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Os 13 Anos de Exílio de Milton Santos

Preso depois do golpe de 1964, Milton Santos deu aula no exílio por 13 anos, voltou em 1977 e ganhou o maior prêmio da geografia em 1994.

Professor negro de terno diante de um mapa-múndi numa sala de aula europeia, anos 1960.

Toulouse, França, 1965

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3 de maio de 1926: nasce Milton Almeida dos Santos em Brotas de Macaúbas, no sertão da Bahia. Os pais são professores primários e alfabetizam o filho em casa, com livros de francês e de álgebra espalhados pela mesa da cozinha, antes de qualquer escola formal.

1948: o rapaz se forma em direito pela Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Desde estudante dá aula de geografia em ginásio para pagar as contas, e é a geografia que fica. O tema que escolhe é a cidade: quem mora onde, quem trabalha onde e por quê.

1958: defende o doutorado na Universidade de Estrasburgo, na França, orientado pelo geógrafo francês Jean Tricart. A tese estuda o centro de Salvador, as ruas do comércio, os sobrados e o porto.

1959 a 1963: de volta à Bahia, dirige o Laboratório de Geografia e Estudos Regionais da universidade, escreve no jornal A Tarde e entra no serviço público. Em 1961, o presidente Jânio Quadros o nomeia representante da Casa Civil no estado. Em seguida, assume a presidência da Comissão de Planejamento Econômico da Bahia, o órgão que desenha as obras e os investimentos do governo estadual.

31 de março de 1964: tropas saem de Minas Gerais rumo ao Rio de Janeiro, e o presidente João Goulart deixa o poder em dois dias. Os novos donos do governo começam a listar quem ocupava cargo de confiança no regime derrubado.

Abril de 1964: o professor de 37 anos, negro, doutor pela França e homem de confiança de dois governos civis, entra na lista. Perde o posto na comissão de planejamento e passa a responder a inquérito por subversão.

A carreira montada em quinze anos de aula, livro e cargo público cabe agora numa pasta de acusação. O que vem em seguida é a prisão, uma crise de saúde e um embarque sem data de retorno.

 

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I  A Queda

O professor preso em Salvador

 
 

Milton Almeida dos Santos foi detido em Salvador nas semanas que seguiram o golpe. Levaram o professor para um quartel do Exército, onde ficou incomunicável, sem acusação formal apresentada a um juiz.

Ele não era militante de partido. Era um técnico de planejamento que tinha trabalhado para governos eleitos, escrito em jornal sobre desigualdade entre regiões e defendido reforma agrária em artigos. Para os militares que assumiram o comando da Bahia, o currículo bastava.

Na mesma leva, a Bahia viu reitores afastados, sindicalistas presos e jornalistas demitidos. O Ato Institucional de abril de 1964 dava ao novo governo o poder de cassar mandatos e suspender direitos políticos sem passar pela Justiça, e as listas circulavam de repartição em repartição.

A pressão no quartel

Na cela, a pressão arterial do preso subiu a ponto de preocupar os próprios carcereiros. Ele foi transferido para atendimento médico e, depois de algumas semanas, liberado, com o inquérito ainda aberto e o nome marcado nas repartições.

Na universidade, o laboratório que dirigia ficou sem ele. Os colegas que continuavam em sala sabiam que um professor citado em inquérito militar dificilmente voltaria a ter cargo, verba de pesquisa ou passaporte renovado sem problema.

Para um professor que vivia de pesquisa de campo, ficar no Brasil significava dar aula vigiado, sem viajar e sem publicar sobre o tema que tinha escolhido: a desigualdade entre as regiões do país.

O convite de Toulouse

A saída veio pela rede que o doutorado tinha deixado na França. Professores franceses com quem ele tinha estudado ofereceram um posto de ensino na Universidade de Toulouse, no sul do país.

No fim de 1964, Milton Santos embarcou para a Europa. Tinha 38 anos, um doutorado e nenhuma garantia de que voltaria a pisar no Brasil. Não sabia por quanto tempo ficaria fora, nem se o inquérito o esperaria na volta.

 

O geógrafo que planejava o estado da Bahia saiu do país com uma pasta de inquérito aberta e sem data para voltar.

 
 
 
 
 
 
 

II  O Triunfo

Quatro continentes de sala de aula

 
 

Em Toulouse, Milton Santos deu aula de geografia em francês a alunos que nunca tinham ouvido falar de Brotas de Macaúbas. Depois passou por Bordeaux e por Paris, onde lecionou na Sorbonne e no Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social.

O emprego mudava de país a cada poucos anos. Ele aceitava o convite que aparecia, levava a família e recomeçava a pesquisa do zero numa cidade nova.

Do MIT a Dar es Salaam

Em 1971, foi pesquisador no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. Em seguida, lecionou na Universidade de Toronto, no Canadá, e na Universidade Central da Venezuela, em Caracas.

