In partnership with

Queda e Triunfo   Queda e Triunfo
ED 164
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

Os 50.000 Dísticos de Ferdowsi

Ferdowsi gastou 30 anos no Livro dos Reis, recebeu prata do sultão e acabou enterrado no próprio jardim, em Tus.

Poeta persa idoso escrevendo num jardim murado de Tus, século XI.

Tus, Khorasan, 1010

▼
 
 

Cerca de 940: nasce Abu'l-Qasim Ferdowsi Tusi em Paj, aldeia perto de Tus, no Khorasan, nordeste do Irã de hoje. A família é de dehqans (pequenos senhores de terra), gente que guarda as histórias dos reis antigos junto com o trigo e os canais de irrigação.

957: em Tus, o governador Abu Mansur manda quatro sábios zoroastristas reunir em prosa as crônicas dos reis persas. O livro corre a região, e o menino cresce ouvindo os nomes de Rostam, o herói de força desmedida, de Jamshid e de Kay Khosrow.

Cerca de 977: Ferdowsi, já casado e dono de terra, começa a passar a prosa para versos. Antes dele, o poeta Daqiqi tinha escrito mil dísticos (pares de versos rimados) sobre o mesmo material e parado ali, morto por um criado.

994: termina a primeira versão do poema. Não tem patrono fixo, e a renda da terra diminui a cada ano de seca. Continua a escrever, a corrigir e a acrescentar reis. Os versos seguem o mutaqarib (metro de onze sílabas, com batida de galope), o mesmo do primeiro ao último dístico.

Cerca de 1006: aos 65 anos, perde o único filho, de 37. Escreve o lamento dentro do próprio poema, entre um rei e outro, e reclama da velhice, da vista fraca e da falta de dinheiro.

Março de 1010: Ferdowsi encerra o Shahnameh (Livro dos Reis), com quase 50 mil dísticos. A história vai de Kayumars, o primeiro rei da lenda persa, até a conquista árabe de 651, quando cai o último rei sassânida, Yazdegerd III.

1010: o poeta dedica a obra a Mahmud de Ghazni, sultão turco que governa o Khorasan a partir de Ghazni, no atual Afeganistão. Tem cerca de 70 anos, a mão cansada e uma única esperança para a velhice: a paga do sultão.

 

Continue lendo ↓

 

Quem banca a edição de hoje

Meet Gravité: The Men's Cologne Women Love

Buying cologne for the man in your life comes with one big advantage: you get to pick a scent you'll enjoy just as much as he does.

Gravité Cologne by Particle blends bright citrus, warm amber, and aromatic rosemary into a bold, masculine scent that smells sophisticated without being overpowering. Better yet, it’s engineered to last all day, so he can smell great from morning to night.

For a limited time only: Use promo code BH20 for 20% off your order and free shipping. Buy it risk-free with a 30-day money-back guarantee!

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 
 

I  A Queda

A paga em prata

 
 

Abu'l-Qasim Ferdowsi Tusi levou o Livro dos Reis à corte de Ghazni com a expectativa de um prêmio à altura de três décadas de trabalho. O relato mais antigo do encontro está no Chahar Maqala (Quatro discursos), do escritor persa Nizami Aruzi, de cerca de 1156.

Pelo relato, um copista de Tus chamado Ali Daylam passou o poema a limpo em sete volumes, e um recitador, Abu Dulaf, acompanhou o autor para ler os versos em voz firme diante do sultão. Ferdowsi pagou os dois do próprio bolso.

Segundo Nizami Aruzi, Mahmud mandou pagar 20 mil dirhams, moedas de prata. Era uma fração do esperado. Uma lenda posterior, repetida em manuscritos dos séculos seguintes, fala de um dinar de ouro prometido por dístico, trocado na hora por prata.

O motivo do sultão

Nizami Aruzi dá o motivo. Os cortesãos de Ghazni disseram ao sultão que Ferdowsi era rafidi (xiita, na palavra pejorativa dos sunitas) e mutazilita, corrente que lia o Alcorão pela razão. Mahmud era sunita rigoroso e perseguia as duas linhas.

O vizir que apoiava o poeta na corte, Abu'l-Abbas Esfarayeni, tinha caído em desgraça antes da entrega do manuscrito. Sem ele, Ferdowsi chegou a Ghazni sem ninguém para defender o pedido diante do sultão.

