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Os 2.500 Rublos de Taras Shevchenko

Comprado da servidão com um retrato rifado, ele foi mandado soldado à estepe com ordem de não escrever. Escreveu dentro da bota.

Soldado russo do século XIX escrevendo num caderninho escondido na bota, numa fortaleza da estepe.

Fortaleza de Orsk, estepe cazaque, 1847

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São Petersburgo, abril de 1838. Um retrato a óleo do poeta Vassíli Jukóvski, pintado por Karl Briullov, o pintor mais disputado do Império Russo, vai a sorteio numa loteria entre a nobreza da capital. Até a família imperial compra bilhetes.

O quadro interessa pouco aos organizadores. O que interessa é a soma arrecadada: 2.500 rublos, o preço que o senhor de terras Pavel Engelhardt cobrou por um único servo.

O servo tem 24 anos, nasceu em Morintsi, aldeia da província de Kiev, e se chama Taras Shevchenko. Órfão de mãe aos nove anos e de pai aos onze, passou a infância pastoreando ovelhas e servindo na casa do senhor.

Engelhardt o levou a Vilna e depois à capital como kozatchok, o menino de recados que acende o cachimbo do patrão e espera de pé atrás da porta. Ao notar que o rapaz desenhava, entregou-o como aprendiz a um mestre de pintura decorativa, Vassíli Chiriáev, para pintar paredes e tetos de palácio.

Nas noites claras de verão, Taras copiava as estátuas do Jardim de Verão. Foi ali que o pintor ucraniano Ivan Sochenko o encontrou, em 1836, e o apresentou a Briullov, a Jukóvski e ao pintor Alekséi Venetsiánov.

O grupo tentou negociar a alforria. Engelhardt subiu o preço. Briullov então pintou o retrato, e a loteria virou bilhete de saída.

Em 22 de abril de 1838, pelo calendário russo, o documento de libertação foi assinado. Shevchenko entrou na Academia Imperial de Artes como aluno de Briullov, homem livre.

Dois anos depois, em 1840, saiu em São Petersburgo um livrinho de oito poemas em ucraniano, a língua de camponeses que o Império tratava como dialeto. O título era Kobzar, nome do cantor cego que percorria as aldeias com a kobza, o alaúde ucraniano. O dinheiro da impressão veio de um admirador, Petro Martos.

O ex-servo virou poeta lido de Kiev a Poltava. Sete anos de liberdade depois, a polícia do czar o esperava na margem de um rio.

 

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I  A Queda

A travessia do Dnieper

 
 

A resposta de ontem

Que planta descrita em 2012 recebeu o nome de Jeanne Baret?

É a Solanum baretiae, parente do tomate e da batata, nativa dos Andes do Peru e do Equador. O botânico Eric Tepe, de Cincinnati, a descreveu na revista PhytoKeys em 2012, depois de notar que nenhuma planta aceita pela botânica levava o nome de Baret.

Em 5 de abril de 1847, Taras Shevchenko foi preso ao descer de uma balsa no rio Dnieper, perto de Kiev. Ia ao casamento do amigo Nikolai Kostomárov, historiador, onde seria padrinho.

O noivo já estava preso. A polícia tinha descoberto a Irmandade de Cirilo e Metódio, um círculo secreto de professores e estudantes de Kiev que defendia o fim da servidão e uma federação de povos eslavos.

Na bagagem do poeta, os agentes acharam o caderno manuscrito Tri lita (Três anos), com os poemas escritos entre 1843 e 1845. Ali estavam versos que nenhuma gráfica do Império aceitaria imprimir.

O poema do sonho

O mais grave era Son (O Sonho), de 1844. No poema, o narrador sobrevoa o Império e entra no palácio, onde vê o czar Nicolau I esmurrar os próprios generais e a czarina tremer a cabeça, seca como um cogumelo de pernas compridas.

Nicolau I leu o poema em pessoa. A czarina tinha mesmo um tremor na cabeça, e a sátira deixou de ser literatura para virar ofensa à família imperial.

Em São Petersburgo, Shevchenko passou semanas nos interrogatórios da Terceira Seção, a polícia política do Império, no prédio junto à ponte das Correntes. Não denunciou ninguém da Irmandade.

Os interrogadores quiseram saber quem lia os manuscritos, quem os copiava e quem pagava as viagens. Ele respondeu pelos próprios versos e por mais nada. Os autos guardam as respostas curtas de um homem que já conhecia o preço de um nome dito na hora errada.

A sentença saiu em 30 de maio de 1847: recruta raso no Corpo Separado de Orenburg, na fronteira da estepe cazaque. A Kostomárov coube um ano de fortaleza e o exílio em Saratov. Os outros membros receberam penas menores.

O czar acrescentou uma linha à mão, ao pé da sentença do poeta.

 

“Sob a mais estrita vigilância, com proibição de escrever e de pintar.” Nicolau I, anotação à sentença de Taras Shevchenko, 1847.

 

A fortaleza de Orsk

Em junho de 1847, o ex-aluno da Academia chegou a Orsk, fortaleza de taipa e caserna na margem do rio Ural. Recebeu farda, fuzil e um catre no alojamento da companhia. Marchava nos exercícios todas as manhãs, sob o sol da estepe.

Não podia pedir baixa nem contar com tempo de serviço definido. A pena de soldado raso, no Império, durava até 25 anos.

