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Queda e Triunfo   Queda e Triunfo
ED 128

Onze Anos de Frente para o East River

Com o engenheiro-chefe de cama em 1872, Emily Roebling conduziu a obra da ponte do Brooklyn e foi a primeira a cruzá-la, em 1883.

Mulher de vestido escuro diante de uma janela com vista para as torres de pedra de uma ponte em construção, no século XIX.

A ponte do Brooklyn em obras, vista do Brooklyn

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1843: Emily Warren, futura Emily Warren Roebling, nasce em Cold Spring, vila à margem do rio Hudson, no estado de Nova York, penúltima de doze filhos.

1864: num baile de oficiais no acampamento do irmão, o general Gouverneur Warren, conhece o capitão Washington Roebling.

Janeiro de 1865: os dois se casam em Cold Spring.

1867: nasce o único filho do casal, John A. Roebling II, na Alemanha, durante uma viagem de estudos sobre fundações submersas.

1869: o sogro, John Augustus Roebling, autor do projeto da ponte do Brooklyn, fere o pé num cais e sucumbe ao tétano em julho. Washington, aos 32 anos, assume a obra.

1872: Washington perde a força das pernas e a capacidade de ir ao canteiro.

24 de maio de 1883: a ponte abre ao público, e Emily a atravessa antes das autoridades.

Em 1869, Brooklyn e Nova York eram duas cidades separadas por um braço de mar. O East River tinha correnteza forte, maré que subia e descia duas vezes por dia e, nos invernos duros, placas de gelo que paravam as balsas por horas. Quem morava no Brooklyn e trabalhava em Manhattan dependia do barco.

O projeto de John Augustus Roebling prometia resolver a travessia com uma ponte pênsil (sustentada por cabos presos a torres) de vão central de quase 486 metros, a maior do planeta na época. Duas torres de granito e calcário sairiam do leito do rio. Quatro cabos de aço, cada um com milhares de fios, desceriam delas até o tabuleiro.

Emily tinha 26 anos quando o sogro foi enterrado e o marido herdou o cargo de engenheiro-chefe. Ela cuidava de um menino de dois anos numa casa alugada no Brooklyn. Não tinha formação técnica, e as escolas de engenharia do país não aceitavam mulheres.

Onze anos depois, seria ela a subir numa carruagem e cruzar o vão inteiro, com as duas cidades olhando.

A primeira seção conta o que o fundo do East River fez com o engenheiro-chefe e como a obra foi parar numa sala com vista para o rio.

 

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I  A Queda

O quarto de Columbia Heights

 
 

Emily Warren Roebling viu o marido descer ao fundo do rio quase todos os dias entre 1870 e 1872. As torres da ponte se apoiavam em caixões pneumáticos (enormes caixas de madeira sem fundo, afundadas no leito e cheias de ar comprimido para manter a água do lado de fora). Dentro deles, operários cavavam lama e pedra à luz de lampião, enquanto o peso da alvenaria empurrava a caixa para baixo.

O ar comprimido cobrava um preço que a medicina da época mal entendia. Quem subia depressa demais para a superfície sentia dores nas juntas, paralisia e convulsões. Os operários chamavam o mal de "the bends" (as curvas, em inglês, pela postura torta das vítimas). Hoje ele se chama doença descompressiva: o nitrogênio dissolvido no sangue sob pressão forma bolhas quando a pressão cai de repente.

O caixão do lado de Manhattan desceu cerca de 24 metros abaixo da linha d'água. Washington entrava nele para acompanhar a escavação e, na primavera de 1872, saiu carregado. Teve crises de dor, perdeu parte da visão e passou a tolerar mal barulho de passos e conversa. Ficou confinado a um quarto da casa no número 110 de Columbia Heights, no Brooklyn.

 

Aos 35 anos, o engenheiro-chefe da maior ponte do mundo não conseguia descer a escada de casa. A obra tinha dez anos pela frente e nenhum substituto que soubesse o projeto de cor.

 

A janela do quarto dava para o rio. Com uma luneta, Washington acompanhava o avanço das torres e dos andaimes. Ele guardava na cabeça cada detalhe do projeto do pai, mas não aguentava escrever por muito tempo nem receber os assistentes em fila.

Emily passou a ser a ponte entre o quarto e o canteiro. Anotava as instruções que ele ditava, transcrevia cartas e levava ordens aos engenheiros assistentes, entre eles Charles Martin e Francis Collingwood. Quando os assistentes voltavam com perguntas, era ela quem as trazia de volta para o quarto.

A tarefa exigia que ela entendesse o que carregava. Em poucos meses, Emily estudou resistência dos materiais, cálculo de tensões e a curva catenária (o desenho que um cabo pendurado faz sob o próprio peso). Aprendeu a ler plantas e a conversar sobre a fiação dos cabos com fornecedores de aço.