O poema também incomodava pela matéria. O Shahnameh celebra reis persas anteriores ao islã e trata os turcos de Turan como inimigos hereditários do Irã. O sultão era turco.

No trecho mais famoso, Rostam mata em combate um jovem guerreiro de Turan e descobre, tarde, que era Sohrab, o próprio filho. Mahmud ouviu um poema em que o herói persa vence e o turco chora.

O banho e a fuga

Ferdowsi recebeu os 20 mil dirhams e foi ao banho público. Ao sair, dividiu a quantia entre o atendente do banho e um vendedor de fuqqa (bebida de cevada fermentada). O gesto chegou à corte como insulto, e o poeta fugiu.

Passou seis meses escondido em Herat, na loja de um livreiro, até os homens do sultão desistirem de procurar. Voltou a Tus, pegou o manuscrito e seguiu para o Tabaristão, região montanhosa à beira do mar Cáspio.

Lá, o governador Shahriyar o recebeu. Ferdowsi escreveu uma sátira de cem dísticos contra Mahmud. Shahriyar, temendo o sultão, comprou os versos por cem mil dirhams, mil por dístico, e mandou apagá-los. Sobraram seis, que circulam até hoje.

 

O poema de 30 anos rendeu ao autor uma paga em prata, uma fuga e uma sátira comprada para ser apagada.

 
 
 
 
 
 
 

II  O Triunfo

O jardim de Tus

 
 

Abu'l-Qasim Ferdowsi Tusi voltou a Tus velho e sem dinheiro. Nizami Aruzi conta que, anos depois, Mahmud estava em campanha quando um ministro recitou um dístico do Shahnameh diante dele. O sultão perguntou o autor e lembrou da paga.

Mandou então uma caravana de camelos carregados de índigo, a tinta azul mais cara do comércio da época, no valor de 60 mil dinares. Os camelos entraram em Tus pela porta de Rudbar. Na mesma hora, pela porta de Razan, saía o caixão do poeta.

O túmulo negado

O ano da morte varia entre 1019 e 1025 nas fontes, e nenhuma delas tem registro oficial da data. A causa ninguém sabe: os cronistas não a anotaram.

Um pregador de Tabaran, o bairro principal de Tus, proibiu o enterro no cemitério muçulmano. O motivo era o mesmo da corte: Ferdowsi era xiita. A família enterrou o poeta no jardim da casa dele, dentro dos muros da cidade. Nizami Aruzi diz ter visitado o túmulo em 1116.

A filha e a caravana

A filha de Ferdowsi recusou o índigo do sultão. Mahmud ordenou que o valor fosse usado numa obra pública, e com ele se ergueu o ribat de Chaha, uma pousada fortificada para viajantes na estrada entre Merv e Nishapur.

O poema seguiu em cópias. O manuscrito mais antigo que sobreviveu, de 1217, está na Biblioteca Nacional Central de Florença, na Itália. No século XVI, o xá Tahmasp encomendou uma cópia com 258 miniaturas, hoje espalhada por museus.

Ferdowsi usou pouquíssimas palavras árabes no poema, numa época em que o árabe dominava a escrita culta do Irã. Os 50 mil dísticos viraram o depósito do persa antigo. Nas casas de chá, narradores profissionais, os naqqal (contadores de histórias de pé, com bastão na mão), recitavam trechos de cor por noites seguidas.

A tradição do naqqali chegou ao século XXI. Em 2011, a Unesco a incluiu na lista do patrimônio imaterial que precisa de salvaguarda urgente, porque restam poucos mestres em atividade.

 

O sultão mandou ouro tarde demais, e o poema chegou a Florença dois séculos depois do enterro no jardim.

 
 
 
 
 
 
 
 

Quem banca a edição de hoje

5 Ideas From Atomic Habits in 15 Minutes

Small habits compound. Systems beat goals. Identity drives behavior. Shortform pulls the key ideas from Atomic Habits, and thousands of other nonfiction books, into guides you can finish on a coffee break.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

III  A Lição

O mausoléu de 1934

 
 

Abu'l-Qasim Ferdowsi Tusi passou nove séculos num túmulo simples, que se degradou com Tus, saqueada pelos mongóis em 1220. Em 1934, para os mil anos do nascimento do poeta pelo calendário islâmico, o governo de Reza Xá ergueu um mausoléu de pedra sobre o jardim.

