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I A Queda
O juramento no refeitório dos frades
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Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg tinha uns 50 anos quando a Bíblia de 42 linhas começou a sair da prensa. O apelido vem da casa da família em Mainz, o Hof zum Gutenberg (pátio do Bom Monte).
A Bíblia ganhou esse apelido técnico porque cada coluna tem 42 linhas de texto. São duas colunas por página, em latim, com letra gótica copiada da caligrafia dos mosteiros.
Para chegar nessa letra, a oficina fundiu cerca de 290 caracteres diferentes: maiúsculas, minúsculas, ligaduras (duas letras fundidas numa peça só) e abreviaturas que os copistas usavam para poupar espaço.
Cada peça saía de um molde manual de metal, numa liga de chumbo, estanho e antimônio. A tinta não era a dos escribas: Gutenberg usou uma tinta à base de óleo, mais parecida com a dos pintores, que grudava no metal sem escorrer.
Na carta de 1455, Piccolomini fala em 158 ou 180 exemplares, sem certeza. Parte saiu em papel, parte em pergaminho (pele de animal preparada para a escrita), muito mais cara.
Compor uma única página exigia milhares de peças colocadas à mão, letra por letra, num componedor (barra de metal onde o tipógrafo alinha as letras). Depois de impressa, a página era desmontada e as peças voltavam às caixas.
Todo esse trabalho consumia dinheiro sem devolver nada até a Bíblia ficar pronta. E o dinheiro era de Fust.
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Gutenberg perdeu a oficina no ano em que a Bíblia ficou pronta, quando o livro ia começar a pagar a conta. |
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Fust entrou na justiça de Mainz pedindo de volta os dois empréstimos e os juros: 2.026 florins. O tribunal mandou Gutenberg devolver o primeiro empréstimo com juros, além da parte do segundo que não tivesse ido para a obra comum.
A sentença dependia de um juramento. Fust tinha que jurar que ele mesmo havia tomado dinheiro a juros para emprestar ao sócio.
Na manhã de 6 de novembro de 1455, Fust jurou no refeitório do convento franciscano de Mainz, diante do notário Ulrich Helmasperger. Entre as testemunhas estava Peter Schöffer, um jovem copista que trabalhava na oficina de Gutenberg.
Gutenberg mandou representantes: o padre Heinrich Günther e dois ajudantes, Heinrich Keffer e Bechtolf von Hanau. Ele mesmo não apareceu, e nenhum documento explica a ausência.
O registro de Helmasperger é o único papel que sobrou do processo. Nenhum inventário da entrega sobreviveu, e ninguém sabe ao certo quais prensas e caixas de tipos mudaram de mãos. Os historiadores deduzem a perda pelo que veio a seguir: a oficina passou a imprimir para Fust.
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II O Triunfo
O saltério em vermelho e azul
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Peter Schöffer tinha nascido em Gernsheim, perto de Mainz, e estudado em Paris, onde trabalhou como copista de manuscritos. Na oficina, aprendeu o ofício com Gutenberg. Depois do processo, ficou com Fust e, anos mais tarde, casou com Christina, filha dele.
Com o material da oficina e a mão de Schöffer, Fust lançou em 14 de agosto de 1457 o Saltério de Mainz, um livro de salmos para o coro das igrejas, em letras grandes.
As iniciais vinham impressas em vermelho e azul, na mesma página do texto preto. Nenhum livro tinha feito aquilo pela prensa até ali; as cores, até então, eram pintadas à mão depois da impressão.
A última página trazia o colofão (a nota final que diz quem fez o livro e quando). Em latim, o texto anuncia que o volume foi feito "pela engenhosa invenção de imprimir e formar letras, sem traço algum de pena", por Johann Fust e Peter Schöffer.
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O primeiro livro assinado da história da imprensa saiu assinado pelo credor e pelo aprendiz. |
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Fust virou livreiro de sucesso. Levava os volumes às feiras e às cidades universitárias, e em 1466 viajou a Paris para vender livros. Lá adoeceu, provavelmente de peste, e ficou por lá: foi enterrado na cidade naquele mesmo ano.
Em 1462, a dupla lançou a própria Bíblia, com 48 linhas por coluna e colofão datado. Foi a primeira Bíblia impressa a dizer quem a fez e quando, e os nomes eram de novo os de Fust e Schöffer.
Gutenberg seguiu na luta com menos recursos. O jurista Konrad Humery financiou parte do material de uma nova oficina. A ele se atribui o Catholicon de 1460, um dicionário latino, mas o colofão não traz nome nenhum, e a autoria segue em debate.
Em 1462, o arcebispo Adolfo II de Nassau tomou Mainz à força. A cidade foi saqueada, centenas de moradores foram expulsos e muitos impressores fugiram para outras cidades, levando o ofício pela Europa.
Em 17 de janeiro de 1465, o mesmo Adolfo II nomeou Gutenberg Hofmann (homem da corte). Ganhou uma roupa da corte por ano, 2.180 litros de cereal e 2.000 litros de vinho, livres de imposto. Foi o único reconhecimento público que recebeu em vida.
Três anos depois, Gutenberg foi sepultado na igreja dos franciscanos de Mainz. A igreja foi demolida no século XVIII, e o túmulo se perdeu.
A correção do crédito veio de dentro da família de Fust. Em 1505, Johann Schöffer, filho de Peter e neto de Fust, publicou uma tradução alemã de Tito Lívio e escreveu no prefácio que a arte da impressão tinha sido inventada em Mainz pelo engenhoso Johann Gutenberg, em 1450.
Meio século depois do juramento, o neto do credor devolvia a autoria ao inventor, por escrito e em letra de forma.
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