
Foi o único japonês a receber o título.
Ele viveu mais um ano. Quando o enterro aconteceu em Fujisawa, em 1986, os vizinhos viram chegar uma delegação de Israel e o embaixador israelense no Japão. Foi assim que a rua descobriu quem tinha morado ali por décadas.
O ministério que pediu a demissão dele levou mais tempo. Em 1991 um vice-ministro apresentou desculpas formais à viúva. Em 2000 o chanceler japonês descerrou uma placa em homenagem a ele no arquivo diplomático de Tóquio, sessenta anos depois dos telegramas.
O número que sobrou é esse: 2.139 vistos, cerca de seis mil pessoas embarcadas e uma estimativa de mais de quarenta mil descendentes vivos hoje por causa de cinco semanas de escrita à mão.
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