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Os Cento e Trinta Capítulos Que Faltavam
Em 99 a.C., defender o general Li Ling diante do imperador Wu custou a Sima Qian quase tudo, menos os rolos de bambu por terminar.
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Hancheng: o túmulo do Grande Escriba
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145 a.C.: Sima Qian nasce em Longmen, junto ao rio Amarelo, no atual distrito de Hancheng, província de Shaanxi, filho de Sima Tan, o taishi (grande escriba, o funcionário que cuidava dos arquivos, dos presságios e do calendário da corte Han).
126 a.C.: por volta dos vinte anos, sai numa viagem longa pelo sul e pelo leste do império, subindo montanhas sagradas, copiando inscrições e ouvindo velhos contarem histórias de reis e bandidos que ele ainda ia escrever.
110 a.C.: Sima Tan adoece em Luoyang, fora da comitiva imperial que ele deveria acompanhar, e faz o filho jurar, à beira do leito, que terminaria a história que ele mal tinha começado.
108 a.C.: Sima Qian assume o posto do pai na corte do imperador Wu, em Chang'an, com acesso aos arquivos do palácio.
104 a.C.: participa da reforma do calendário Taichu (Grande Princípio) e começa a escrever o Shiji (Registros do Grande Escriba).
99 a.C.: o general Li Ling, com cinco mil infantes, é cercado por dezenas de milhares de cavaleiros Xiongnu no deserto do norte, luta oito dias e se rende. Na corte, um único funcionário fala a favor dele.
98 a.C.: Sima Qian é condenado por difamação ao imperador e recebe a sentença capital. A lei Han abria duas saídas: pagar quinhentas mil moedas de cobre ou passar pela punição do palácio, a castração.
97 a.C.: sai da prisão e volta ao palácio como zhongshuling (prefeito dos escribas do interior), cargo reservado a eunucos, mais próximo do imperador que o anterior.
Por volta de 93 a.C.: escreve a Ren An, amigo preso e condenado à execução, a carta em que explica por que continuou vivo.
Por volta de 91 a.C.: o Shiji chega a 130 capítulos e cerca de 526 mil caracteres, do imperador Amarelo mítico até o reinado que o havia condenado.
A leitura preguiçosa dessa lista vê um funcionário punido por abrir a boca na hora errada. A contagem mostra outra coisa: mais de meio milhão de caracteres que nenhum arquivo do império guardava, e que não existiriam se ele tivesse aceitado o fim honroso que a corte esperava de um homem na posição dele.
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I A Queda
Cinco mil infantes contra a cavalaria do deserto
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No outono de 99 a.C., Sima Qian tinha quarenta e poucos anos, um posto modesto na corte de Chang'an e um manuscrito inacabado em casa. A guerra contra os Xiongnu, a confederação nômade das estepes do norte, ocupava o imperador Wu havia décadas.
O general Li Ling pediu para atacar com cinco mil infantes, sem cavalaria de apoio, e partiu para o norte do deserto. A coluna encontrou uma força Xiongnu muitas vezes maior, recuou combatendo por oito dias, gastou as flechas até a última e perdeu a maior parte dos homens. Cercado, sem munição e sem reforço, Li Ling se rendeu.
A notícia chegou a Chang'an e a corte inteira condenou o general. Os mesmos ministros que o tinham elogiado semanas antes passaram a pedir punição para a família dele. O imperador perguntou a opinião a Sima Qian, que estava na sala como escriba.
Ele respondeu que Li Ling havia enfrentado um inimigo dez vezes maior, matado mais soldados do que perdera, e que a rendição parecia cálculo de quem pretendia voltar e servir de novo. Disse também, sem rodeios, que a derrota vinha da falta de reforço enviado pelo comando.
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Escrevi com franqueza o que pensava, e por não conseguir me explicar direito, o soberano entendeu que eu depreciava o general em campo e defendia um traidor. Sima Qian, Carta a Ren An, preservada no Livro dos Han, de Ban Gu, século I |
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O general em campo era Li Guangli, cunhado da favorita do imperador. A frase foi lida como acusação à família imperial. Sima Qian foi preso e julgado por difamação ao trono, crime capital.
