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ED 082

Os Vistos Que Saíram Pela Janela do Trem

Ele desobedeceu a três telegramas do próprio governo, escreveu vistos à mão por cinco semanas e pagou com a carreira inteira.

Multidão de refugiados aguardando diante do portão de ferro de um consulado, com malas no chão e casacos de inverno

Kaunas, 1940: a fila no portão do consulado

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Estação ferroviária de Kaunas, Lituânia, 4 de setembro de 1940. O trem para Berlim já está andando quando um homem de quarenta anos se debruça na janela do vagão com um maço de papéis na mão.

Ele estica o braço e alguém corre ao lado do trilho para alcançar o papel. Estica de novo. A composição ganha velocidade, as mãos lá embaixo continuam vindo, e ele passa a soltar os papéis no ar.

São vistos de trânsito para o Japão, escritos à mão, com o carimbo do consulado japonês e a assinatura dele. Uma parte já tem nome preenchido. Outra parte está em branco, para que alguém escreva o próprio nome depois.

Antes de o vagão sumir na curva, ele entrega o carimbo consular a um dos homens que corriam junto ao trem. Sem o carimbo, o papel em branco não vale nada. Com ele, o papel continua valendo depois que o dono for embora.

A mão direita dele está travada. Nas últimas cinco semanas escreveu de dezoito a vinte horas por dia, todos os dias, e a esposa passou noites massageando aquele braço para que a letra saísse legível na manhã seguinte.

O nome do homem era Chiune Sugihara, vice-cônsul do Japão em Kaunas. O registro que ele entregou depois ao próprio ministério listava 2.139 vistos emitidos naquele verão.

Cada visto cobria uma família inteira. Com o papel no passaporte dava para comprar a passagem do Transiberiano, atravessar a União Soviética até Vladivostok e embarcar num navio rumo ao porto japonês de Tsuruga.

Tóquio havia negado a autorização três vezes por telegrama. Sete anos depois, o mesmo ministério pediria a demissão dele, e o homem que assinou aqueles papéis passaria décadas vendendo lâmpadas de porta em porta sem que ninguém na rua soubesse o que ele tinha feito.

A conta daquele verão começa cinco semanas antes, num portão de ferro da rua Vaižganto, com uma multidão que passou a noite na calçada.

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I  A Queda

Três telegramas para Tóquio

 
 

Consulado do Japão em Kaunas, rua Vaižganto, manhã de 27 de julho de 1940. A esposa de Sugihara abre a cortina e vê o portão de ferro tomado por gente. Algumas famílias tinham dormido ali.

Eram judeus poloneses que haviam fugido para o leste em setembro de 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia. A Lituânia era o último país livre que restava no caminho, e em junho de 1940 a União Soviética a anexou.

Com a anexação veio a ordem de fechar todos os consulados estrangeiros em poucas semanas. A porta de saída estava se fechando em cima daquela gente, e atravessá-la exigia dois papéis que quase ninguém tinha.

O primeiro apareceu por acaso. Jan Zwartendijk, cônsul honorário da Holanda na cidade, passou a escrever nos passaportes que a ilha de Curaçao, colônia holandesa no Caribe, não exigia visto de entrada. Estava tecnicamente correto.

Faltava o segundo. Para chegar ao Caribe pelo leste era preciso cruzar a União Soviética inteira, e Moscou só vendia a passagem do Transiberiano a quem tivesse um visto de trânsito japonês carimbado no passaporte.

O carimbo estava dentro daquele consulado. Sugihara tinha quarenta anos, falava russo fluente e vivia em Kaunas desde novembro de 1939, com a tarefa de observar movimentação de tropas alemãs e soviéticas. Autoridade para abrir exceção ele não tinha.

Ele telegrafou para Tóquio pedindo permissão. Depois telegrafou de novo. E uma terceira vez.

 

Certifique-se de que concluíram o procedimento do visto de entrada e de que possuem o dinheiro da viagem ou o necessário para a estadia no Japão. Caso contrário, não conceda o visto de trânsito.

~ Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão, telegrama a Chiune Sugihara, 1940, citado em Visas for Life, Yukiko Sugihara, 1995

 

Quase ninguém do lado de fora do portão tinha visto de entrada em lugar nenhum, nem dinheiro guardado. A resposta do ministério, cumprida à risca, deixava a fila inteira na calçada.

Sugihara reuniu a família no quarto e explicou o que aconteceria com a carreira dele se assinasse. Depois desceu e mandou entrar o primeiro grupo.

Nenhum dos três telegramas dizia que ele estava proibido de escrever. Os três diziam que, se escrevesse, ele escreveria sozinho.

 

De 31 de julho até o dia do trem ele escreveu à mão. Cada visto pedia texto, data, carimbo e assinatura, e num único dia ele produzia o que um consulado costumava emitir num mês inteiro.

Quando o consulado foi fechado, mudou-se para o Hotel Metropolis e continuou escrevendo no quarto. Quando o hotel acabou, escreveu na estação.

O resto da guerra ele passou em Praga, em Königsberg e em Bucareste. Em 1945 o Exército Vermelho prendeu a família num campo na Romênia, onde ficaram dezoito meses.

Voltaram ao Japão em abril de 1947 pelo Transiberiano, o mesmo trilho que os vistos dele tinham usado. Poucos meses depois, o ministério pediu a demissão do vice-cônsul. Ele tinha quarenta e sete anos e nenhuma outra profissão.

A justificativa oficial foi corte de pessoal no pós-guerra. Sugihara nunca acreditou na versão oficial, e naquele mesmo ano perdeu o filho Haruki, de sete anos.

