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Queda e Triunfo

A Queda do Dia

Os Doze Minutos de Pé

Um menino de sete anos atravessa o portão do asilo de pobres de Lambeth segurando a mão da mãe e descobre, do lado de dentro, que mãe e filho vão dormir em alas separadas.

 

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Queda e Triunfo 

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Menino pequeno de uniforme cinza no pátio de um asilo de pobres da Londres vitoriana em 1896, portão de ferro alto ao fundo, luz cinzenta de manhã fria, expressão de abandono
I

Os Doze Minutos de Pé

 

Um menino de sete anos atravessa o portão do asilo de pobres de Lambeth segurando a mão da mãe e descobre, do lado de dentro, que mãe e filho vão dormir em alas separadas.

Londres, 1896. Charles Spencer Chaplin tinha sete anos, um irmão mais velho chamado Sydney, uma mãe que havia perdido a voz no palco e um pai que trocara a família pela bebida.

Hannah Chaplin cantava em music halls do sul de Londres e sustentava os dois filhos com o que ganhava por noite. Quando a voz falhou de vez, sobraram a máquina de costura, blusas por trocados e uma vista que também começou a falhar.

O pai, igualmente artista de palco, tinha sumido havia tempos dentro do próprio copo. A pensão que ele devia mandar chegava atrasada, chegava menor ou não chegava, e a casa foi encolhendo de quarto em quarto até virar um sótão.

Quando não sobrou aluguel nem comida, a lei inglesa oferecia uma saída única aos indigentes: o asilo de pobres, onde teto e sopa se pagavam com trabalho pesado e com a separação da própria família.

 

Os três entraram juntos pelo portão de Lambeth numa manhã de junho. Do outro lado vieram o uniforme cinza, o banho coletivo, o cabelo raspado contra piolho e a ordem que dividia o grupo: a mãe para a ala das mulheres, os filhos para a dos meninos.

Semanas depois, os irmãos foram transferidos para uma escola de crianças pobres em Hanwell, longe de casa. Havia fila para tudo, vara para quem errava e uma nova separação por faixa de idade, que levou Sydney embora e deixou Charlie sozinho entre desconhecidos.

Num raro dia de folga, Hannah conseguiu autorização para tirar os filhos do asilo. Passaram a tarde num parque de Kennington, dividiram meio quilo de cerejas compradas com moedas contadas e, à noite, voltaram ao portão, onde tiveram que repetir toda a papelada de entrada como se fossem estranhos.

Pouco depois, a fome e a doença cobraram da mãe o preço final. Hannah foi internada num hospital psiquiátrico em Cane Hill, e o menino passou a visitar uma mulher que em alguns dias conversava e em outros olhava para ele sem saber quem era.

Setenta e seis anos depois, num teatro de Los Angeles, uma plateia inteira ficaria de pé por doze minutos por causa desse mesmo garoto. Entre o portão e o palco, ainda haveria a expulsão do país que o transformou no homem mais famoso do mundo.

 
 
⚔⚔⚔
 
 
II

A Queda

 

O garoto do asilo cresceu no palco, atravessou o Atlântico com uma trupe de comédia e, em 1914, entrou num estúdio da Califórnia. De um figurino improvisado num depósito saíram um chapéu-coco, uma bengala fina, calças largas e sapatos grandes demais: o Vagabundo.

Em poucos anos, o personagem virou a imagem mais reconhecida do planeta, inclusive em países que sequer tinham cinema falado. Em 1919, para nunca mais depender de quem assinava o cheque, Chaplin fundou a própria distribuidora com outros três artistas e passou a ser dono dos próprios filmes.

Ele morou nos Estados Unidos por quase quarenta anos, ergueu estúdio próprio, criou família e pagou imposto lá. Nunca pediu a cidadania americana, e repetia que se considerava um cidadão do mundo.

Nos anos 1940 e 1950, o detalhe deixou de ser detalhe. O país entrou na fase mais dura da caça às bruxas, e o escritório de J. Edgar Hoover engordou sobre ele um dossiê que passava de mil páginas.

Não havia crime nenhum na conta. Havia filmes que ridicularizavam um ditador e a linha de montagem, discursos públicos pedindo uma segunda frente para socorrer o aliado soviético na guerra e um processo de paternidade escandaloso, no qual ele foi absolvido no tribunal e condenado nas manchetes.

 

Em setembro de 1952, Chaplin embarcou no transatlântico Queen Elizabeth com a mulher, Oona, e os filhos pequenos. Ia a Londres para a estreia de Luzes da Ribalta e para rever, pela primeira vez em vinte anos, a cidade onde havia passado fome.

 

Ele embarcou como o artista mais amado do século. Dois dias depois, em pleno mar, virou um homem sem porta de volta.

~ O anúncio no meio do Atlântico

 

Dois dias no mar, o procurador-geral James McGranery anunciou à imprensa que o visto de reentrada de Chaplin estava cancelado. Para pisar outra vez em solo americano, ele teria que se apresentar a uma junta de inquérito e responder por torpeza moral e ligações políticas.

