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Os Manuscritos Tirados da Fogueira
Em 1960, os papéis de uma das grandes autoras do Harlem queimavam num quintal de Fort Pierce quando um delegado chegou com a mangueira.
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Fort Pierce, 1960: os papéis salvos do fogo
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7 de janeiro de 1891: Zora Neale Hurston nasce em Notasulga, no Alabama, filha de um pregador batista e de uma professora, e cresce em Eatonville, na Flórida, uma das primeiras cidades dos Estados Unidos incorporada e governada apenas por moradores negros.
1917: aos vinte e seis anos, tira dez anos da própria idade para conseguir vaga gratuita no ensino médio noturno em Baltimore, e passa a dizer que nasceu em 1901. A data inventada acompanha o nome dela até a pedra do cemitério.
1925: chega a Nova York e entra no círculo do Renascimento do Harlem, publicando contos em revistas literárias e dividindo mesa com Langston Hughes e Wallace Thurman.
1928: forma-se em antropologia pelo Barnard College, orientada por Franz Boas, e sai a campo no sul para recolher histórias, cantos de trabalho e receitas de cura nas cidades de serraria da Flórida.
1935: publica Mules and Men, primeiro livro de folclore negro do sul assinado por uma pesquisadora criada dentro daquele mundo.
1937: escreve Their Eyes Were Watching God no Haiti, em sete semanas, durante uma bolsa Guggenheim de pesquisa sobre religiões populares do Caribe.
1948: uma acusação criminal falsa, arquivada depois pela promotoria de Nova York porque a escritora estava fora do país na data indicada, vaza para a imprensa e derruba a venda dos livros dela.
1950: o Miami Herald noticia que a autora está empregada como doméstica numa casa em Rivo Alto Island, recebendo trinta dólares por semana. A patroa descobriu quem ela era ao ver o nome dela numa revista sobre a mesa da sala.
28 de janeiro de 1960: morre no asilo do condado de St. Lucie e é enterrada num terreno sem lápide no cemitério Garden of Heavenly Rest, em Fort Pierce, num enterro pago por vaquinha da vizinhança.
A trajetória costuma ser resumida como talento esquecido e depois redescoberto. A cronologia mostra um percurso mais duro: doze anos entre o último livro publicado e o enterro sem nome, um quintal com os papéis queimando e um delegado de plantão que decidiu apagar o fogo.
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I A Queda
Trinta dólares por semana em Rivo Alto
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A carreira não desabou por falta de leitor. Ela desabou por um processo criminal que nunca teve base. Em setembro de 1948, Zora Neale Hurston foi acusada de abuso contra um menino de dez anos em Nova York. A promotoria arquivou o caso ao confirmar, pelos registros de passaporte, que ela estava em Honduras durante os meses apontados na denúncia.
O arquivamento não teve o mesmo alcance da acusação. Um funcionário do tribunal vazou o processo para a imprensa e os jornais negros de maior circulação publicaram o caso na primeira página, com manchete que ligava o nome dela ao enredo do romance recém-lançado.
O livro em questão era Seraph on the Suwanee, publicado naquele mesmo outubro de 1948. Foi o último romance que ela conseguiu colocar em livraria. Nos onze anos seguintes, escreveu quatro manuscritos e nenhum deles encontrou editora.
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Ela escreveu quatro livros depois de 1948 e não publicou nenhum. O último manuscrito longo, uma biografia de Herodes chamada Herod the Great, foi recusado por Charles Scribner's Sons em 1955, cinco anos antes do fim. |
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O dinheiro acabou antes do ânimo. Entre 1950 e 1959, trabalhou como empregada doméstica em Miami, bibliotecária da base aérea de Patrick, professora substituta na Lincoln Park Academy e colaboradora do Fort Pierce Chronicle, jornal semanal da comunidade negra local, escrevendo uma coluna sobre plantas medicinais e figuras da cidade.
Em 1956 foi demitida da biblioteca da base, segundo o registro de pessoal, por ser qualificada demais para a função. A anotação é literal e vale como retrato de tudo que aconteceu naquela década: um currículo que ninguém sabia onde encaixar numa Flórida ainda segregada.
Nos últimos anos morou numa casa emprestada por um médico de Fort Pierce, que cobrava aluguel simbólico e nem sempre cobrava. Ela cultivava um canteiro na frente, recebia visitas de alunos e continuava escrevendo à máquina numa mesa de cozinha.
Em outubro de 1959 sofreu um derrame e foi levada para o asilo do condado de St. Lucie. Morreu ali em janeiro de 1960, de problema cardíaco, aos sessenta e nove anos, embora a certidão registre sessenta e oito por causa da idade que ela tinha inventado em 1917.
O enterro custou centenas de dólares que ela não tinha. Vizinhos, alunos e leitores do jornal local juntaram o valor. O caixão foi coberto e a cova ficou sem pedra, numa faixa do cemitério que em poucos anos sumiu sob o mato alto.
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II O Triunfo
O mato alto do Garden of Heavenly Rest
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Dias depois do enterro, alguém decidiu limpar a casa. Os papéis que a escritora deixou na mesa e nas caixas foram levados para o quintal e queimados numa fogueira, junto com roupa e móvel velho.
Patrick Duval, delegado do condado que passava pela rua, viu a fumaça, parou o carro e apagou o fogo com uma mangueira de jardim. Ele conhecia a moradora de vista e sabia que ela escrevia. O que sobrou saiu do quintal molhado e chamuscado nas bordas, dentro de caixas encharcadas.
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Não sou tragicamente negra. Não existe grande tristeza represada atrás dos meus olhos. Zora Neale Hurston, Dust Tracks on a Road, 1942 |
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Aquele material foi guardado, catalogado anos depois e virou o núcleo do acervo dela na Universidade da Flórida. Cartas, capítulos soltos, notas de campo e os originais de livros que nunca tinham chegado a editora atravessaram uma fogueira e uma mangueira.
Treze anos depois, em agosto de 1973, uma escritora de vinte e nove anos chamada Alice Walker desceu em Fort Pierce procurando a cova. Estava escrevendo um conto ambientado na Flórida rural e tinha usado Mules and Men como fonte sobre cura e magia popular. Queria saber onde a autora estava enterrada.
Ninguém no cemitério sabia ao certo. Walker entrou no mato alto, que cobria a área abandonada do Garden of Heavenly Rest, chamou o nome da escritora em voz alta e andou até encontrar uma depressão retangular no terreno, do tamanho aproximado de um caixão afundado.
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Ela encomendou uma lápide de granito cinza e mandou gravar cinco linhas: o nome, as datas 1901 a 1960 e a frase que inventou na hora, um gênio do Sul, seguida das três profissões que a escritora exercia ao mesmo tempo, romancista, folclorista e antropóloga. |
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Em março de 1975, a revista Ms. publicou o relato daquela viagem com o título In Search of Zora Neale Hurston. O texto correu escolas e universidades e transformou uma autora fora de catálogo em assunto de sala de aula.
A partir dali, os livros voltaram a ser impressos. Their Eyes Were Watching God, esgotado havia décadas, foi reeditado em 1978 pela University of Illinois Press e entrou nas listas de leitura obrigatória de cursos de literatura americana.
Em 2018 saiu Barracoon, o relato que ela recolheu em 1927 com Cudjo Lewis, um dos últimos sobreviventes do último navio negreiro a chegar aos Estados Unidos. O manuscrito tinha sido recusado nos anos 1930 porque ela se negou a reescrever a fala do entrevistado em inglês padrão. Noventa e um anos depois da entrevista, o livro estreou na lista de mais vendidos do New York Times.
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