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I A Queda
A cela de Abu Inan
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Abd al-Rahman ibn Khaldun foi preso em Fez em fevereiro de 1357, por ordem do sultão merínido Abu Inan. A acusação era de conspiração com Abu Abd Allah Muhammad, o emir deposto de Bugia, cidade portuária da atual Argélia, também retido na corte.
O plano, segundo a corte, era ajudar o emir a fugir e recuperar o trono. Abu Abd Allah foi solto logo. O secretário ficou.
Na cela, Ibn Khaldun compôs um poema longo de súplica ao sultão. Abu Inan leu, prometeu rever o caso e não cumpriu. A prisão durou 21 meses.
A porta aberta pelo vizir
A saída veio de fora. Em dezembro de 1358, Abu Inan adoeceu e foi estrangulado pelo próprio vizir, al-Hasan ibn Umar, que pôs no trono um filho pequeno do sultão. O novo regente soltou os presos políticos, e Ibn Khaldun voltou à secretaria.
Fez virou palco de golpes. Em quatro anos ele serviu a três sultões, mudou de lado duas vezes e acabou visto como homem de confiança de ninguém.
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Aos 30 anos, Ibn Khaldun tinha perdido os pais, os mestres, quase dois anos na prisão e a confiança de todas as cortes do Magrebe. |
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Em dezembro de 1362, cruzou o mar para Granada. O sultão nacérida Muhammad V o recebeu bem, e o vizir Ibn al-Khatib, poeta e historiador, era seu amigo de Fez.
Em 1364, Muhammad V o mandou como embaixador a Sevilha, à corte de Pedro I de Castela. O rei cristão ofereceu devolver as terras dos antepassados se ele ficasse. Ibn Khaldun recusou.
Bugia e o deserto
O ciúme de Ibn al-Khatib azedou a estadia em Granada. Em 1365, o antigo companheiro de cela, Abu Abd Allah, retomou Bugia e chamou Ibn Khaldun para ser seu hajib, o camareiro-mor que governava em nome do emir.
O posto durou um ano. Em 1366, o primo do emir, Abu al-Abbas, de Constantina, venceu Abu Abd Allah em batalha. Ibn Khaldun entregou a cidade ao vencedor e saiu dela com a família.
Os nove anos seguintes passaram entre tendas. Ele servia de recrutador junto às tribos árabes do deserto, levando cavaleiros para os sultões de Tlemcen e de Fez, conforme quem pagava.
Em 1374, Ibn al-Khatib foi executado numa prisão de Fez. No ano seguinte, Ibn Khaldun tentou voltar a Granada, e Muhammad V mandou que ele embarcasse de volta para a África.
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II O Triunfo
Os quatro anos de Qalat ibn Salama
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Em 1375, aos 43 anos, Ibn Khaldun recebeu do sultão de Tlemcen mais uma missão junto às tribos. Pediu abrigo aos Awlad Arif, um clã árabe aliado, e não voltou.
Os Awlad Arif lhe deram o castelo de Qalat ibn Salama, uma fortaleza no planalto perto da atual Frenda, na província argelina de Tiaret. Ele se mudou com a mulher, os filhos e os livros que conseguiu carregar.
Ficou ali quase quatro anos. Sem corte para servir, começou a escrever uma história dos árabes e dos berberes, os povos nativos do norte da África, desde as origens.
A introdução maior do livro
Antes da crônica, ele quis explicar por que dinastias sobem e caem. O texto cresceu e virou a Muqaddimah (Introdução), o primeiro volume do Kitab al-Ibar (Livro das Lições), escrito em cerca de cinco meses e terminado em 1377.
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“A história é uma disciplina amplamente cultivada entre as nações e as raças.” Ibn Khaldun, Muqaddimah, 1377, na tradução de Franz Rosenthal, 1958. |
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A Muqaddimah trata a história como ciência da sociedade. Ibn Khaldun chamou o objeto de umran (a vida em comum dos homens, nas cidades e no deserto) e examinou clima, comércio, impostos, ofícios e escrita.
O conceito central é a asabiyya (solidariedade de grupo). Povos do deserto, unidos por parentesco e privação, conquistam as cidades; no conforto urbano, a união se desfaz em três gerações, e outro grupo do deserto toma o lugar.
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Um ex-preso sem patrão, num castelo emprestado, escreveu em cinco meses a primeira teoria dos ciclos de poder. |
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O autor tinha visto o modelo por dentro: as cortes de Tunis, Fez, Granada e Bugia, e as tribos que recrutou por nove anos.
Em 1378, doente e precisando de livros, voltou a Tunis com licença do sultão háfsida Abu al-Abbas, o mesmo que o expulsara de Bugia. Consultou as bibliotecas da cidade e entregou ao sultão uma cópia da obra.
Os teólogos de Tunis o atacaram, e em 1382 ele embarcou para Alexandria, alegando a peregrinação a Meca. Chegou ao Cairo e passou a dar aulas na mesquita de al-Azhar.
Em agosto de 1384, o sultão mameluco Barquq o nomeou grande cádi (juiz supremo) da escola maliquita, a corrente de direito islâmico fundada por Malik ibn Anas e seguida no Magrebe. O órfão de Tunis chegava ao topo da justiça no maior reino muçulmano da época.
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