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Os 4 Gols de Puskás

Exilado depois de 1956, ficou quase dois anos sem jogar, chegou pesado ao Real Madrid e decidiu a final europeia de Glasgow.

Ferenc Puskás de camisa branca do Real Madrid chutando de esquerda no Hampden Park lotado, 1960.

Hampden Park, Glasgow, maio de 1960

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1º de abril de 1927: nasce Ferenc Puskás, registrado como Ferenc Purczeld, em Kispest, bairro operário na beira de Budapeste. O pai, ex-jogador do clube do bairro, treinava os meninos de lá. Dez anos depois, a família troca o sobrenome alemão por um húngaro.

1943: estreia no time principal do Kispest aos 16 anos, baixo, atarracado, quase só perna esquerda. 1949: o governo comunista transforma o clube no Honvéd, o time do Exército húngaro, e os jogadores recebem patente militar. Puskás chega a major e a imprensa estrangeira o apelida de Major Galopante.

1952: ouro olímpico em Helsinque, como capitão da Aranycsapat (o Time de Ouro), a seleção húngara que atravessou quatro anos sem perder.

25 de novembro de 1953: Hungria 6, Inglaterra 3, em Wembley, diante de cerca de 105 mil pessoas. Os ingleses nunca tinham perdido em casa para um time do continente. Puskás marca dois gols.

1954: na revanche em Budapeste, 7 a 1. Em 4 de julho, na final da Copa do Mundo, em Berna, a Hungria enfrenta a Alemanha Ocidental. Puskás joga com o tornozelo ainda inchado de uma pancada sofrida na primeira fase, abre o placar e, nos minutos finais, tem anulado por impedimento o gol de empate. Alemanha 3, Hungria 2.

Outubro de 1956: estudantes e operários se levantam em Budapeste contra o governo comunista e contra a presença soviética. Em 4 de novembro, os tanques da União Soviética entram na cidade e esmagam o levante. Milhares de húngaros fogem a pé pela fronteira com a Áustria nas semanas seguintes, levando o que cabe numa mala.

Puskás tem 29 anos, a braçadeira de capitão da seleção e um lugar entre os maiores atacantes do planeta. Os dois anos seguintes vão tirar dele o clube, o país e a forma física, e deixar no lugar um homem parado, pesado e sem contrato.

 

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I  A Queda

A turnê sem volta

 
 

A resposta de ontem

Qual museu de Estocolmo recusou as telas de Hilma af Klint?

O Moderna Museet, o museu de arte moderna de Estocolmo, recusou a doação por volta de 1970, desconfiado da origem espírita das telas. O sobrinho Erik af Klint criou então a Fundação Hilma af Klint, em 1972. O mesmo Moderna Museet montou em 2013 a retrospectiva que levou a pintora a circular pela Europa.

Ferenc Puskás soube da invasão longe de casa. O Honvéd tinha viajado para enfrentar o Athletic Bilbao pela Copa dos Campeões, o torneio europeu de clubes criado em 1955, e estava fora da Hungria quando os tanques chegaram.

Em 22 de novembro de 1956, em Bilbao, o Honvéd perdeu por 3 a 2. O jogo de volta não podia acontecer numa Budapeste ocupada e foi marcado para Bruxelas, no estádio de Heysel, em 20 de dezembro. Empate por 3 a 3, e o time húngaro caiu na primeira fase.

Os jogadores tinham diante deles uma escolha sem saída boa: voltar para um país sob ocupação ou ficar no Ocidente sem papéis. Puskás ficou. A mulher, Erzsébet, e a filha, Anikó, atravessaram a fronteira e se juntaram a ele em Viena.

A excursão proibida

Sem campeonato para disputar, o Honvéd montou por conta própria uma excursão pelo Brasil no começo de 1957, com amistosos contra Flamengo e Botafogo no Rio de Janeiro. A federação húngara não autorizou a viagem e pediu punição à FIFA.

A FIFA atendeu. Os jogadores que se recusaram a voltar foram suspensos, e Puskás recebeu 18 meses longe de qualquer partida oficial. Alguns colegas, como o meia József Bozsik, voltaram para Budapeste e retomaram a carreira em casa. Ele recusou a volta. Em Budapeste, o regime o tratou como desertor, e ele sumiu dos jornais esportivos do país.

Na Inglaterra, ainda lembravam dele pela tarde de Wembley, quando puxou a bola com a sola do pé diante do capitão Billy Wright e chutou de esquerda, com o zagueiro passando direto.

 

“Wright passou como um carro de bombeiros correndo para o incêndio errado.” Geoffrey Green, The Times, 1953.

 

Viena, Itália e a balança

Puskás cumpriu o castigo entre a Áustria e o norte da Itália. Treinava sozinho quando dava, comia como antes e não tinha jogo para gastar o que comia. O corpo de atacante ganhou barriga.

Clubes italianos sondaram. A Internazionale, de Milão, chegou a conversar e desistiu. Um húngaro de 30 anos, parado e acima do peso, parecia aposta de risco alto para qualquer diretoria.

A suspensão acabou em 1958. Puskás tinha 31 anos, nenhum clube, nenhum país para onde pudesse voltar e a fama de jogador acabado.

 

Em 18 meses de castigo, Ferenc Puskás perdeu o país, o clube e a forma, e chegou aos 31 anos com fama de acabado.

