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Os 4.000 Livros de Sor Juana

Em 1694, Sor Juana Inés de la Cruz renunciou às letras e entregou a biblioteca. Em 1700, Madri reimprimiu a obra dela.

Freira jerônima diante de estantes vazias numa cela de convento, século XVII.

Convento de São Jerônimo, México, 1694

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12 de novembro de 1648: nasce Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana, mais tarde Sor Juana Inés de la Cruz (Sor quer dizer irmã, em espanhol), na fazenda de San Miguel Nepantla, ao pé dos vulcões do vale do México. A mãe, Isabel Ramírez, não é casada com o pai, um militar basco que some da vida da filha.

1651: aos três anos, a menina segue a irmã mais velha até a escola de Amecameca e pede à professora para aprender a ler. Mente que a mãe mandou. Aprende escondida, e a mãe só descobre quando a filha já lê.

Por volta de 1656: na fazenda de Panoayan, a menina passa as tardes na biblioteca do avô materno, Pedro Ramírez. Corta o próprio cabelo e jura deixá-lo crescer só depois de aprender a lição marcada. Pede para ir à universidade vestida de menino; a mãe recusa.

1664: chega à corte do vice-rei, na Cidade do México, como dama da vice-rainha Leonor Carreto, marquesa de Mancera. Segundo Diego Calleja, o vice-rei reúne cerca de quarenta professores da universidade para examinar a jovem de dezesseis anos em teologia, filosofia e matemática. Ela responde a todos.

1669: aos vinte anos, professa como freira no convento de São Jerônimo, na capital. Não tem dote para casar bem, não quer marido e quer tempo para estudar. A cela vira biblioteca, sala de música e gabinete de instrumentos de astronomia.

1689: a condessa de Paredes, amiga e protetora, leva os poemas da freira a Madri e publica Inundación castálida (Inundação castálida, alusão à fonte das musas). O livro corre a Espanha.

1690: um sermão do padre português Antônio Vieira recebe dela uma crítica por escrito, e o bispo de Puebla imprime o texto sem pedir licença à autora.

5 de março de 1694: a mulher mais lida da Nova Espanha assina, no livro de profissões do convento, a frase “Yo, la peor de todas” (eu, a pior de todas). Abre mão dos estudos, dos livros e da música.

 

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I  A Queda

A renúncia de 1694

 
 

Sor Juana Inés de la Cruz não escreveu a crítica a Vieira para publicar. Era uma resposta a conversa de locutório, a sala onde as freiras recebiam visitas atrás de uma grade. O bispo Manuel Fernández de Santa Cruz mandou imprimir o texto em 1690 com o título Carta atenagórica (carta digna de Atena, a deusa da sabedoria).

Na frente da carta, o bispo pôs uma advertência assinada com nome falso de freira, Sor Filotea de la Cruz. Elogiava o talento da autora e a aconselhava a trocar as letras profanas pelos livros sagrados.

Em 1 de março de 1691, ela respondeu. A Respuesta a Sor Filotea (Resposta à Irmã Filoteia) conta a infância na escola de Amecameca, o cabelo cortado e os anos de estudo sozinha. Defende o direito das mulheres de estudar e cita uma lista de sábias da Bíblia e da Antiguidade.

Na mesma carta, ela conta que estudava até na cozinha, olhando o ovo fritar e o açúcar derreter. Escreve que, se Aristóteles tivesse cozinhado, teria escrito muito mais. A frase circulou, e a ironia não agradou aos superiores.

O confessor volta

O padre jesuíta Antonio Núñez de Miranda tinha sido confessor dela por anos e cobrava, desde a década de 1680, menos poesia e mais oração. Ela o dispensou numa carta firme. Por volta de 1693, ele voltou a ser seu confessor.

A pressão subia junto com a crise da cidade. Em 1692, a fome levou a um motim na praça central da Cidade do México, e o palácio do vice-rei pegou fogo. O arcebispo Francisco de Aguiar y Seijas, conhecido pela aversão às mulheres, cobrava penitência e esmola dos conventos.

A biblioteca vendida

Depois da assinatura, a biblioteca saiu da cela. Diego Calleja, jesuíta espanhol e primeiro biógrafo dela, escreveu em 1700 que eram cerca de quatro mil volumes. Os livros, os instrumentos de música e os aparelhos de matemática foram entregues ao arcebispo, que os vendeu e deu o dinheiro aos pobres.

A freira ficou com três livretos de devoção e o cilício (cinto de arame usado como penitência). Não há registro de poema novo escrito por ela depois de 1694.

 

A poeta mais publicada da Nova Espanha assinou o adeus às letras e viu a cela esvaziada em poucas semanas.

 
 
 
 
 
 
 

II  O Triunfo

Uma epidemia no convento

 
 

Sor Juana Inés de la Cruz passou o ano seguinte em penitência. Dormia pouco, jejuava e cuidava das tarefas do convento. Os registros das jerônimas não guardam nenhum texto dela desse período além de papéis de devoção.