Tinha 33 anos. Nove anos antes, a corte comprara bilhetes para libertá-lo. Agora o mesmo palácio o proibia de segurar um lápis.

 

O homem libertado por um retrato perdeu, por decreto do czar, o direito de desenhar e de escrever uma linha.

 
 
 
 

II  O Triunfo

Os livrinhos do cano da bota

 
 

O decreto não alcançava o cano da bota. Em Orsk, Shevchenko costurou cadernos minúsculos, de folhas dobradas, e passou a escrever neles nas horas mortas, escondido dos oficiais.

Os ucranianos chamam esses cadernos de zakhaliavni knijetchki, os livrinhos do cano da bota. Neles ficaram dezenas de poemas do exílio, escritos entre 1847 e 1850, em ucraniano, à margem de qualquer censor.

Um deles volta à infância de servo na aldeia, longe da caserna.

 

“Eu tinha treze anos. Pastava os cordeiros atrás da aldeia.” Taras Shevchenko, Meni trynadtsiatyi mynalo (Eu fazia treze anos), 1847.

 

O mar de Aral

Em 1848, o tenente da Marinha Alekséi Butakov montou uma expedição para mapear o mar de Aral e precisava de um desenhista. O comando de Orenburg fechou os olhos e mandou o soldado Shevchenko.

Durante quase dois anos, a bordo da escuna Konstantin, ele desenhou margens, acampamentos cazaques e o próprio rosto em aquarela. As vistas do Aral foram parar no relatório da expedição.

A brecha fechou em 1850. Uma denúncia o acusou de desenhar e de andar em roupa civil em Orenburg. Veio nova prisão, nova busca e a apreensão dos papéis.

Em outubro de 1850, mandaram-no para Novopetrovsk, fortaleza na península de Mangyshlak, na costa leste do mar Cáspio. Deserto, vento salgado e água salobra. Ficou ali sete anos.

O comandante da guarnição, Irakli Uskov, acabou por tratá-lo com algum respeito, e a mulher dele recebia o soldado em casa. Foi o único alívio de uma fortaleza onde a correspondência levava meses para chegar.

A condessa de São Petersburgo

Em Novopetrovsk, os versos quase pararam. Shevchenko modelava em barro, desenhava às escondidas e escrevia novelas em russo, que mandava à capital com o pseudônimo Kobzar Darmograi.

Em São Petersburgo, o conde Fiódor Tolstói, vice-presidente da Academia de Artes, e a mulher dele, Anastassia, passaram anos batendo em portas de ministério. A morte de Nicolau I, em 1855, e a coroação de Alexandre II abriram uma fresta.

A ordem de soltura chegou em 1857. Em 2 de agosto, Shevchenko deixou Novopetrovsk num barco rumo a Astracã, aos 43 anos, depois de dez anos de farda.

Na viagem de volta, começou um diário, escrito em russo, que registra cada dia da liberdade recuperada. A polícia ainda o reteve meses em Níjni Nóvgorod, sem licença para entrar na capital.

 

Proibido de escrever por decreto, ele escreveu dentro da bota e saiu do degredo com os poemas inteiros.

 
 
 
 
 

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III  A Lição

O livro dos oito poemas

 
 

Shevchenko só voltou a São Petersburgo em março de 1858. Encontrou o Kobzar de 1840 transformado em livro de cabeceira de uma geração. Estudantes de Kiev copiavam à mão os poemas proibidos.

Em 1860, saiu uma nova edição do Kobzar, com cortes da censura. No mesmo ano, a Academia de Artes lhe deu o título de acadêmico de gravura, o mesmo prédio onde entrara como ex-servo.

No começo de 1861, publicou o Bukvar iujnorusskii, uma cartilha para ensinar camponeses a ler na própria língua. Tirou 10 mil exemplares. Queria que a gente da aldeia lesse o Kobzar sem precisar de quem lesse por ela.

Taras Shevchenko morreu em São Petersburgo em 10 de março de 1861, um dia depois de completar 47 anos. Uma semana antes, Alexandre II tinha assinado o manifesto que acabava com a servidão no Império.

 

Nascido servo, o poeta não viveu oito dias de um país sem servos, mas deixou a língua que esses servos iam ler.

 

Dezesseis anos antes, doente em Pereiaslav, ele tinha escrito o pedido que os amigos levariam a sério.

 

“Quando eu morrer, enterrem-me num túmulo alto, no meio da estepe larga, na minha Ucrânia querida.” Taras Shevchenko, Zapovit (Testamento), 1845.

 

O que o degredo ensina

A trajetória deixa três passos para quem perde a liberdade e a ferramenta:

1. Guardar a obra onde o decreto não alcança. Os livrinhos da bota salvaram dez anos de poesia que a caserna teria apagado.

2. Usar a brecha que aparecer. A expedição do Aral devolveu o lápis ao soldado proibido de desenhar e rendeu dois anos de trabalho.

3. Escrever para quem ainda não lê. O Kobzar e a cartilha de 1861 miravam o camponês da aldeia, e por isso duraram.

O primeiro enterro foi no cemitério Smolensky, em São Petersburgo, longe da estepe do poema. Dois meses depois, os amigos desenterraram o caixão e o levaram rumo ao sul, cumprindo o testamento.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que colina do Dnieper o corpo de Shevchenko foi enterrado em 1861?

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