O projeto, com traços do túmulo de Ciro em Pasárgada, foi inaugurado em outubro de 1934 diante de orientalistas de vários países, reunidos num congresso em Teerã para a ocasião. O terreno cedeu, e entre 1964 e 1968 o arquiteto Houshang Seyhoun reconstruiu o monumento.

Onde está hoje

O mausoléu fica em Tus, a cerca de 25 quilômetros de Mashhad, aberto à visita, com um museu de manuscritos e relevos dos heróis do poema. Os versos estão gravados nas paredes. Todo 15 de maio, o Irã celebra o Dia de Ferdowsi, com leituras do Shahnameh diante do túmulo.

A edição crítica de referência é a de Djalal Khaleghi-Motlagh, em oito volumes, publicada entre 1987 e 2008. Em inglês, a tradução de Dick Davis, Shahnameh: The Persian Book of Kings, saiu pela Viking em 2006.

Uma parte da história segue em aberto. Nizami Aruzi escreveu cerca de 140 anos depois dos fatos, e nenhum documento da corte de Ghazni confirma a paga em prata nem a caravana de índigo. O relato pode ter crescido com o tempo.

Um iraniano de hoje lê Ferdowsi quase sem dicionário, raridade num texto de mil anos. Crianças decoram os dísticos de Rostam na escola, e o persa falado em Teerã, Cabul e Dushanbe guarda o vocabulário que o poeta escolheu.

 

“Sofri muito nestes trinta anos; com este persa, dei vida ao Irã.” Ferdowsi, Shahnameh, 1010.

 

Três passos de Ferdowsi

Três passos do poeta servem a quem trabalha sem paga à vista:

1. Terminar a obra antes de saber o preço. Os 50 mil dísticos estavam prontos antes da corte ler a primeira linha.

2. Escrever na língua da própria gente. O persa quase sem árabe garantiu leitores por mil anos.

3. Deixar cópias circularem. Foram elas, e nenhum patrono, que levaram o poema a Florença.

 

O sultão pagou em prata, e o Irã pagou em pedra, nove séculos depois.

 

Os fatos centrais desta edição vêm do Chahar Maqala, de Nizami Aruzi, de cerca de 1156, e da introdução de Dick Davis a Shahnameh: The Persian Book of Kings, Viking, 2006.

Paj, a aldeia dos dehqans onde Ferdowsi nasceu, fica a poucos quilômetros do jardim de Tus. O menino que ouvia histórias de reis junto com o trigo está enterrado sob 50 mil dísticos gravados em pedra.

 
 
Quiz da edição

Por que o governador Shahriyar pagou 100 mil dirhams pela sátira de cem dísticos que Ferdowsi escreveu contra o sultão Mahmud?

APara publicar os versos em Tabaristão e espalhar a fama do poeta
BPara apagar os versos, temendo a reação do sultão
CPara enviar a sátira a Mahmud como pedido de desculpas do poeta
DPara financiar a cópia do Shahnameh em sete volumes

Resultado da última edição: 75% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

⚔️⚔️⚔️⚔️⚔️  ótima ⚔️⚔️⚔️⚔️  boa ⚔️⚔️⚔️  ok ⚔️⚔️  ruim ⚔️  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual edição você quer ver amanhã?

Voto aberto até 02/11, 15h30

A Mary Seacole →
B Dashrath Manjhi →
C Fela Kuti →
D Nellie Bly →
 
Recomendação de Newsletter
Fábula do Dia

Fábula do Dia

A história resumida e a moral que fica, prontas pra ler em voz alta, em cinco minutos. No seu email todo dia às 19:19.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →

{{vip_linha | }}

 
Leitores VIP

Esta edição é dedicada a

Edson Valderi Prestes de Oliveira

VIP de outubro

Os 100 leitores com mais ouro no mês viram VIP e aparecem aqui. Avalie a edição e assine com nome e sobrenome.

 

Levante-se. Per aspera ad astra.

QUEDA E TRIUNFO

Toda queda esconde um triunfo

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter
📚 Leia o acervo completo