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ED 117

Os Cento e Trinta Capítulos Que Faltavam

Em 99 a.C., defender o general Li Ling diante do imperador Wu custou a Sima Qian quase tudo, menos os rolos de bambu por terminar.

O túmulo de Sima Qian na colina de Zhichuan, em Hancheng, província de Shaanxi, onde o Grande Escriba nasceu em 145 a.C.

Hancheng: o túmulo do Grande Escriba

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145 a.C.: Sima Qian nasce em Longmen, junto ao rio Amarelo, no atual distrito de Hancheng, província de Shaanxi, filho de Sima Tan, o taishi (grande escriba, o funcionário que cuidava dos arquivos, dos presságios e do calendário da corte Han).

126 a.C.: por volta dos vinte anos, sai numa viagem longa pelo sul e pelo leste do império, subindo montanhas sagradas, copiando inscrições e ouvindo velhos contarem histórias de reis e bandidos que ele ainda ia escrever.

110 a.C.: Sima Tan adoece em Luoyang, fora da comitiva imperial que ele deveria acompanhar, e faz o filho jurar, à beira do leito, que terminaria a história que ele mal tinha começado.

108 a.C.: Sima Qian assume o posto do pai na corte do imperador Wu, em Chang'an, com acesso aos arquivos do palácio.

104 a.C.: participa da reforma do calendário Taichu (Grande Princípio) e começa a escrever o Shiji (Registros do Grande Escriba).

99 a.C.: o general Li Ling, com cinco mil infantes, é cercado por dezenas de milhares de cavaleiros Xiongnu no deserto do norte, luta oito dias e se rende. Na corte, um único funcionário fala a favor dele.

98 a.C.: Sima Qian é condenado por difamação ao imperador e recebe a sentença capital. A lei Han abria duas saídas: pagar quinhentas mil moedas de cobre ou passar pela punição do palácio, a castração.

97 a.C.: sai da prisão e volta ao palácio como zhongshuling (prefeito dos escribas do interior), cargo reservado a eunucos, mais próximo do imperador que o anterior.

Por volta de 93 a.C.: escreve a Ren An, amigo preso e condenado à execução, a carta em que explica por que continuou vivo.

Por volta de 91 a.C.: o Shiji chega a 130 capítulos e cerca de 526 mil caracteres, do imperador Amarelo mítico até o reinado que o havia condenado.

A leitura preguiçosa dessa lista vê um funcionário punido por abrir a boca na hora errada. A contagem mostra outra coisa: mais de meio milhão de caracteres que nenhum arquivo do império guardava, e que não existiriam se ele tivesse aceitado o fim honroso que a corte esperava de um homem na posição dele.

 

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I  A Queda

Cinco mil infantes contra a cavalaria do deserto

 
 

No outono de 99 a.C., Sima Qian tinha quarenta e poucos anos, um posto modesto na corte de Chang'an e um manuscrito inacabado em casa. A guerra contra os Xiongnu, a confederação nômade das estepes do norte, ocupava o imperador Wu havia décadas.

O general Li Ling pediu para atacar com cinco mil infantes, sem cavalaria de apoio, e partiu para o norte do deserto. A coluna encontrou uma força Xiongnu muitas vezes maior, recuou combatendo por oito dias, gastou as flechas até a última e perdeu a maior parte dos homens. Cercado, sem munição e sem reforço, Li Ling se rendeu.

A notícia chegou a Chang'an e a corte inteira condenou o general. Os mesmos ministros que o tinham elogiado semanas antes passaram a pedir punição para a família dele. O imperador perguntou a opinião a Sima Qian, que estava na sala como escriba.

Ele respondeu que Li Ling havia enfrentado um inimigo dez vezes maior, matado mais soldados do que perdera, e que a rendição parecia cálculo de quem pretendia voltar e servir de novo. Disse também, sem rodeios, que a derrota vinha da falta de reforço enviado pelo comando.

 

Escrevi com franqueza o que pensava, e por não conseguir me explicar direito, o soberano entendeu que eu depreciava o general em campo e defendia um traidor.

Sima Qian, Carta a Ren An, preservada no Livro dos Han, de Ban Gu, século I

 

O general em campo era Li Guangli, cunhado da favorita do imperador. A frase foi lida como acusação à família imperial. Sima Qian foi preso e julgado por difamação ao trono, crime capital.

 

A lei Han dava ao condenado duas portas: quinhentas mil moedas de cobre de resgate ou a castração. Ele não tinha o dinheiro e nenhum amigo da corte se ofereceu para pagar.

 

A terceira saída, a que todo funcionário letrado da época teria escolhido, era o fim por vontade própria antes da execução, o gesto que preservava o nome da família. Sima Qian tinha esse caminho aberto e o recusou.

A punição do palácio arrastava o condenado para a "câmara do bicho-da-seda", uma sala aquecida e vedada onde ele ficava semanas para não morrer de infecção. Quem saía de lá perdia a barba, a voz e o lugar entre os homens de bem. Na prática, era um sobrevivente que os antigos amigos deixavam de cumprimentar na rua.

Ele saiu vivo em 97 a.C. Da família, a vergonha; do posto, uma nomeação nova na secretaria interna do imperador, cargo de eunuco. Nenhum dos ministros que o acusaram foi desmentido em público.

 
 
 

II  O Triunfo

Meio milhão de caracteres em rolos de bambu

 
 

O que o prendeu à vida cabe em uma linha do próprio texto dele: a promessa feita ao pai em Luoyang e as tiras de bambu empilhadas na casa em Chang'an, escritas até a metade.

Sima Qian voltou ao trabalho no posto de zhongshuling, que o punha dentro do palácio, despachando documentos do imperador durante o dia. À noite continuou o livro. O material vinha dos arquivos imperiais, de crônicas de estados antigos, de tábuas genealógicas, de relatos colhidos nas viagens da juventude e de conversas com netos de personagens que ele descrevia.