 
 
 
 

II  O Triunfo

A noite de Hampden Park

 
 

Emil Östreicher, antigo dirigente do Honvéd, também tinha ficado no Ocidente e trabalhava como secretário técnico do Real Madrid. Foi ele quem indicou Puskás a Santiago Bernabéu, o presidente do clube.

O Real Madrid tinha vencido as três primeiras Copas dos Campeões, de 1956 a 1958, com o argentino Alfredo Di Stéfano no comando do ataque. Bernabéu aceitou a aposta e contratou o húngaro em 1958.

A barriga em Madri

O técnico, o argentino Luis Carniglia, olhou para o reforço e reclamou do peso logo no primeiro dia. Puskás treinou à parte nas semanas iniciais, com corrida, dieta e sauna, até caber de novo no uniforme branco. Perdeu peso aos poucos, sem anúncio, e trocou o arranque de garoto pelo posicionamento: esperava a bola onde ela ia cair.

Na primeira temporada, ganhou lugar no time titular e voltou a marcar no Campeonato Espanhol. Na final europeia de 1959, contra o Reims, em Stuttgart, ficou de fora machucado e viu o Real vencer por 2 a 0.

Ao lado de Di Stéfano, formou a dupla de ataque mais temida da Europa. Os dois disputavam a artilharia, dividiam as bolas e aprenderam a se procurar em campo.

18 de maio de 1960

A final seguinte foi em Glasgow, no Hampden Park, contra o Eintracht Frankfurt. Os alemães tinham eliminado o Rangers, da Escócia, na semifinal, com 12 gols marcados nos dois jogos.

Cerca de 127 mil pessoas lotaram o estádio, o maior público já registrado numa final da Copa dos Campeões. Na arquibancada estava um garoto de Glasgow de 18 anos, Alex Ferguson, que décadas depois treinaria o Manchester United. O Eintracht abriu o placar aos 18 minutos, com Richard Kress.

Di Stéfano empatou aos 27 e pôs o Real na frente aos 30. No último lance do primeiro tempo, Puskás acertou de esquerda um chute de ângulo fechado: 3 a 1.

No segundo tempo, cobrou pênalti aos 56 minutos. Aos 60 e aos 71, marcou mais dois. O placar chegou a 6 a 1, com quatro gols do húngaro que os italianos tinham deixado passar.

Erwin Stein descontou duas vezes para o Eintracht, e Di Stéfano completou o terceiro dele entre um gol e outro. Final: Real Madrid 7, Eintracht Frankfurt 3.

Nenhum jogador marcou quatro gols numa final da Copa dos Campeões antes ou depois de Puskás. O torneio trocou de formato e virou Liga dos Campeões em 1992, e a marca segue com ele.

 

O atacante que os italianos deixaram passar por velho e pesado fez quatro gols na final europeia de 1960, aos 33 anos.

 
 
 
 
 

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III  A Lição

O pé esquerdo de volta

 
 

Ferenc Puskás jogou pelo Real Madrid até 1966, quando parou aos 39 anos. Ganhou o Pichichi (o troféu de artilheiro do Campeonato Espanhol) quatro vezes e ganhou cinco títulos espanhóis seguidos, de 1961 a 1965.

Em 1962, fez três gols em outra final europeia, contra o Benfica, em Amsterdã, e perdeu por 5 a 3. No mesmo ano, já naturalizado espanhol, defendeu a Espanha na Copa do Mundo do Chile. Somou 242 gols em 262 partidas oficiais pelo clube, pela contagem do próprio Real Madrid, e virou ídolo de uma cidade onde tinha chegado como aposta de risco.

O que a balança ensina

Três movimentos ficam para quem é tirado do jogo no auge:

1. Recomeçar com o corpo que sobrou. Puskás não esperou recuperar a forma antiga para assinar: chegou pesado e emagreceu treinando.

2. Procurar quem conhece o seu trabalho. A porta de Madri abriu por Östreicher, que tinha visto o Honvéd por dentro.

3. Dividir o ataque com o maior do elenco. Puskás não brigou pelo posto de Di Stéfano; jogou ao lado dele.

 

Ferenc Puskás voltou ao topo quando aceitou recomeçar do peso em que estava, e não do jogador que tinha sido.

 

Depois de pendurar as chuteiras, Puskás treinou o Panathinaikos, da Grécia, até a final europeia de 1971, perdida para o Ajax em Wembley. Nos anos 1990 voltou a morar na Hungria. Em 2000 recebeu o diagnóstico de Alzheimer (doença que apaga a memória aos poucos) e faleceu em Budapeste em 17 de novembro de 2006, aos 79 anos. Está sepultado na cripta da Basílica de Santo Estêvão, no centro da cidade.

Desde 2009, a FIFA entrega o Prêmio Puskás ao gol mais bonito do ano, e o estádio nacional húngaro, a Puskás Aréna, abriu em 2019. O relato do exílio e de Madri está na biografia Puskás on Puskás (Puskás por Puskás), organizada por Rogan Taylor e Klara Jamrich e publicada em 1997.

Em Kispest, o campo de bairro onde o menino Ferenc Purczeld estreou aos 16 anos hoje se chama Bozsik Aréna, em homenagem a József Bozsik, o vizinho de infância que voltou para casa em 1956.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quantos gols Ferenc Puskás marcou nos 85 jogos pela seleção da Hungria?

 
 
Quiz da edição

Quantos gols Ferenc Puskás marcou na final da Copa dos Campeões de 1960, em Glasgow, contra o Eintracht Frankfurt?

A2 gols
B3 gols
C4 gols
D5 gols

Resultado da última edição: 80% acertaram.

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