Não houve processo, não houve julgamento, não houve sentença. Bastou o anúncio de um funcionário do governo, com o homem já em alto-mar, para que quase quarenta anos de vida virassem bagagem sem endereço de volta.

 

A notícia chegou a bordo enquanto o navio seguia rumo à Europa. Do outro lado da água ficaram a casa, o estúdio, os negativos dos filmes e uma vida inteira erguida desde a chegada de um rapaz sem dinheiro.

Ele decidiu não voltar para se defender diante de uma junta. Comprou uma casa em Corsier-sur-Vevey, na Suíça, acima do lago, e mandou Oona sozinha aos Estados Unidos para esvaziar cofres e recolher o que fosse possível. Ela voltou e renunciou à cidadania americana.

Nos cinemas americanos, Luzes da Ribalta virou alvo de boicote, com salas se recusando a exibir o filme sob pressão de grupos organizados. O homem que ensinara metade do mundo a rir virou indesejado no país que o consagrou.

 
 
⚔⚔⚔
 
 
III

O Triunfo

 

Vevey, 1972. Chaplin estava com oitenta e dois anos e vinte de exílio nas costas. Tinha escrito a autobiografia, criado os filhos naquela casa suíça e rodado o último filme cinco anos antes, longe dos estúdios que ajudou a inventar.

Naquele ano, a Academia de Hollywood decidiu entregar a ele um Oscar honorário. Para que o prêmio fosse possível, o mesmo governo que o barrara em 1952 precisou conceder um visto especial, válido por poucos dias.

Ele hesitou. Tinha oitenta e dois anos, saúde frágil e a memória amarga de uma indústria que se calou quando o portão se fechou. Oona insistiu, ele aceitou, e o velho artista atravessou o oceano mais uma vez.

 

10 de abril de 1972, Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles. Já no fim da noite, as luzes baixaram e a tela do teatro exibiu uma montagem com cenas do Vagabundo, o chapéu torto, a bengala rodando, a rua atravessada em passos de pato.

Então a cortina abriu e apareceu um homem pequeno, de cabelo branco, sozinho no palco. A plateia inteira levantou. E não sentou mais.

 

O aplauso durou doze minutos seguidos, a ovação de pé mais longa já registrada na história do Oscar. De pé estava a mesma indústria que, vinte anos antes, tinha visto o navio partir e não dissera uma palavra em defesa dele.

Chaplin tentou falar e não conseguiu de imediato. Enxugou os olhos, esperou o barulho ceder, disse que palavras eram fúteis e débeis diante daquilo e chamou a plateia de gente doce.

 

Setenta e seis anos separam o portão de Lambeth do palco de Los Angeles. Ele atravessou os dois com o mesmo chapéu na mão.

~ A noite dos doze minutos

 

Trouxeram então ao palco um chapéu-coco e uma bengala. O velho de oitenta e dois anos pegou os dois objetos, jogou o chapéu no ar com o gesto de sempre, e o salão veio abaixo pela segunda vez. A estatueta veio pelo efeito incalculável de ter transformado o cinema na arte do século.

No ano seguinte, ele ainda levou um Oscar de trilha sonora por Luzes da Ribalta, prêmio possível apenas porque o boicote de 1952 havia impedido a estreia do filme em Los Angeles até então. Em 1975, a rainha da Inglaterra o sagrou cavaleiro.

O menino entregue ao asilo de pobres aos sete anos, que perdeu a mãe para um hospital psiquiátrico e o país para um anúncio à imprensa, terminou recebido de pé por doze minutos e ajoelhado diante de uma rainha para ganhar um título.

 
 
 
⚔⚔⚔
 
 
IV

A Lição

 

Você provavelmente nunca vai atravessar o portão de um asilo de indigentes nem receber a notícia, no meio do oceano, de que perdeu o direito de voltar para casa. Mas quase todo mundo já foi posto para fora de algo que ajudou a construir.

O projeto que você levantou e que resolveram tocar sem você. A porta fechada por decisão de alguém que nunca precisou justificar nada. A conta cobrada não pelo que você fez, mas pela versão que contaram a seu respeito.

 

Foi barrado por uma canetada e recebido de volta por doze minutos de aplauso. Entre uma coisa e outra, vinte anos de trabalho.

~ O preço do reconhecimento tardio

 

A história de Charlie Chaplin expõe uma verdade incômoda: reconhecimento quase nunca chega no tempo em que seria justo. Chega atrasado, sem pedido de desculpas por escrito, e quando boa parte de quem decidiu o seu destino já saiu de cena.

Ele poderia ter recusado o convite por orgulho, e ninguém o culparia por escolher o silêncio. Preferiu continuar trabalhando na casa do lago, compondo, escrevendo e criando os filhos, e quando a porta reabriu, atravessou o oceano para receber o que era dele.

 

A pergunta que fica não é se o mundo vai reconhecer você no tempo certo. É se você vai continuar de pé, trabalhando, até o dia em que ele resolver levantar.

 

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