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A Queda do Dia
Os Cadernos Catados do Lixo
Uma catadora de papel abre um caderno achado no lixo, senta no chão do barraco depois que os filhos dormem e escreve o que comeu e o que não comeu naquele dia.
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| I | Os Cadernos Catados do Lixo |
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Uma catadora de papel abre um caderno achado no lixo, senta no chão do barraco depois que os filhos dormem e escreve o que comeu e o que não comeu naquele dia.
São Paulo, 1958. Carolina Maria de Jesus tinha quarenta e quatro anos, três filhos pequenos, um barraco de tábua na favela do Canindé e mais de vinte cadernos empilhados dentro de casa.
Ela havia nascido em Sacramento, no interior de Minas Gerais, em 1914, filha de uma lavadeira que não sabia ler. A escola durou dois anos, pagos pela patroa da mãe, e foi o bastante para ela sair de lá lendo.
Foram os únicos dois anos de estudo da vida inteira. Deu para juntar as letras, e a menina passou a ler tudo que aparecia na cidade pequena, incluindo o jornal velho que embrulhava carne no açougue.
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Em 1947, grávida do primeiro filho, ela foi dispensada do emprego de doméstica em São Paulo. Juntou tábua, lata e papelão nas obras da região e levantou sozinha um barraco na beira do Tietê, na favela do Canindé. |
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Os três filhos vieram de pais diferentes e nenhum dos pais ficou. João José, José Carlos e Vera Eunice cresceram ali dentro, e a conta de alimentar quatro bocas caía inteira sobre ela, todo santo dia.
O trabalho era catar papel. Ela saía de madrugada com um saco nas costas, andava quilômetros pelas ruas do centro, recolhia papel, lata, ferro velho e garrafa, e vendia tudo no ferro-velho por alguns cruzeiros.
Nas pilhas que recolhia vinham cadernos jogados fora, com folha em branco no meio. Ela separava esses cadernos e levava para casa junto com o dinheiro do dia, como quem separa a melhor parte do achado.
Ali começava o segundo turno. À noite, com os filhos dormindo, ela sentava e escrevia num caderno catado do lixo o que tinha acontecido naquele dia, com data, preço de comida e nome de vizinho.
Doze anos depois de começar a escrever no chão daquele barraco, ela estaria autografando o próprio livro no centro de São Paulo, com fila dobrando a esquina da livraria.
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A favela do Canindé ficava na várzea do Tietê, colada num bairro operário, e crescia a cada semana com quem chegava do interior sem ter para onde ir. Barraco de tábua, torneira coletiva, lama e rio ao lado.
O caderno registrava uma coisa só, dia após dia: quanto entrava e quanto faltava. Carolina anotava o preço do feijão, o que conseguiu comprar, o que os filhos comeram e em que hora comeram.
Anotou que a filha Vera Eunice pediu um par de sapatos de aniversário e que o dinheiro do papel não deu, porque o custo dos alimentos tinha subido de novo naquela semana.
Escrevia também o resto: a briga na torneira, o bêbado na porta, a criança que apanhava, o cheiro do rio, a lama que entrava por baixo da tábua quando chovia forte.
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Catar papel rendia pouco e rendia menos ainda quando o preço do quilo caía no ferro-velho. Havia dia em que a caminhada inteira dava para comprar pão, e havia dia em que não dava nem o pão. |
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Havia noite em que ela escrevia com fome e escrevia sobre a fome, sem rodeio, anotando que a barriga doía e que ia deitar assim mesmo para não gastar o que tinha sobrado para o café da manhã dos filhos.
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A cidade jogava o papel fora. Ela recolhia o papel, vendia o papel e escrevia a vida inteira dela no que sobrava do papel. ~ Os anos de catação |
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Os vizinhos sabiam dos cadernos e não gostavam. Ela avisava, no meio de qualquer discussão, que ia colocar o nome de quem estava gritando no livro dela, e a ameaça funcionava melhor que xingamento.
Na favela, ela virou figura estranha: a mulher que catava papel de dia e escrevia de noite, que falava difícil, que não parava para conversa e que chamava a favela de quarto de despejo da cidade.
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Nenhuma editora tinha visto uma linha daquilo. Os cadernos ficavam empilhados dentro do barraco, escritos com letra caprichada, e a única leitora daquela obra era a própria autora. |
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Ela tentou mostrar. Ofereceu texto a quem aparecia por lá, ouviu que aquilo não interessava a ninguém e guardou tudo de volta. Continuou escrevendo do mesmo jeito, todo dia, por mais de uma década.