 
 
 
 

II  O Triunfo

O visto guardado por vinte e oito anos

 
 

Tóquio, 1968. Um adido econômico da embaixada de Israel chamado Yehoshua Nishri desdobra um papel que carregava desde os dezesseis anos. É um visto de trânsito japonês emitido em Kaunas.

Nishri passou anos procurando o homem cuja assinatura estava naquele papel. Encontrou um Sugihara vivo em Tóquio, empregado de uma empresa comercial, e ligou.

O encontro na embaixada foi a primeira vez em vinte e oito anos que alguém agradeceu por aqueles vistos.

No intervalo entre uma coisa e outra, Sugihara tinha trabalhado como tradutor, como intérprete de meio período e num posto de venda do exército americano, e tinha vendido lâmpadas de porta em porta. Depois passou dezesseis anos em Moscou representando uma trading japonesa, longe da família.

Enquanto ele fazia essas contas de fim de mês, o que tinha escrito à mão em Kaunas seguia funcionando do outro lado do mundo.

A ieshivá de Mir atravessou a guerra inteira com cerca de trezentos alunos e professores porque saiu da Lituânia com os papéis de Zwartendijk e de Sugihara. Foi a única academia talmúdica da Europa continental a chegar ao fim do conflito intacta.

Zorach Warhaftig, um dos organizadores daquela fuga e portador de um dos vistos, virou ministro em Israel e assinou a declaração de independência do país. Foi ele quem levou a história ao governo israelense.

Enquanto o autor daqueles papéis tocava campainha vendendo lâmpadas em Tóquio, os nomes escritos com a letra dele já eram famílias inteiras em quatro continentes.

 

Em 1969 Sugihara foi convidado a Israel. Perguntado sobre o que o tinha levado a desobedecer, ele repetia um provérbio de samurai que tinha ouvido em casa quando criança.

 

Nem o caçador consegue abater o pássaro que voa até ele em busca de abrigo.

~ Chiune Sugihara, citado em In Search of Sugihara, Hillel Levine, 1996

 

Em 1985 o memorial Yad Vashem, em Jerusalém, o reconheceu como Justo entre as Nações. Ele tinha oitenta e cinco anos e estava doente demais para viajar, e a esposa e o filho receberam a honra no lugar dele.

Foi o único japonês a receber o título.

Ele viveu mais um ano. Quando o enterro aconteceu em Fujisawa, em 1986, os vizinhos viram chegar uma delegação de Israel e o embaixador israelense no Japão. Foi assim que a rua descobriu quem tinha morado ali por décadas.

O ministério que pediu a demissão dele levou mais tempo. Em 1991 um vice-ministro apresentou desculpas formais à viúva. Em 2000 o chanceler japonês descerrou uma placa em homenagem a ele no arquivo diplomático de Tóquio, sessenta anos depois dos telegramas.

O número que sobrou é esse: 2.139 vistos, cerca de seis mil pessoas embarcadas e uma estimativa de mais de quarenta mil descendentes vivos hoje por causa de cinco semanas de escrita à mão.

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III  A Lição

A margem que cabia na mão dele

 
 

Vale reparar no tamanho exato da margem que Sugihara tinha.

Ele não podia mudar uma linha da instrução do ministério. Não podia conseguir autorização, porque já tinha pedido três vezes. Não podia garantir que alguém chegasse vivo ao fim da linha do trem.

O que estava de fato na mão dele eram três coisas: um carimbo, uma assinatura e as horas entre acordar e dormir. Ele usou as três até o limite físico.

Ele não conseguiu mudar a regra. Conseguiu escrever dentro dela todos os dias em que ainda tinha o carimbo na mão.

 

Repare também que o preço não foi surpresa.

Em 1935, servindo na Manchúria, Sugihara já tinha largado um posto em protesto contra o tratamento dado à população chinesa local. Ele conhecia por experiência própria o que custava contrariar o ministério.

Quando chamou a família no quarto antes de assinar o primeiro visto, não estava pedindo coragem emprestada. Estava avisando qual seria a conta.

Essa é a diferença entre decisão e impulso: o impulso descobre o preço depois.

Repare agora no que ele fez com os papéis em branco.

Ao soltar papéis assinados e carimbados pela janela, ele passou adiante a parte da autoridade dele que continuaria funcionando depois que ele fosse embora. Abriu mão do controle sobre o resultado e manteve o resultado.

O reconhecimento levou quarenta e cinco anos para chegar. O telefonema de Nishri levou vinte e oito. Ele tocou campainha vendendo lâmpadas durante todo o intervalo, sem saber que a conta já estava paga do outro lado do planeta.

 

Não me importei de perder o emprego. Qualquer pessoa teria feito o mesmo no meu lugar.

~ Chiune Sugihara, 1977, citado em In Search of Sugihara, Hillel Levine, 1996

 

A frase é modesta demais, e o próprio ministério provou. Ele levou meio século para admitir por escrito que o vice-cônsul de Kaunas estava certo, e a demissão nunca foi desfeita em vida.

Na sua vida, a autorização que você espera para começar provavelmente não vem, e a instrução que te trava raramente diz o que você acha que diz. Ela costuma dizer apenas que ninguém vai te dar cobertura.

Vale medir com honestidade o que já está na sua mão hoje: um cargo pequeno, um contato, uma tarde livre, a assinatura que só você pode dar.

 

O que você faria hoje se aceitasse que a autorização que você espera nunca vai chegar?

 
 
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Segundo o relatório que o próprio Sugihara entregou ao ministério japonês, quantos vistos de trânsito ele emitiu naquele verão em Kaunas?

A1.139 vistos
B2.139 vistos
C2.914 vistos
D3.219 vistos

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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