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ED 103

Os Dois Dedos Que Sobraram

Aos dezoito anos, Django Reinhardt perdeu o uso de dois dedos da mão esquerda num incêndio e ouviu dos médicos que nunca mais tocaria.

Django Reinhardt tocando violão com a mão esquerda queimada, Paris

Paris, 1928: a mão esquerda depois do fogo

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Estúdio em Paris, novembro de 1937. Cinco músicos gravam uma peça de pouco mais de três minutos que o mundo conheceria como Minor Swing. Não há bateria, não há sopro, não há piano. Três violões, um contrabaixo e um violino, e no centro do arranjo uma linha de solo que corre em velocidade absurda, com um fraseado que nenhum violonista americano da época tocava daquele jeito.

Quem ouve o disco imagina uma mão inteira no braço do instrumento. A mão que gravou aquilo tinha dois dedos úteis para as notas rápidas. O anelar e o mínimo da mão esquerda estavam contraídos por queimadura, presos numa posição que o dono jamais desfez, e serviam apenas para tocar acordes em duas cordas quando o alcance permitia.

Nada nas gravações denuncia a falta. O que se ouve é o oposto de limitação: um vocabulário de escalas cromáticas, oitavas dobradas e arpejos que soam impossíveis mesmo para quem tem os cinco dedos funcionando. Professores de conservatório passaram décadas tentando transcrever os solos e descobrindo que a digitação convencional não chega naqueles intervalos. A digitação daquele músico não era convencional porque não podia ser.

Nove anos antes daquela sessão, um médico de hospital público em Paris olhou a mão queimada de um rapaz de dezoito anos e recomendou amputar a perna direita, que estava pior. Sobre a mão, disse o óbvio para a medicina de 1928: aqueles dedos não voltariam a se mover, e a carreira de músico acabava ali.

O interessante não é ele ter contrariado o prognóstico. É o método. Entre a cama do hospital e o estúdio existe um trabalho de reconstrução feito sem professor, sem literatura, sem ninguém no planeta que tivesse enfrentado o mesmo problema antes. Entre um ponto e outro existem dezoito meses de cama e um instrumento levado ao hospital por um irmão. Vale voltar à noite em que tudo queimou.

 

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I  A Queda

O incêndio de flores de celuloide

 
 

Jean Reinhardt nasceu em janeiro de 1910 em Liberchies, na Bélgica, dentro de uma caravana manouche. Django é o apelido romani que ficou. A família viajava entre a Bélgica e a França e acabou fixada num acampamento na periferia norte de Paris, perto da Porte de Choisy e depois em Saint-Ouen. Ele nunca frequentou escola, aprendeu a assinar o nome já adulto e nunca leu uma partitura na vida.

O instrumento apareceu cedo. Aos doze anos ganhou um banjo-guitarra e passou a acompanhar acordeonistas nos bailes populares de Paris. Aos treze já tocava profissionalmente. Em 1928, aos dezoito, gravou como acompanhante de Jean Vaissade e outros nomes do baile musette, e o meio parisiense começava a tratá-lo como o melhor da cidade no instrumento. Havia um contrato de trabalho na Inglaterra sendo negociado.

Na noite de 2 de novembro de 1928, ele voltou tarde para a caravana onde morava com a mulher, Bella. Ela fabricava flores artificiais de celuloide para vender nos cemitérios, e a caravana estava cheia daquele material empilhado. Celuloide é nitrato de celulose, o mesmo composto dos filmes de cinema da época, e queima com uma violência que hoje quase não existe em material doméstico.

Django derrubou uma vela ao mexer nas flores. O fogo tomou a caravana em segundos. Ele conseguiu sair carregando a mulher através das chamas, envolvido num cobertor que também pegou fogo. As queimaduras cobriram o lado direito do corpo, com destaque para a perna, e a mão esquerda, que ele usava para pressionar as cordas.

 

O médico recomendou amputar a perna e informou que a mão esquerda não voltaria a funcionar como antes.

 

Ele recusou a amputação. Foram dezoito meses de recuperação, boa parte deles imóvel, com a perna que os médicos queriam cortar respondendo devagar ao tratamento. Voltou a andar primeiro com bengala, depois sem. A perna se resolveu. A mão, não.

O tecido queimado cicatrizou contraído. O quarto e o quinto dedos da mão esquerda ficaram permanentemente dobrados em direção à palma, sem extensão possível. Restaram funcionais o indicador e o médio para as notas, mais o polegar apoiado atrás do braço do instrumento. Para um violonista, é como escrever com dois dedos numa máquina de datilografia projetada para dez.

 

Os médicos disseram que aquela mão não serviria mais para a música. Ele passou os meses seguintes provando o contrário, dedo por dedo, dentro de um quarto.

Michael Dregni, Django: The Life and Music of a Gypsy Legend, 2004

 

A perda técnica era brutal e específica. Toda a pedagogia do violão, europeia ou americana, se apoia em quatro dedos para cobrir quatro casas sem deslocar a mão. Sem o anelar e o mínimo, o alcance da mão cai pela metade, acordes inteiros ficam impossíveis, escalas exigem deslocamento constante do braço e a velocidade despenca. Nenhum manual do mundo tratava daquele caso.

 
 
 
 

II  O Triunfo

A digitação refeita com dois dedos

 
 

Foi o irmão, Joseph Reinhardt, também violonista, quem levou um violão para a cama do hospital. Django começou pelo que ainda alcançava, uma corda de cada vez, e passou a recuperação inteira testando combinações de posição até encontrar caminhos que a mão nova conseguisse percorrer.

