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Os 5 Meses de Ibn Khaldun no Castelo de Qalat ibn Salama

Órfão da peste e preso em Fez, ele se recolheu num castelo argelino, escreveu a Introdução à história do mundo e virou juiz supremo no Cairo.

Homem de turbante escrevendo à luz de lamparina num castelo de pedra no planalto argelino, em 1377.

Qalat ibn Salama, Argélia, 1377

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1248: Sevilha cai nas mãos do rei Fernando III de Castela. A família Banu Khaldun, de origem árabe e instalada na Andaluzia havia cinco séculos, atravessa o estreito e se fixa em Tunis, onde vira linhagem de funcionários e letrados.

27 de maio de 1332: nasce em Tunis Abd al-Rahman ibn Muhammad ibn Khaldun. O pai, Muhammad, largou a política para estudar direito e poesia, e ensina ao filho o Alcorão de cor ainda na infância.

1347: o sultão Abu al-Hasan, da dinastia merínida de Fez, toma Tunis. Traz na comitiva os melhores sábios do Marrocos, entre eles o matemático al-Abili, e o adolescente passa a estudar lógica, filosofia e aritmética com ele.

1348: a peste negra chega à costa africana. Em Tunis, leva o pai, a mãe e quase todos os mestres do rapaz. Os sábios merínidos que sobram voltam para Fez.

1350: aos 18 anos, ele aceita o cargo de escrevente da alama, a fórmula de assinatura que fechava as cartas do sultão háfsida. É emprego de calígrafo, sem poder.

1352: foge de Tunis numa campanha militar perdida e vaga por cidades do Magrebe, a faixa norte da África a oeste do Egito, à procura de patrão. Passa por Biskra e Tlemcen, dorme em casa de letrados e oferece a caligrafia a quem precisar de secretário.

1354: chega a Fez. O sultão Abu Inan o põe no conselho de sábios e depois na secretaria da corte. Ibn Khaldun tem 22 anos e um posto na capital mais rica do Ocidente islâmico.

1357: ele troca cartas com um príncipe háfsida retido na mesma cidade, o emir deposto de Bugia. Os rivais da secretaria leem nas cartas um plano. Alguém conta ao sultão.

Entre a queda de Sevilha e a denúncia em Fez passaram 109 anos, e a família chegou de novo perto do poder. O relato segue a partir da porta da cela.

 

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I  A Queda

A cela de Abu Inan

 
 

Abd al-Rahman ibn Khaldun foi preso em Fez em fevereiro de 1357, por ordem do sultão merínido Abu Inan. A acusação era de conspiração com Abu Abd Allah Muhammad, o emir deposto de Bugia, cidade portuária da atual Argélia, também retido na corte.

O plano, segundo a corte, era ajudar o emir a fugir e recuperar o trono. Abu Abd Allah foi solto logo. O secretário ficou.

Na cela, Ibn Khaldun compôs um poema longo de súplica ao sultão. Abu Inan leu, prometeu rever o caso e não cumpriu. A prisão durou 21 meses.

A porta aberta pelo vizir

A saída veio de fora. Em dezembro de 1358, Abu Inan adoeceu e foi estrangulado pelo próprio vizir, al-Hasan ibn Umar, que pôs no trono um filho pequeno do sultão. O novo regente soltou os presos políticos, e Ibn Khaldun voltou à secretaria.

Fez virou palco de golpes. Em quatro anos ele serviu a três sultões, mudou de lado duas vezes e acabou visto como homem de confiança de ninguém.

 

Aos 30 anos, Ibn Khaldun tinha perdido os pais, os mestres, quase dois anos na prisão e a confiança de todas as cortes do Magrebe.

 

Em dezembro de 1362, cruzou o mar para Granada. O sultão nacérida Muhammad V o recebeu bem, e o vizir Ibn al-Khatib, poeta e historiador, era seu amigo de Fez.

Em 1364, Muhammad V o mandou como embaixador a Sevilha, à corte de Pedro I de Castela. O rei cristão ofereceu devolver as terras dos antepassados se ele ficasse. Ibn Khaldun recusou.

Bugia e o deserto

O ciúme de Ibn al-Khatib azedou a estadia em Granada. Em 1365, o antigo companheiro de cela, Abu Abd Allah, retomou Bugia e chamou Ibn Khaldun para ser seu hajib, o camareiro-mor que governava em nome do emir.

O posto durou um ano. Em 1366, o primo do emir, Abu al-Abbas, de Constantina, venceu Abu Abd Allah em batalha. Ibn Khaldun entregou a cidade ao vencedor e saiu dela com a família.

Os nove anos seguintes passaram entre tendas. Ele servia de recrutador junto às tribos árabes do deserto, levando cavaleiros para os sultões de Tlemcen e de Fez, conforme quem pagava.

Em 1374, Ibn al-Khatib foi executado numa prisão de Fez. No ano seguinte, Ibn Khaldun tentou voltar a Granada, e Muhammad V mandou que ele embarcasse de volta para a África.

 
 
 

II  O Triunfo

Os quatro anos de Qalat ibn Salama

 
 

Em 1375, aos 43 anos, Ibn Khaldun recebeu do sultão de Tlemcen mais uma missão junto às tribos. Pediu abrigo aos Awlad Arif, um clã árabe aliado, e não voltou.

