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ED 119

Os Catorze Meses da Mãe de Kepler

Acusada de bruxaria em 1615, Katharina Kepler passou catorze meses acorrentada enquanto o filho astrônomo escrevia a defesa dela.

A cidade de Leonberg, no ducado de Württemberg, onde o processo contra Katharina Kepler foi aberto em 1615.

Leonberg: a cidade onde o processo correu

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1546: Katharina Guldenmann nasce em Eltingen, aldeia de lavradores a uma hora de caminhada de Leonberg, no ducado de Württemberg. Fica sem pai cedo e cresce na casa de uma tia que, anos depois, seria queimada como bruxa.

1571: casa com o soldado mercenário Heinrich Kepler e, em 27 de dezembro, dá à luz o primeiro filho, Johannes, em Weil der Stadt.

1588: o marido some numa campanha militar e não volta. Ela sustenta a casa vendendo ervas, chás e bebidas preparadas em casa, como faziam as curandeiras de aldeia da região.

1615: Ursula Reinbold, mulher do vidraceiro de Leonberg, acusa a viúva de ter servido a ela uma bebida amarga que a deixou doente por anos.

Dezembro de 1615: o bailio ducal Lutherus Einhorn abre processo formal. A ré tem sessenta e nove anos e não sabe ler nem escrever.

1617: Johannes Kepler, matemático imperial em Linz, busca a mãe e a abriga na própria casa por nove meses.

7 de agosto de 1620: de volta a Württemberg, ela é presa e levada acorrentada para uma sala de guarda na cidade de Güglingen.

Setembro de 1621: os juízes ordenam o territio verbalis (a apresentação dos instrumentos de suplício ao acusado, com a descrição do que cada um faz).

4 de outubro de 1621: absolvida e solta, depois de catorze meses de cativeiro.

Quem conhece o nome Kepler pensa em órbita elíptica e em três leis de movimento planetário. O período em que ele deixou o céu de lado é menos conhecido: entre 1615 e 1621, o homem que calculava a trajetória de Marte virou advogado da própria mãe num tribunal de província, escreveu centenas de páginas de defesa jurídica e atrasou a obra que o imperador esperava. A seção a seguir começa pela acusação que abriu o processo.

 

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I  A Queda

A bebida amarga da mulher do vidraceiro

 
 

Katharina Kepler, viúva desde 1588, vivia em Leonberg de um comércio pequeno e comum na época: ervas colhidas, chás, unguentos e bebidas que ela mesma preparava e vendia a vizinhos doentes. Era baixa, magra, falava alto e discutia com facilidade, e não tinha marido nem posição que a protegesse na hierarquia da aldeia.

O ducado de Württemberg estava no meio de uma onda de perseguição. Só no distrito de Leonberg, seis mulheres foram executadas como bruxas em 1615, o ano em que o nome dela entrou na roda de conversa.

A acusadora era Ursula Reinbold, mulher do vidraceiro da cidade e irmã do barbeiro local. Ela contou que tinha bebido uma dose amarga oferecida pela viúva e que, a partir dali, sofria de dores permanentes. O irmão barbeiro encostou uma espada no peito da velha para arrancar uma confissão.

 

O processo juntou quarenta e nove pontos de acusação, recolhidos casa a casa entre vizinhos: gado que morreu, um mestre-escola que ficou manco, uma criança com dor na perna, um porco que definhou. Nenhum deles trazia testemunha ocular de qualquer ato; todos partiam do mesmo raciocínio, o de que uma desgraça sem causa conhecida precisava de uma culpada.

 

O bailio Lutherus Einhorn conduzia o caso e tinha interesse próprio nele. A acusada havia processado Ursula Reinbold por difamação, e o pedido de indenização caiu sobre a mesma autoridade que agora instruía a denúncia contra ela.

Um detalhe da vida do filho entrou no caldeirão. Johannes Kepler tinha escrito anos antes o Somnium (o sonho), um relato de viagem à Lua em que o narrador é filho de uma curandeira que invoca um espírito para atravessar o espaço. O manuscrito circulou em cópias manuscritas entre conhecidos antes de ser publicado, e a historiadora Ulinka Rublack sustenta que a semelhança entre a personagem e a mãe real alimentou a fofoca em Leonberg.

 

Pequena, magra, morena, faladora e brigona, de temperamento ruim.

Johannes Kepler, descrevendo a própria mãe na autoanálise familiar que escreveu em 1597, citada em The Astronomer and the Witch, de Ulinka Rublack, 2015

 

A descrição do filho mostra que a relação dos dois nunca foi doce. Ele registrou a mãe como pessoa difícil vinte anos antes da acusação, e mesmo assim foi ele quem largou tudo quando o tribunal apareceu.

Em agosto de 1620, os oficiais foram buscá-la na casa da filha, em Heumaden, esconderam-na num baú para o transporte e a levaram para Güglingen. Lá ela ficou acorrentada numa sala com dois guardas de vigia, que a família teve de pagar do próprio bolso, dia após dia, durante os catorze meses seguintes.