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A lei Han dava ao condenado duas portas: quinhentas mil moedas de cobre de resgate ou a castração. Ele não tinha o dinheiro e nenhum amigo da corte se ofereceu para pagar. |
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A terceira saída, a que todo funcionário letrado da época teria escolhido, era o fim por vontade própria antes da execução, o gesto que preservava o nome da família. Sima Qian tinha esse caminho aberto e o recusou.
A punição do palácio arrastava o condenado para a "câmara do bicho-da-seda", uma sala aquecida e vedada onde ele ficava semanas para não morrer de infecção. Quem saía de lá perdia a barba, a voz e o lugar entre os homens de bem. Na prática, era um sobrevivente que os antigos amigos deixavam de cumprimentar na rua.
Ele saiu vivo em 97 a.C. Da família, a vergonha; do posto, uma nomeação nova na secretaria interna do imperador, cargo de eunuco. Nenhum dos ministros que o acusaram foi desmentido em público.
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II O Triunfo
Meio milhão de caracteres em rolos de bambu
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O que o prendeu à vida cabe em uma linha do próprio texto dele: a promessa feita ao pai em Luoyang e as tiras de bambu empilhadas na casa em Chang'an, escritas até a metade.
Sima Qian voltou ao trabalho no posto de zhongshuling, que o punha dentro do palácio, despachando documentos do imperador durante o dia. À noite continuou o livro. O material vinha dos arquivos imperiais, de crônicas de estados antigos, de tábuas genealógicas, de relatos colhidos nas viagens da juventude e de conversas com netos de personagens que ele descrevia.
A obra terminou com 130 capítulos, divididos em cinco partes que ninguém tinha usado juntas antes. Doze benji (anais básicos, o fio do tempo dos soberanos). Dez biao (tabelas cronológicas, com os eventos em colunas paralelas). Oito shu (tratados temáticos sobre ritual, música, calendário, astronomia, rios e economia). Trinta shijia (casas hereditárias, as linhagens dos estados). E setenta liezhuan (biografias ordenadas), o bloco que virou a marca do livro.
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As biografias entraram no arquivo do império com gente que nenhum arquivo do império registrava: assassinos de aluguel, comerciantes ricos, médicos, adivinhos, bufões da corte e cavaleiros errantes. |
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Sima Qian também escreveu sobre os vivos e sobre o próprio imperador. O capítulo dedicado ao reinado de Wu era crítico o bastante para desaparecer cedo da circulação; o texto que sobrou nessa posição do livro é remendo de mão posterior, montado com trechos de outro capítulo.
O método aparece nos comentários assinados "o Grande Escriba diz", que fecham os capítulos. Ali ele pesa as versões que recolheu, aponta onde as fontes se contradizem e diz quando não sabe. Sobre a família de Confúcio, por exemplo, registra o que viu com os próprios olhos ao visitar Qufu: as roupas, os carros e os vasos rituais ainda guardados pelos descendentes.
O livro não foi publicado enquanto ele viveu. Uma cópia ficou escondida na casa da família e outra foi depositada na capital. A neta dele, Yang Yun, filha de sua filha, fez o texto circular por volta de 60 a.C., quase três décadas depois da morte do avô.
A data exata do fim da vida de Sima Qian não está registrada em documento nenhum, e os historiadores trabalham com algo em torno de 86 a.C. Não se sabe se ele morreu no posto, se foi executado numa das purgas do fim do reinado de Wu, ou se simplesmente saiu da corte. As duas hipóteses aparecem nos comentários antigos sem prova que decida.
O que ficou registrado é o efeito. Todas as vinte e quatro histórias dinásticas oficiais da China, escritas ao longo de dois mil anos, copiaram o formato dele: anais, tabelas, tratados, biografias. O primeiro a copiar foi Ban Gu, no Livro dos Han, o mesmo que salvou a carta a Ren An.
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