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1 leitor escolheu As Sete Expedições de Tenzing. Sai em 01/10.
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Os 69 Anos de Machado
Neto de escravizados libertos, gago e epiléptico, o menino do Morro do Livramento saiu da gráfica para presidir a Academia Brasileira de Letras.
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Uma oficina de tipografia no Rio, 1856
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21 de junho de 1839: nasce Joaquim Maria Machado de Assis no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, numa casa de agregados da chácara de dona Maria José de Mendonça Barroso, viúva de um senador do Império, que vira madrinha do menino.
O pai, Francisco José de Assis, é pintor de paredes e dourador, filho de escravizados libertos. A mãe, Maria Leopoldina Machado da Câmara, veio da ilha de São Miguel, nos Açores, e sabe ler, raridade entre as mulheres pobres da cidade.
1845: a irmã caçula, Maria, não resiste a um surto de sarampo e parte aos quatro anos. A casa de agregados fica com três moradores.
1849: a mãe sucumbe à tuberculose. Joaquim Maria tem dez anos e fica sozinho com o pai, que pinta paredes de sobrado para pagar o aluguel.
1854: o pai se casa de novo, com Maria Inês da Silva, que assume o enteado e o leva para morar em São Cristóvão.
1855: aos 15 anos, publica o primeiro poema, «Ela», na revista Marmota Fluminense, do editor e livreiro Francisco de Paula Brito, filho de família pobre e mestiça, que abria a loja da praça da Constituição aos rapazes que escreviam.
Nenhuma escola regular aparece nos registros. Segundo relatos que os biógrafos recolheram sem documento que os confirme, o menino aprende francês com uma padeira francesa do bairro e latim com um padre da vizinhança.
Há ainda dois obstáculos que nenhum professor resolve. Ele gagueja quando fala em público, o que lhe fecha a sala de aula, o balcão de loja e a conversa de salão onde rapazes pobres arrumavam padrinho. E carrega uma doença que a família prefere não nomear.
Aos 16 anos, sem dinheiro, sem diploma e sem sobrenome de peso, ele bate à porta do lugar onde o Império imprime as próprias leis. É lá que começa a queda que quase o tira do caminho.
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I A Queda
Letras de chumbo
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Em 1856, Joaquim Maria Machado de Assis entra como aprendiz de tipógrafo (o operário que monta, letra por letra, as peças de chumbo que vão à prensa) na Imprensa Nacional, a gráfica do governo imperial. Tem 17 anos e ganha pouco.
O trabalho é de pé, diante das caixas de tipos, com os olhos colados em letras miúdas e invertidas. O rapaz lê nos intervalos com tanta frequência que o chefe da oficina reclama do aprendiz distraído.
O diretor da casa, o romancista Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Milícias, repara no leitor escondido e passa a protegê-lo. É o primeiro de uma série de homens mais velhos que abrem porta para o menino do Livramento.
Em 1858, ele sai da oficina para ser revisor de provas (quem corrige os erros do texto antes da impressão) na livraria de Paula Brito. Em 1860, o jornalista Quintino Bocaiúva o leva para a redação do Diário do Rio de Janeiro, onde ele cobre as sessões do Senado.
Nesses anos ele escreve de tudo: crônicas (textos curtos de jornal sobre a vida da cidade), crítica de teatro, peças, contos e traduções do francês. Vive do texto por encomenda e aprende o ofício no prazo do jornal, que fecha toda noite.
O corpo cobra outra conta. A gagueira o afasta da tribuna, dos discursos e dos saraus com leitura em voz alta, onde se fazia carreira literária no Rio. Ele se firma na palavra escrita porque na fala tropeça.
A segunda doença é a epilepsia. As crises vêm com perda de consciência e convulsões, e voltam ao longo da vida adulta. Nas cartas, ele trata o assunto por rodeios e quase nunca escreve o nome do mal.
Em 1869 ele se casa com Carolina Augusta Xavier de Novais, portuguesa do Porto, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais. Parte da família dela resiste ao casamento com um homem mestiço e sem posses. Carolina fica.
Até ali, a obra é de um escritor correto e pouco lido: os poemas de Crisálidas, de 1864, e os romances Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, histórias de moças casadoiras que agradam ao público dos folhetins (romances publicados em capítulos no jornal).
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Em 1878, aos 39 anos, uma crise intestinal e uma inflamação nos olhos o tiram do trabalho: quase sem enxergar, ele deixa o Rio por três meses e vai se tratar em Nova Friburgo, na serra. |
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Na serra, com os olhos doentes, ele não consegue ler nem escrever. Quem lê para ele é Carolina. De volta ao Rio, segundo a tradição da família que os biógrafos registram, ele dita a ela os primeiros capítulos de um livro que não se parece com nada do que tinha escrito.
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II O Triunfo
O defunto que narra
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Machado de Assis tem 40 anos quando o livro começa a sair, em capítulos, na Revista Brasileira, em março de 1880. Em 1881, aos 42, a Tipografia Nacional, a mesma casa onde ele montava letras de chumbo aos 17, o publica em volume: Memórias Póstumas de Brás Cubas.
O narrador é um homem rico que já está enterrado e resolve contar a própria vida de dentro da cova, sem medo de ofender ninguém. O livro abre por uma dedicatória:
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“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.” Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881 |
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Os leitores dos folhetins estranham. Os capítulos são curtos, alguns têm uma linha, um deles traz só nomes e sinais de pontuação. O narrador conversa com o leitor, zomba dele e zomba de si.
O livro vende pouco no começo e conquista a crítica devagar. Em 1891 vem Quincas Borba. Em 1899, Dom Casmurro, o romance de Bentinho e Capitu. Se Capitu traiu o marido, o livro nunca diz: quem narra é o próprio marido ciumento, e a resposta ficou em aberto de propósito.
Em 1904 sai Esaú e Jacó, a história dos gêmeos Pedro e Paulo, que brigam desde o ventre da mãe: um cresce monarquista, o outro republicano. Entre um romance e outro, ele publica os contos que hoje abrem as antologias escolares, como O Alienista, de 1882.
Na repartição, o ex-aprendiz sobe. Entra em 1873 no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e chega a cargos de direção, com a mesma pontualidade de funcionário que mantém até a aposentadoria.
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Em 20 de julho de 1897, aos 58 anos, ele preside a sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras, numa sala emprestada do Pedagogium, no centro do Rio, como primeiro presidente da casa. |
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A ideia partiu do escritor Lúcio de Mendonça. Machado ocupa a cadeira 23 e escolhe para ela o patrono José de Alencar, o romancista que ele lia na juventude. O homem que gaguejava lê um discurso curto na abertura.
Ele preside a Academia por mais de dez anos, até o fim da vida. Nas sessões, fala pouco e escuta muito, e os colegas mais novos o tratam por mestre.
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