De 1974 a 1976, deu aula na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, país africano que tinha se tornado independente da Inglaterra pouco mais de uma década antes. Encerrou o circuito como professor visitante na Universidade Columbia, em Nova York.

Na Tanzânia, o governo de Julius Nyerere tentava reorganizar o campo em aldeias coletivas, chamadas ujamaa (família, em suaíli). O professor brasileiro acompanhou de perto um país pobre planejando o próprio território, o mesmo trabalho que ele fazia na Bahia antes de 1964.

Cada cidade entrou na obra. Ao comparar Caracas, Lima, Dar es Salaam e Salvador, ele percebeu que as cidades pobres funcionam com dois circuitos de economia: o superior, de bancos, indústria e grande comércio, e o inferior, de camelô, oficina de fundo de quintal e pequena venda.

Os dois circuitos dependem um do outro. O camelô compra do atacadista, o operário da fábrica almoça na barraca da esquina, e a cidade pobre só se explica quando o geógrafo olha os dois ao mesmo tempo.

O livro do exílio

A ideia virou o livro L'Espace partagé (O espaço dividido), publicado em Paris em 1975. Em 1978, saiu no Brasil Por uma Geografia Nova, em que ele defende que o espaço é produto do trabalho humano e da técnica de cada época, e não só um palco onde as pessoas vivem.

Em 1977, com a abertura lenta do regime, voltou ao Brasil. O retorno não trouxe cargo de imediato: passou um período como consultor e só em 1979 entrou como professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Em 1983, foi aprovado como professor titular de geografia na Universidade de São Paulo, onde ficou até a aposentadoria. Ali formou uma geração de geógrafos e publicou, em 1996, A Natureza do Espaço, o livro que muitos colegas tratam como a síntese da obra.

 

Treze anos dando aula em francês, inglês e espanhol renderam a teoria que ele trouxe de volta para a Universidade de São Paulo.

 
 
 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

O prêmio de Saint-Dié

 
 

Em 1994, Milton Santos recebeu o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, entregue todo ano no Festival Internacional de Geografia de Saint-Dié-des-Vosges, na França. A premiação ganhou o apelido de Nobel da geografia, porque a área não tem Nobel próprio.

Saint-Dié tem ligação antiga com o ofício: foi na cidade que, em 1507, um grupo de estudiosos imprimiu o mapa de Martin Waldseemüller, o primeiro a usar o nome América para o continente novo.

Ele foi o único brasileiro a receber o prêmio. O júri, formado por geógrafos de vários países, premiou a obra construída entre Salvador, o exílio e São Paulo.

Na Universidade de São Paulo, ele era um dos raros professores titulares negros, e falava do assunto em entrevistas. Dizia que o racismo brasileiro aparece no espaço da cidade: em quem mora longe do centro e em quem ocupa as cadeiras da universidade.

O último livro

Em 2000, publicou Por uma outra globalização, escrito para leitor comum, sem jargão de universidade. O livro critica a globalização que chega às pessoas pela propaganda e pelo consumo, e aposta que os pobres das cidades criam formas próprias de viver juntos.

 

“A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.” Milton Santos, Por uma outra globalização, 2000.

 

Milton Santos morreu de câncer em 24 de junho de 2001, em São Paulo, aos 75 anos. Seus livros seguem em catálogo e em reedição pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), e o cineasta Silvio Tendler lançou em 2006 o documentário Encontro com Milton Santos, com entrevistas gravadas nos últimos anos de vida dele.

Três passos de um exílio

Do caminho de Milton Santos saem três passos para quem perde o chão de trabalho de uma hora para outra:

1. Usar a rede que já existe. A saída para Toulouse veio dos professores que ele conheceu no doutorado, seis anos antes do golpe.

2. Tratar cada mudança como material. Caracas, Lima e Dar es Salaam viraram os casos que sustentam a teoria dos dois circuitos da economia urbana.

3. Voltar com obra pronta. Quando a porta reabriu, ele chegou com livros publicados em Paris e no Brasil, e o concurso da Universidade de São Paulo veio seis anos depois do retorno.

 

O professor punido pelo regime de 1964 voltou com a teoria escrita fora e foi premiado na França trinta anos depois da prisão.

 

Os fatos centrais desta edição vêm de Testamento Intelectual, livro de entrevistas com Milton Santos conduzidas pelos pesquisadores Jesus de Paula Assis e Maria Encarnação Beltrão Sposito, publicado pela Editora Unesp em 2004.

O menino que os dois professores de Brotas de Macaúbas alfabetizaram em casa, com livros de francês na mesa da cozinha, recebeu em francês, aos 68 anos, o maior prêmio da geografia, na cidade de Saint-Dié.

 
 
Quiz da edição

Entre 1974 e 1976, durante o exílio, em qual universidade Milton Santos deu aula na Tanzânia?

AUniversidade de Toronto
BUniversidade Central da Venezuela
CUniversidade de Dar es Salaam
DUniversidade Columbia

Resultado da última edição: 40% acertaram.

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