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Abu'l-Qasim Ferdowsi Tusi levou o Livro dos Reis à corte de Ghazni com a expectativa de um prêmio à altura de três décadas de trabalho. O relato mais antigo do encontro está no Chahar Maqala (Quatro discursos), do escritor persa Nizami Aruzi, de cerca de 1156.
Pelo relato, um copista de Tus chamado Ali Daylam passou o poema a limpo em sete volumes, e um recitador, Abu Dulaf, acompanhou o autor para ler os versos em voz firme diante do sultão. Ferdowsi pagou os dois do próprio bolso.
Segundo Nizami Aruzi, Mahmud mandou pagar 20 mil dirhams, moedas de prata. Era uma fração do esperado. Uma lenda posterior, repetida em manuscritos dos séculos seguintes, fala de um dinar de ouro prometido por dístico, trocado na hora por prata.
O motivo do sultão
Nizami Aruzi dá o motivo. Os cortesãos de Ghazni disseram ao sultão que Ferdowsi era rafidi (xiita, na palavra pejorativa dos sunitas) e mutazilita, corrente que lia o Alcorão pela razão. Mahmud era sunita rigoroso e perseguia as duas linhas.
O vizir que apoiava o poeta na corte, Abu'l-Abbas Esfarayeni, tinha caído em desgraça antes da entrega do manuscrito. Sem ele, Ferdowsi chegou a Ghazni sem ninguém para defender o pedido diante do sultão.
O poema também incomodava pela matéria. O Shahnameh celebra reis persas anteriores ao islã e trata os turcos de Turan como inimigos hereditários do Irã. O sultão era turco.
No trecho mais famoso, Rostam mata em combate um jovem guerreiro de Turan e descobre, tarde, que era Sohrab, o próprio filho. Mahmud ouviu um poema em que o herói persa vence e o turco chora.
O banho e a fuga
Ferdowsi recebeu os 20 mil dirhams e foi ao banho público. Ao sair, dividiu a quantia entre o atendente do banho e um vendedor de fuqqa (bebida de cevada fermentada). O gesto chegou à corte como insulto, e o poeta fugiu.
Passou seis meses escondido em Herat, na loja de um livreiro, até os homens do sultão desistirem de procurar. Voltou a Tus, pegou o manuscrito e seguiu para o Tabaristão, região montanhosa à beira do mar Cáspio.
Lá, o governador Shahriyar o recebeu. Ferdowsi escreveu uma sátira de cem dísticos contra Mahmud. Shahriyar, temendo o sultão, comprou os versos por cem mil dirhams, mil por dístico, e mandou apagá-los. Sobraram seis, que circulam até hoje.
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