A obra terminou com 130 capítulos, divididos em cinco partes que ninguém tinha usado juntas antes. Doze benji (anais básicos, o fio do tempo dos soberanos). Dez biao (tabelas cronológicas, com os eventos em colunas paralelas). Oito shu (tratados temáticos sobre ritual, música, calendário, astronomia, rios e economia). Trinta shijia (casas hereditárias, as linhagens dos estados). E setenta liezhuan (biografias ordenadas), o bloco que virou a marca do livro.

 

As biografias entraram no arquivo do império com gente que nenhum arquivo do império registrava: assassinos de aluguel, comerciantes ricos, médicos, adivinhos, bufões da corte e cavaleiros errantes.

 

Sima Qian também escreveu sobre os vivos e sobre o próprio imperador. O capítulo dedicado ao reinado de Wu era crítico o bastante para desaparecer cedo da circulação; o texto que sobrou nessa posição do livro é remendo de mão posterior, montado com trechos de outro capítulo.

O método aparece nos comentários assinados "o Grande Escriba diz", que fecham os capítulos. Ali ele pesa as versões que recolheu, aponta onde as fontes se contradizem e diz quando não sabe. Sobre a família de Confúcio, por exemplo, registra o que viu com os próprios olhos ao visitar Qufu: as roupas, os carros e os vasos rituais ainda guardados pelos descendentes.

O livro não foi publicado enquanto ele viveu. Uma cópia ficou escondida na casa da família e outra foi depositada na capital. A neta dele, Yang Yun, filha de sua filha, fez o texto circular por volta de 60 a.C., quase três décadas depois da morte do avô.

A data exata do fim da vida de Sima Qian não está registrada em documento nenhum, e os historiadores trabalham com algo em torno de 86 a.C. Não se sabe se ele morreu no posto, se foi executado numa das purgas do fim do reinado de Wu, ou se simplesmente saiu da corte. As duas hipóteses aparecem nos comentários antigos sem prova que decida.

O que ficou registrado é o efeito. Todas as vinte e quatro histórias dinásticas oficiais da China, escritas ao longo de dois mil anos, copiaram o formato dele: anais, tabelas, tratados, biografias. O primeiro a copiar foi Ban Gu, no Livro dos Han, o mesmo que salvou a carta a Ren An.

 
 
 
 

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III  A Lição

A carta que ele mandou para um condenado

 
 

A carta a Ren An é o documento mais direto que um homem da antiguidade chinesa deixou sobre a própria humilhação. Ren An estava na prisão, esperando execução, e tinha pedido ao velho amigo que usasse a proximidade com o imperador para interceder por ele.

Sima Qian responde que não pode fazer nada, e passa o resto do texto explicando por que continuou vivo depois de 98 a.C. Ele diz que um homem morre uma vez só, e que a morte pode pesar mais que o monte Tai ou menos que uma pena de ganso: o peso vem do que ela serve.

 

Para justificar a escolha, ele lista quem escreveu sob pressão: o rei Wen, encarcerado, ordenou o Livro das Mutações; Confúcio, em dificuldade, compôs os Anais da Primavera e Outono; Qu Yuan, banido, escreveu o Li Sao; Zuo Qiuming, cego, reuniu os Discursos dos Estados; Sun Bin, mutilado nas pernas, escreveu sobre estratégia militar.

 

A lista não é consolo. É um argumento de sobrevivência profissional: obra inacabada some, obra terminada fica, e o autor de uma obra terminada é julgado por ela e não pela vergonha que carregou.

 
1Nomeie a dívida que segura você de pé. A dele tinha nome, lugar e data: a promessa feita ao pai doente em Luoyang, em 110 a.C.
2Separe o julgamento de agora do julgamento de depois. Ele escreveu que esperava ser entendido por gente que ainda não tinha nascido, e a aposta se provou nos dois mil anos seguintes.
3Escreva o que o arquivo oficial não guarda. O que mantém o Shiji vivo não são os anais dos reis, são as setenta biografias de gente que o império teria esquecido.
 

Vale dizer o que não se sabe. O texto da carta chegou até nós por uma única via, o capítulo 62 do Livro dos Han, e não existe cópia independente; parte dos sinólogos discute se Ban Gu editou trechos. O ano exato da carta oscila entre 93 e 91 a.C. conforme o estudioso, e o capítulo sobre o imperador Wu segue considerado perdido.

Os fatos centrais desta edição vêm do próprio Shiji, em especial do capítulo 130, o autoprefácio em que Sima Qian conta a história da própria família, da biografia dele no Livro dos Han de Ban Gu, do século I, e da tradução Records of the Grand Historian, feita por Burton Watson em 1961.

Em Hancheng, província de Shaanxi, a poucos quilômetros de Longmen onde ele nasceu, o túmulo de Sima Qian fica no alto da colina de Zhichuan, com um caminho de pedra que sobe do templo construído no século XI, e recebe visitação paga todos os dias; os 130 capítulos que ele terminou depois de 98 a.C. continuam impressos e à venda em qualquer livraria chinesa.

 

Que obra inacabada você deixaria de escrever se a vergonha decidisse por você?

 
 

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Segundo a lei Han, quais eram as duas saídas oferecidas a Sima Qian para escapar da execução após a condenação por difamação ao imperador?

AExílio na fronteira norte ou serviço militar sob o comando de Li Ling
BConfissão pública na corte ou perda vitalícia do cargo de escriba
CPagar quinhentas mil moedas de cobre ou passar pela punição do palácio, a castração
DTrabalho forçado nos arquivos imperiais por dez anos ou banimento de Chang'an

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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