 
 
 

II  O Triunfo

A defesa que o matemático imperial escreveu à mão

 
 

Johannes Kepler tinha quarenta e nove anos, era matemático imperial da corte dos Habsburgo e acabava de publicar a Harmonia do Mundo, o livro de 1619 em que aparece a terceira lei do movimento planetário. Em setembro de 1620 ele fechou a casa em Linz, pôs a família numa carroça e cruzou cerca de seiscentos quilômetros até Württemberg, em pleno começo da Guerra dos Trinta Anos.

Ele assumiu a defesa como representante legal da ré, o que o direito da época permitia a um filho. Estudou o inquérito ponto por ponto e redigiu um documento longo, de mais de cem páginas manuscritas, que atacava cada uma das quarenta e nove acusações pelo mesmo método que usava na astronomia: procurar a causa natural antes de aceitar a sobrenatural.

O gado morreu de doença conhecida. O mestre-escola ficou manco depois de carregar peso. A dor de Ursula Reinbold coincidia com um tratamento malfeito que ela havia recebido de outro profissional. Onde a testemunha dizia feitiço, a defesa apresentava fisiologia, calendário e contradição de datas.

 

Interrogada sobre o que faria diante dos instrumentos, ela respondeu aos juízes que podiam arrancar veia por veia do corpo dela, porque não tinha nada para confessar.

 

Em setembro de 1621, a faculdade de direito de Tübingen, consultada pelo tribunal, recomendou o territio verbalis: levar a presa à sala do carrasco, mostrar cada ferramenta e explicar em voz alta o que ela provoca no corpo humano. Era o degrau anterior ao suplício físico, e servia para quebrar a resistência sem deixar marca.

A mulher de setenta e cinco anos ouviu a descrição inteira, recusou a confissão, caiu de joelhos e rezou o pai-nosso, dizendo que deixava o julgamento com Deus. Sem confissão, o processo perdia a peça que o direito criminal da época exigia para condenar.

Em 4 de outubro de 1621, o duque Johann Friedrich de Württemberg mandou soltá-la. A absolvição veio com uma conta: a família arcou com a despesa dos guardas e do cativeiro, e a velha voltou para uma cidade onde os vizinhos que a denunciaram continuavam morando.

Katharina Kepler morreu em 13 de abril de 1622, seis meses depois de sair da prisão. O filho escreveu que ela nunca recuperou as forças perdidas na sala de guarda.

 
 
 
 

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III  A Lição

O que o processo deixou guardado em Stuttgart

 
 

O preço profissional da defesa aparece no calendário de trabalho de Johannes Kepler. Entre 1615 e 1621, ele viajou para Württemberg três vezes, sustentou correspondência jurídica constante e passou o último ano quase integralmente no caso. As Tábuas Rudolfinas, o catálogo de posições estelares encomendado pelo imperador Rodolfo II ainda em 1601, só ficaram prontas em 1627.

 
1Ele levou o método do ofício para fora do ofício. A defesa não apelou a caráter nem a compaixão; ela desmontou quarenta e nove alegações procurando a causa física de cada evento, exatamente como fazia com a órbita de Marte.
2A posição de corte virou ferramenta processual. O título de matemático imperial deu a ele acesso ao duque e à faculdade de direito de Tübingen, e foi o que manteve o caso longe da tortura física aplicada em outras rés do mesmo distrito.
3A recusa dela sustentou o resultado. Sem a confissão que o tribunal esperava arrancar, o processo ficou sem base para a sentença de morte, e a firmeza de uma senhora analfabeta valeu tanto quanto o documento do filho.
 

Vale dizer o que continua em aberto. Não se sabe onde ela foi sepultada: a localização exata do túmulo em Leonberg se perdeu. Também não há registro do que aconteceu com Ursula Reinbold depois da absolvição, nem do desfecho do pedido de indenização por difamação. E a hipótese de que o Somnium alimentou a denúncia é leitura de historiadora sobre as circunstâncias, não confissão registrada por nenhuma testemunha do processo.

Os fatos centrais desta edição vêm de The Astronomer and the Witch, Johannes Kepler's Fight for his Mother, da historiadora Ulinka Rublack, publicado em 2015, e de Kepler's Witch, de James A. Connor, de 2004. Os dois trabalham sobre a mesma fonte primária: os autos completos do processo, com depoimentos, atas e a defesa escrita pelo filho.

O maço inteiro de papéis do caso de Leonberg, folha por folha, está guardado hoje no arquivo principal do estado de Baden Württemberg, em Stuttgart, e é dali que sai cada data desta edição. O filho que redigiu aquelas páginas morreu em Regensburg em 1630, e o túmulo dele foi destruído pelos exércitos suecos dois anos depois, durante a mesma guerra que ele atravessou de carroça para chegar até a mãe.

 

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