O resultado não foi uma adaptação por baixo, foi um sistema próprio. Ele passou a fazer todas as linhas melódicas com indicador e médio, usando deslocamento horizontal ao longo do braço no lugar da abertura vertical dos dedos. Os dois dedos contraídos serviam para acordes em duas cordas, e nada além. A mão direita compensou o resto com uma palhetada de precisão fora do comum.

O que parecia perda virou assinatura. A necessidade de correr o braço em vez de abrir a mão produziu escalas cromáticas longas, deslizantes, e frases construídas em intervalos que um violonista de mão inteira nunca escolheria, porque teria caminhos mais confortáveis. Oitavas dobradas, arpejos diminutos e o vibrato agressivo da mão esquerda entraram no vocabulário pela mesma porta.

Em 1934, no Hot Club de France, ele formou com o violinista Stéphane Grappelli um quinteto sem bateria e sem sopro: violino, três violões e contrabaixo. Era uma formação que ninguém usava para tocar jazz, e ela existiu em parte porque o violão de Django precisava ser ouvido como voz principal, não como base rítmica.

 

O Quintette du Hot Club de France foi o primeiro grupo de jazz de peso mundial montado por europeus, sem herança direta de Nova Orleans.

 

Os discos saíram em série. Djangology, Swing Guitars, Minor Swing em 1937, Nuages em 1940, gravado sob ocupação alemã e transformado em canção quase clandestina de consolo na França ocupada. Duke Ellington o convidou para uma turnê americana em 1946. Músicos americanos que consideravam o jazz um assunto exclusivamente deles passaram a atravessar o oceano para ver aquela mão de perto.

 

Ele não sabia ler nem escrever, e mesmo assim foi o músico mais completo que encontrei na vida.

Stéphane Grappelli, Mon violon pour tout bagage, 1992

 

A técnica virou escola. O estilo que ficou conhecido como jazz manouche, ou jazz cigano, nasceu dessa digitação de dois dedos e é ensinado hoje em conservatórios da Europa inteira, com festivais anuais em Samois-sur-Seine desde 1968. Guitarristas de rock e blues das gerações seguintes copiaram frases inteiras sem saber de onde vinham.

Ele morava mal, sumia antes de shows para pescar, perdia contratos por desaparecer dias seguidos e nunca aprendeu a administrar dinheiro. Faleceu em maio de 1953, aos quarenta e três anos, em Samois-sur-Seine, depois de um derrame. Gravou por vinte e cinco anos, dezoito deles com dois dedos.

 
 
 
 

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III  A Lição

O que sobrou virou o método

 
 

A leitura preguiçosa dessa história diz que o talento supera qualquer obstáculo. A leitura útil é outra: Django não superou a limitação, ele construiu a obra inteira dentro dela. Os solos que fizeram a fama dele são impossíveis de tocar com digitação normal justamente porque foram inventados por uma mão que não tinha a digitação normal disponível.

Vale comparar os dois estados com honestidade. Em outubro de 1928, ele era o melhor violonista de baile de Paris, um instrumentista excelente dentro de um gênero popular que já tinha dono e regra. Em 1934, era o criador de um idioma musical que não existia antes dele e que ainda leva o nome do povo dele. Entre um estado e outro há um incêndio e dezoito meses de quarto.

 

A restrição não atrapalhou o estilo. Ela foi o estilo, porque nenhuma mão inteira teria motivo para procurar aqueles caminhos.

 

O custo merece registro, porque a versão heroica costuma apagar essa parte. Foram queimaduras de terceiro grau em metade do corpo, uma perna que quase saiu, uma carreira interrompida no momento em que decolava, dor crônica pelo resto da vida e uma mão que nunca mais abriu. Nada nesse conjunto é inspirador por si só. O que interessa é o que ele fez com o que sobrou.

Três movimentos separam a adaptação que funciona da que só reduz o dano:

 
1Inventarie o que ainda funciona antes de lamentar o que se foi. Django gastou a recuperação mapeando o que os dois dedos restantes alcançavam, não medindo o tamanho da perda. 2. Refaça o método, não o resultado. Ele não tentou reproduzir o violão de antes com menos dedos, criou uma forma nova de percorrer o braço que a mão nova executava bem. 3. Monte o contexto em volta da sua forma. O quinteto sem bateria existiu porque o instrumento dele precisava de espaço sonoro que uma big band jamais daria.
 

O detalhe final é de proporção. Um acidente de vinte segundos numa caravana de lona custou dois dedos e devolveu um gênero musical inteiro, tocado hoje por gente que nasceu meio século depois do enterro dele. A limitação não foi vencida em nenhum momento: ela continuou lá, visível em qualquer foto da mão esquerda dele segurando o instrumento.

Quem espera recuperar a condição antiga para voltar ao trabalho costuma esperar para sempre. Quem refaz o método com o que restou às vezes descobre um caminho que ninguém com a mão inteira teria motivo para procurar.

 

Qual parte do seu método você ainda tenta executar do jeito antigo, com uma mão que já mudou?

 
 
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Durante a longa recuperação no hospital, quem levou um violão até a cama de Django para ele recomeçar a treinar a mão?

AO médico que cuidava do caso
BStéphane Grappelli, futuro parceiro no Hot Club
CJoseph Reinhardt, irmão e também violonista
DBella, esposa de Django

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