No começo de 1695, uma epidemia entrou no convento de São Jerônimo. Os cronistas da época a chamam de peste; historiadores de hoje suspeitam de tifo, sem certeza, porque a descrição dos sintomas é vaga. Das freiras da casa, segundo Calleja, adoeceram nove em cada dez.

A enfermeira da cela vazia

Juana Inés cuidou das irmãs doentes, deu água, trocou panos e ajudou a enterrar as que morriam. Pegou a doença no fim de março. Em 17 de abril de 1695, às quatro da manhã, a irmã Juana Inés partiu, aos 46 anos. O arcebispo Aguiar y Seijas viveu até 1698, três anos além dela.

O enterro foi no coro do convento, como mandava a regra das jerônimas. O sábio mexicano Carlos de Sigüenza y Góngora, amigo dela e astrônomo da universidade, fez o elogio fúnebre. O texto dele se perdeu, e só sobrou a notícia de que existiu.

O silêncio parecia definitivo. Uma freira sem livros, enterrada no coro do próprio convento, com a obra presa a três volumes impressos longe dali.

Os papéis de Madri

A obra estava mais segura fora do México. O primeiro volume, Inundación castálida, tinha saído em Madri em 1689 e ganhado reedições. O segundo saiu em Sevilha em 1692, com o Primero sueño (Primeiro sonho), o poema longo de quase mil versos sobre a alma tentando entender o mundo durante uma noite.

Em 1700, saiu em Madri o terceiro: Fama y obras póstumas (Fama e obras póstumas). Juan Ignacio de Castorena y Ursúa, padre mexicano, juntou os textos guardados por amigos e abriu o livro com a biografia escrita por Calleja.

Ao longo do século XVIII, os três volumes ganharam novas edições em Madri, Barcelona e Valência. A freira que renunciou às letras virou a autora em espanhol mais impressa daquela geração.

 

Cinco anos depois da renúncia, Madri imprimia a vida e os poemas da freira, com a Respuesta incluída.

 
 
 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

A obra que voltou

 
 

Sor Juana Inés de la Cruz entrou no século XX como nome de manual escolar. Quem a trouxe de volta inteira foi o poeta mexicano Octavio Paz, que publicou em 1982 Sor Juana Inés de la Cruz o Las trampas de la fe (Sor Juana ou As armadilhas da fé), um ensaio de mais de seiscentas páginas.

Paz leu a renúncia como derrota imposta por uma Igreja fechada a mulher letrada. Outros estudiosos discordam e leem na assinatura uma crise espiritual escolhida por ela, comum entre religiosas da época, sem ordem expressa de ninguém.

O que se sabe hoje

O que não se sabe: se ela assinou por medo, por crise espiritual ou por escolha. Não sobrou carta dela explicando o gesto, e as fontes de 1700 foram escritas por padres interessados numa morte de santa.

O que se sabe: os poemas estão em catálogo. A edição de referência, Obras completas, saiu em quatro volumes pelo Fondo de Cultura Económica, no México, entre 1951 e 1957, organizada por Alfonso Méndez Plancarte. O antigo convento de São Jerônimo abriga hoje a Universidad del Claustro de Sor Juana, e o rosto dela está na cédula de 200 pesos.

No México, o 12 de novembro, dia do nascimento dela, é lembrado nas escolas como Dia Nacional do Livro. Na fazenda de Nepantla funciona hoje um centro cultural com o nome dela, aberto à visita.

 

“Não estudo para escrever, nem menos para ensinar, o que seria em mim desmedida soberba, mas só para ver se, estudando, ignoro menos.” Sor Juana Inés de la Cruz, Respuesta a Sor Filotea, 1691.

 

Três gestos da freira

Três gestos de Sor Juana servem a quem tem o trabalho tirado das mãos:

1. Escrever enquanto há tempo. A Respuesta saiu três anos antes da renúncia e ficou como defesa pronta.

2. Guardar cópias com quem está longe. Os textos de Madri e Sevilha sobreviveram à biblioteca vendida no México.

3. Confiar em quem publica depois. Castorena e Calleja juntaram os papéis cinco anos após a última página dela.

 

Ela entregou quatro mil volumes ao arcebispo, e três volumes com o nome dela continuaram a circular sem permissão de ninguém.

 

Os fatos centrais desta edição vêm de Sor Juana Inés de la Cruz o Las trampas de la fe, de Octavio Paz, publicado pelo Fondo de Cultura Económica em 1982, e da biografia de Diego Calleja em Fama y obras póstumas, Madri, 1700.

A menina que aprendeu a ler escondida aos três anos na escola de Amecameca está hoje nas estantes de toda biblioteca pública do México, nas Obras completas em quatro volumes.

 
 
 

Quiz da edição

Qual autor mexicano publicou, em 1982, o ensaio de mais de seiscentas páginas que trouxe Sor Juana de volta ao debate literário no século XX?

ACarlos de Sigüenza y Góngora
BDiego Calleja
COctavio Paz
DJuan Ignacio de Castorena y Ursúa

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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