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I A Queda
O refúgio de 50 metros quadrados
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Os 33 de Copiapó eram mineiros e terceirizados da Compañía Minera San Esteban Primera, dona da San José. O mais novo, Jimmy Sánchez, tinha 19 anos. O mais velho, Mario Gómez, tinha 63 e trabalhava em mina desde criança.
O refúgio tinha cerca de 50 metros quadrados, bancos de metal e um armário de mantimentos pensado para poucos homens durante poucos dias. Dentro havia latas de atum, pêssego em calda, leite, biscoitos e garrafas de água.
Luis Urzúa, topógrafo de formação e chefe do turno, começou pelo gesto de todo chefe de obra: o inventário. Contou as latas, dividiu pelos dias que imaginava até o resgate e anunciou a ração.
A ração definida por Urzúa saiu dura. Duas colheres de atum a cada 48 horas, com um gole de leite e meio biscoito. Os homens comiam juntos, na mesma hora, para que ninguém desconfiasse da porção do outro.
Quando a água das garrafas acabou, beberam a água dos tanques de refrigeração das máquinas, com gosto de óleo e de diesel. Os faróis dos caminhões, ligados nas baterias, viraram a luz do dia e da noite.
Mario Sepúlveda, eletricista de 39 anos, assumiu o ânimo do grupo: fazia piada, puxava conversa e distribuía tarefas para que ninguém passasse o dia deitado no chão quente. José Henríquez, o mais religioso do turno, puxava uma oração coletiva todo dia ao meio-dia.
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Por 17 dias, o que separava os 33 do colapso era uma regra de divisão aceita por todos. |
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As decisões passaram a ser votadas. Cada homem tinha um voto, e a maioria valia, fosse a hora de dormir, o lugar das latrinas ou o turno de quem vigiava o barulho das sondas.
Na superfície, as famílias montaram barracas na entrada da mina e batizaram o lugar de Acampamento Esperança. O governo do presidente Sebastián Piñera assumiu o resgate e chamou o ministro de Mineração, Laurence Golborne.
As primeiras sondas erraram o alvo. Os mapas da empresa estavam desatualizados, e os furos passavam ao lado das galerias. Lá embaixo, os mineiros ouviam o barulho da broca chegar perto e sumir.
No décimo sétimo dia, o atum estava quase no fim. Vários homens já tinham escrito cartas de despedida às famílias, guardadas no bolso.
Alguns pararam de aceitar a ração inteira para deixar mais para os outros. Urzúa recusou a troca: a porção era igual para todos, inclusive para quem dizia não ter fome.
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II O Triunfo
Sete palavras em tinta vermelha
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Na manhã de 22 de agosto, a sonda 10B atravessou o teto de uma galeria a cerca de 688 metros de profundidade. Os mineiros bateram na haste com chave inglesa e pintaram o metal de laranja para que alguém visse.
José Ojeda, de 46 anos, já tinha escrito o recado numa folha quadriculada. Amarraram o papel ao martelo com fita isolante antes que a broca subisse.
Na superfície, o operador puxou a haste e achou a folha. O presidente Piñera leu o bilhete diante das câmeras: "Estamos bien en el refugio los 33" (Estamos bem no refúgio, os 33), escreveu José Ojeda no bilhete de 22 de agosto de 2010.
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Um furo de poucos centímetros transformou 33 desaparecidos em 33 sobreviventes à espera de resgate. |
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Pelo furo começaram a descer as palomas (pombas, no apelido dos mineiros), tubos de cerca de 10 centímetros de diâmetro com soro, comida, remédio, cartas e, depois, uma câmera e um telefone.
Nos dias seguintes, os mineiros gravaram vídeos para as famílias. Mostravam o refúgio, as camas improvisadas com papelão e a rotina de turnos, com barba crescida e roupa cortada para aguentar o calor úmido do fundo da mina.
Os médicos voltaram a alimentar os homens aos poucos, com bebida glicosada antes de comida sólida, para que o corpo debilitado aguentasse o retorno da comida.
O resgate correu em três frentes ao mesmo tempo, chamadas de Plano A, Plano B e Plano C, cada uma com uma perfuratriz diferente. O Plano B, uma máquina americana Schramm T130 com martelos da empresa Center Rock, alargou o furo de uma das sondas.
Em 9 de outubro, o Plano B rompeu a galeria. A Armada do Chile, com consultoria da NASA, tinha construído a cápsula Fénix 2, um cilindro de aço com pouco mais de meio metro de largura, para subir um homem por vez.
Na madrugada de 13 de outubro de 2010, às 0h11, Florencio Ávalos foi o primeiro a sair. Abraçou o filho de 7 anos na boca do furo, transmitido ao vivo para o mundo.
Antes de cada subida, o mineiro vestia uma cinta com sensores de batimento e respiração e óculos escuros, porque os olhos estavam havia mais de dois meses sem luz do sol.
Cada viagem durava cerca de 15 minutos. Um a um, os 33 subiram ao longo do dia. Luis Urzúa, o mesmo que dividiu o atum, pediu para ser o último. Saiu às 21h55 e disse a Piñera que entregava o turno.
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