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I A Queda
A travessia do Dnieper
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A resposta de ontem Que planta descrita em 2012 recebeu o nome de Jeanne Baret? É a Solanum baretiae, parente do tomate e da batata, nativa dos Andes do Peru e do Equador. O botânico Eric Tepe, de Cincinnati, a descreveu na revista PhytoKeys em 2012, depois de notar que nenhuma planta aceita pela botânica levava o nome de Baret. |
Em 5 de abril de 1847, Taras Shevchenko foi preso ao descer de uma balsa no rio Dnieper, perto de Kiev. Ia ao casamento do amigo Nikolai Kostomárov, historiador, onde seria padrinho.
O noivo já estava preso. A polícia tinha descoberto a Irmandade de Cirilo e Metódio, um círculo secreto de professores e estudantes de Kiev que defendia o fim da servidão e uma federação de povos eslavos.
Na bagagem do poeta, os agentes acharam o caderno manuscrito Tri lita (Três anos), com os poemas escritos entre 1843 e 1845. Ali estavam versos que nenhuma gráfica do Império aceitaria imprimir.
O poema do sonho
O mais grave era Son (O Sonho), de 1844. No poema, o narrador sobrevoa o Império e entra no palácio, onde vê o czar Nicolau I esmurrar os próprios generais e a czarina tremer a cabeça, seca como um cogumelo de pernas compridas.
Nicolau I leu o poema em pessoa. A czarina tinha mesmo um tremor na cabeça, e a sátira deixou de ser literatura para virar ofensa à família imperial.
Em São Petersburgo, Shevchenko passou semanas nos interrogatórios da Terceira Seção, a polícia política do Império, no prédio junto à ponte das Correntes. Não denunciou ninguém da Irmandade.
Os interrogadores quiseram saber quem lia os manuscritos, quem os copiava e quem pagava as viagens. Ele respondeu pelos próprios versos e por mais nada. Os autos guardam as respostas curtas de um homem que já conhecia o preço de um nome dito na hora errada.
A sentença saiu em 30 de maio de 1847: recruta raso no Corpo Separado de Orenburg, na fronteira da estepe cazaque. A Kostomárov coube um ano de fortaleza e o exílio em Saratov. Os outros membros receberam penas menores.
O czar acrescentou uma linha à mão, ao pé da sentença do poeta.
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“Sob a mais estrita vigilância, com proibição de escrever e de pintar.” Nicolau I, anotação à sentença de Taras Shevchenko, 1847. |
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A fortaleza de Orsk
Em junho de 1847, o ex-aluno da Academia chegou a Orsk, fortaleza de taipa e caserna na margem do rio Ural. Recebeu farda, fuzil e um catre no alojamento da companhia. Marchava nos exercícios todas as manhãs, sob o sol da estepe.
Não podia pedir baixa nem contar com tempo de serviço definido. A pena de soldado raso, no Império, durava até 25 anos.
Tinha 33 anos. Nove anos antes, a corte comprara bilhetes para libertá-lo. Agora o mesmo palácio o proibia de segurar um lápis.
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O homem libertado por um retrato perdeu, por decreto do czar, o direito de desenhar e de escrever uma linha. |
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II O Triunfo
Os livrinhos do cano da bota
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O decreto não alcançava o cano da bota. Em Orsk, Shevchenko costurou cadernos minúsculos, de folhas dobradas, e passou a escrever neles nas horas mortas, escondido dos oficiais.
Os ucranianos chamam esses cadernos de zakhaliavni knijetchki, os livrinhos do cano da bota. Neles ficaram dezenas de poemas do exílio, escritos entre 1847 e 1850, em ucraniano, à margem de qualquer censor.
Um deles volta à infância de servo na aldeia, longe da caserna.
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“Eu tinha treze anos. Pastava os cordeiros atrás da aldeia.” Taras Shevchenko, Meni trynadtsiatyi mynalo (Eu fazia treze anos), 1847. |
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O mar de Aral
Em 1848, o tenente da Marinha Alekséi Butakov montou uma expedição para mapear o mar de Aral e precisava de um desenhista. O comando de Orenburg fechou os olhos e mandou o soldado Shevchenko.
Durante quase dois anos, a bordo da escuna Konstantin, ele desenhou margens, acampamentos cazaques e o próprio rosto em aquarela. As vistas do Aral foram parar no relatório da expedição.
A brecha fechou em 1850. Uma denúncia o acusou de desenhar e de andar em roupa civil em Orenburg. Veio nova prisão, nova busca e a apreensão dos papéis.
Em outubro de 1850, mandaram-no para Novopetrovsk, fortaleza na península de Mangyshlak, na costa leste do mar Cáspio. Deserto, vento salgado e água salobra. Ficou ali sete anos.
O comandante da guarnição, Irakli Uskov, acabou por tratá-lo com algum respeito, e a mulher dele recebia o soldado em casa. Foi o único alívio de uma fortaleza onde a correspondência levava meses para chegar.
A condessa de São Petersburgo
Em Novopetrovsk, os versos quase pararam. Shevchenko modelava em barro, desenhava às escondidas e escrevia novelas em russo, que mandava à capital com o pseudônimo Kobzar Darmograi.
Em São Petersburgo, o conde Fiódor Tolstói, vice-presidente da Academia de Artes, e a mulher dele, Anastassia, passaram anos batendo em portas de ministério. A morte de Nicolau I, em 1855, e a coroação de Alexandre II abriram uma fresta.
A ordem de soltura chegou em 1857. Em 2 de agosto, Shevchenko deixou Novopetrovsk num barco rumo a Astracã, aos 43 anos, depois de dez anos de farda.
Na viagem de volta, começou um diário, escrito em russo, que registra cada dia da liberdade recuperada. A polícia ainda o reteve meses em Níjni Nóvgorod, sem licença para entrar na capital.
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Proibido de escrever por decreto, ele escreveu dentro da bota e saiu do degredo com os poemas inteiros. |
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