Os Awlad Arif lhe deram o castelo de Qalat ibn Salama, uma fortaleza no planalto perto da atual Frenda, na província argelina de Tiaret. Ele se mudou com a mulher, os filhos e os livros que conseguiu carregar.

Ficou ali quase quatro anos. Sem corte para servir, começou a escrever uma história dos árabes e dos berberes, os povos nativos do norte da África, desde as origens.

A introdução maior do livro

Antes da crônica, ele quis explicar por que dinastias sobem e caem. O texto cresceu e virou a Muqaddimah (Introdução), o primeiro volume do Kitab al-Ibar (Livro das Lições), escrito em cerca de cinco meses e terminado em 1377.

 

“A história é uma disciplina amplamente cultivada entre as nações e as raças.” Ibn Khaldun, Muqaddimah, 1377, na tradução de Franz Rosenthal, 1958.

 

A Muqaddimah trata a história como ciência da sociedade. Ibn Khaldun chamou o objeto de umran (a vida em comum dos homens, nas cidades e no deserto) e examinou clima, comércio, impostos, ofícios e escrita.

O conceito central é a asabiyya (solidariedade de grupo). Povos do deserto, unidos por parentesco e privação, conquistam as cidades; no conforto urbano, a união se desfaz em três gerações, e outro grupo do deserto toma o lugar.

 

Um ex-preso sem patrão, num castelo emprestado, escreveu em cinco meses a primeira teoria dos ciclos de poder.

 

O autor tinha visto o modelo por dentro: as cortes de Tunis, Fez, Granada e Bugia, e as tribos que recrutou por nove anos.

Em 1378, doente e precisando de livros, voltou a Tunis com licença do sultão háfsida Abu al-Abbas, o mesmo que o expulsara de Bugia. Consultou as bibliotecas da cidade e entregou ao sultão uma cópia da obra.

Os teólogos de Tunis o atacaram, e em 1382 ele embarcou para Alexandria, alegando a peregrinação a Meca. Chegou ao Cairo e passou a dar aulas na mesquita de al-Azhar.

Em agosto de 1384, o sultão mameluco Barquq o nomeou grande cádi (juiz supremo) da escola maliquita, a corrente de direito islâmico fundada por Malik ibn Anas e seguida no Magrebe. O órfão de Tunis chegava ao topo da justiça no maior reino muçulmano da época.

 
 
 
 

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III  A Lição

A muralha de Damasco

 
 

Ainda em 1384, a mulher e os filhos de Ibn Khaldun partiram de Tunis para encontrá-lo. O navio afundou numa tempestade perto do porto de Alexandria, e ninguém da família sobreviveu.

Ele seguiu no cargo. Como juiz, cortou propinas e afastou testemunhas compradas, e os inimigos se multiplicaram. Foi destituído em 1385 e voltou à toga seis vezes nas duas décadas seguintes.

Em 1401, acompanhou o sultão Faraj a Damasco, sitiada pelo exército de Tamerlão, o conquistador turco-mongol. O sultão voltou às pressas ao Cairo e deixou a cidade cercada. Ibn Khaldun, aos 68 anos, desceu a muralha pendurado numa corda e foi à tenda do inimigo.

Onde estão o livro e o autor

Ibn Khaldun se foi em 17 de março de 1406, no Cairo, aos 73 anos, ainda juiz. Foi sepultado no cemitério dos sufis, os místicos do islã, fora da porta de Bab al-Nasr; o túmulo exato não foi identificado.

A obra sobreviveu. A biblioteca Atıf Efendi, em Istambul, guarda um manuscrito da Muqaddimah com uma nota de próprio punho do autor. A tradução inglesa de Franz Rosenthal, de 1958, ainda é reeditada pela Universidade de Princeton.

 

“Uma filosofia da história sem dúvida a maior obra do gênero já criada por qualquer mente.” Arnold Toynbee, Um Estudo da História, volume III, 1934.

 
 

A teoria dos ciclos de poder saiu de um homem caído, escrita no intervalo entre duas cortes.

 

A trajetória deixa três passos para quem perde o posto e a casa:

1. Usar o exílio para estudar o que derrubou você. Ibn Khaldun transformou 25 anos de golpes em teoria sobre golpes.

2. Aceitar o abrigo oferecido e fechar a porta. Os quatro anos no castelo foram os únicos sem cargo, e foram os que produziram a obra.

3. Voltar ao mundo com o trabalho pronto. A cópia levada a Tunis e as aulas em al-Azhar abriram o caminho para a toga no Cairo.

As ruínas de Qalat ibn Salama ficam no planalto de Tiaret, e os moradores de Frenda apontam uma gruta na encosta como o lugar da escrita. A autobiografia do próprio Ibn Khaldun, o Ta'rif, e a biografia Ibn Khaldun: Life and Times, de Allen Fromherz, de 2010, sustentam os fatos narrados aqui.

Os mestres levados pela peste em Tunis aparecem pelo nome no Ta'rif, e a lógica aprendida com al-Abili está em cada capítulo da Muqaddimah. Aos 68 anos, o órfão de 1348 ainda arriscava a vida por uma conversa.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

O que Ibn Khaldun foi fazer na tenda de Tamerlão depois de descer a muralha de Damasco numa corda?

 
 
 
Quiz da edição

Quantos meses Ibn Khaldun passou preso na cela de Fez, por ordem do sultão Abu Inan?

A5 meses
B4 anos
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