Escrever não rendia um centavo. Enquanto os cadernos enchiam, o dia seguinte continuava igual: sair de madrugada, andar a cidade, catar papel, voltar e dividir entre três crianças o que deu para comprar.
Em 1958, a inauguração de um parquinho na beira daquela favela virou pauta de jornal, e um repórter foi mandado ao Canindé para escrever a matéria do dia.
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O repórter se chamava Audálio Dantas e chegou atrás de um assunto pequeno. O parquinho recém-inaugurado tinha sido tomado pelos adultos da favela, e a confusão era o que ele havia sido enviado para apurar.
No meio da bagunça, ele ouviu uma mulher gritar com os homens que ia botar o nome de todos eles no livro dela. Ele largou o parquinho e foi atrás de entender que livro era aquele.
Carolina levou o repórter até o barraco e mostrou a pilha. Eram mais de vinte cadernos catados do lixo, cheios de diário, verso, provérbio e romance, escritos à mão ao longo de anos.
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Ele leu ali mesmo, sentado, e entendeu que a pauta tinha mudado. A favela contada por dentro, com data, preço e nome, estava escrita naqueles cadernos havia anos, e ninguém no país tinha lido uma página.
Dantas publicou trechos do diário no jornal ainda em 1958. A reação foi imediata: carta chegando na redação, leitor querendo saber quem era a mulher do Canindé, editor percebendo que aquilo era um livro.
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Em agosto de 1960, o diário virou livro com um título tirado de uma frase dela mesma: o palácio é a sala de visita da cidade, e a favela é o quarto de despejo onde se joga o que ninguém quer ver. |
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Quarto de Despejo saiu numa tiragem de dez mil exemplares, número alto para o mercado brasileiro daquele ano. A tiragem inteira acabou em poucos dias nas livrarias.
No lançamento, no centro de São Paulo, a fila dobrou a esquina. Carolina autografou de pé, com os filhos por perto, um livro escrito no chão de um barraco por uma mulher que a cidade só via empurrando saco de papel.
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O repórter entrou no Canindé atrás de um parquinho de bairro. Saiu de lá com o livro que faltava no país. ~ A visita de 1958 |
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O livro passou de cem mil exemplares no Brasil em pouco tempo e foi traduzido para mais de dez idiomas, chegando às livrarias de dezenas de países que jamais tinham ouvido falar do Canindé.
Ela foi entrevistada em rádio e em televisão, recebeu convite de fora, viajou para países vizinhos e sentou para conversar com gente que jamais teria atravessado a rua para falar com uma catadora de papel.
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Com o dinheiro do primeiro ano, comprou uma casa de alvenaria em Osasco e tirou os três filhos da favela. Saiu do Canindé pela porta da frente, carregando na mudança os cadernos que tinha catado do lixo. |
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O que veio depois não foi conto de fadas. Os livros seguintes venderam pouco, o dinheiro do primeiro acabou, e ela terminou a vida plantando e criando bicho num sítio pequeno em Parelheiros, longe do centro.
O registro, porém, ficou de pé. Quarto de Despejo entrou em programa de escola e de vestibular, virou objeto de estudo em universidade estrangeira e segue sendo um dos livros brasileiros mais traduzidos do século.
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A mulher que a cidade não enxergava escreveu, num caderno tirado do próprio lixo dessa cidade, o documento que o país ainda usa para entender como se vive dentro de uma favela. |
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Você provavelmente tem uma ferramenta melhor que um caderno rasgado achado dentro de um saco de papel velho. Quase todo mundo tem. O que quase ninguém tem é a disciplina que aquela mulher teve.
Carolina não esperou material bom, tempo livre, curso, editora nem permissão de ninguém. Escreveu com o que sobrou do lixo dos outros, depois de andar a cidade carregando peso, com três crianças dormindo ao lado.
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Ninguém deu material, tempo nem permissão para ela escrever. Ela escreveu com o que a cidade tinha jogado fora. ~ O barraco do Canindé |
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E não escreveu uma vez, num dia de inspiração. Escreveu todo dia, por mais de uma década, sem leitor, sem retorno e ouvindo de quem estava perto que aquilo era perda de tempo de gente que precisava comer.
O repórter não criou nada. Ele chegou em 1958 e encontrou obra pronta, empilhada dentro de um barraco, esperando alguém abrir a primeira página. A sorte dela foi ter o que mostrar no dia em que perguntaram.
A maior parte das pessoas faz o contrário: espera alguém perguntar para então começar a produzir. Quando a pergunta enfim chega, não existe pilha nenhuma para colocar em cima da mesa.
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A pergunta que fica não é se alguém um dia vai bater na sua porta. É o que vai estar empilhado dentro de casa no dia em que baterem. |
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