Os diretores da obra desconfiaram do arranjo. Um engenheiro-chefe que ninguém via e uma esposa que falava por ele deixavam políticos de Brooklyn e de Nova York inquietos. Em 1872, porém, trocar o comando de uma obra daquele porte parecia arriscado demais, e o arranjo continuou.

 
 
 

II  O Triunfo

Cálculo de cabo na mesa da sala

 
 

Em 1876, as duas torres estavam de pé, com cerca de 84 metros acima da água. Faltava o trabalho mais delicado: estender os quatro cabos principais de uma torre a outra, fio por fio, girando rodas de fiação que atravessavam o rio centenas de vezes.

A fiação começou em 1877 e terminou no outono de 1878. Cada cabo principal reuniu 19 feixes de fios de aço galvanizado, amarrados e compactados até formar um cilindro de cerca de 40 centímetros de diâmetro.

Emily cuidava da correspondência com empreiteiros, fiscais e o conselho de diretores. Recebia visitantes no térreo da casa de Columbia Heights e respondia perguntas técnicas com uma segurança que surpreendia os engenheiros que chegavam. Alguns jornais da época passaram a atribuir a ela a direção real da obra; a família sempre sustentou que as decisões de fundo eram de Washington.

Em 1878, a crise veio do aço. Descobriu-se que o fornecedor J. Lloyd Haigh tinha entregado fios de má qualidade, trocando lotes aprovados na inspeção por lotes reprovados no caminho até a obra. Parte do material já estava enrolada nos cabos. Washington calculou que a ponte suportaria o erro se cada cabo recebesse fios extras de reforço, e Emily levou a solução ao canteiro.

 

A fraude do aço ficou dentro dos cabos para sempre. A ponte foi reforçada com cerca de 150 fios a mais em cada cabo e seguiu de pé.

 

Em 1882, com a obra atrasada e o orçamento estourado, o novo prefeito do Brooklyn, Seth Low, tentou tirar Washington do cargo de engenheiro-chefe. Emily fez o que nenhuma mulher tinha feito até então: falou em nome do marido diante da Sociedade Americana de Engenheiros Civis. Os diretores votaram, e Washington ficou no posto.

Em 24 de maio de 1883, a ponte abriu. Antes do cortejo oficial, Emily subiu numa carruagem aberta e cruzou o vão inteiro, de Brooklyn até Manhattan. Levava no colo um galo vivo, símbolo de vitória. Os operários tiraram o chapéu à passagem dela.

Na cerimônia da tarde, o presidente Chester Arthur e o governador Grover Cleveland cruzaram a pé. Washington assistiu da janela, com a luneta. Depois, o presidente foi até Columbia Heights cumprimentar o engenheiro que não pudera descer.

 

A ponte ficará como monumento eterno à devoção abnegada de uma mulher e à capacidade dela para a educação superior, da qual foi excluída por tempo demais.

Abram Hewitt, discurso na inauguração da ponte do Brooklyn, 24 de maio de 1883

 
 
 
 
 

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III  A Lição

Um galo na carruagem

 
 

A doença de Washington durou a vida inteira, mas melhorou com os anos. Em 1888, a família se mudou para Trenton, em Nova Jersey, perto das fábricas de cabos da empresa Roebling. Emily ganhou tempo que a ponte nunca tinha deixado sobrar.

Ela usou esse tempo para estudar o que antes estudara às pressas. Em 1899, concluiu o curso de direito para mulheres da Universidade de Nova York. O ensaio de conclusão, sobre a condição jurídica da esposa na lei comum inglesa, ganhou o prêmio da turma. Emily viajou à Europa, foi apresentada à rainha Vitória em Londres e presidiu associações de mulheres em Nova Jersey.

Emily Warren Roebling faleceu em 28 de fevereiro de 1903, em Trenton, aos 59 anos, de câncer no estômago. Washington viveu até 1926 e se casou de novo. O filho, John A. Roebling II, seguiu carreira como engenheiro e filantropo.

Em 1898, Brooklyn deixou de ser cidade e virou distrito de Nova York. A ponte ajudou a tornar a fusão inevitável: com a travessia a pé em poucos minutos, as duas margens passaram a funcionar como uma cidade só.

A lição da história mora na primavera de 1872. A queda de Washington parecia condenar a obra, e a mulher sem diploma que servia de mensageira virou a pessoa que mais sabia sobre a ponte depois dele. Ela estudou porque precisava entender o que transmitia, e a necessidade virou competência.

Os fatos centrais vêm de dois livros: The Great Bridge, de David McCullough, publicado em 1972, e Silent Builder: Emily Warren Roebling and the Brooklyn Bridge, de Marilyn E. Weigold, publicado em 1984. A extensão exata do papel técnico de Emily segue em disputa entre historiadores, porque as ordens saíam assinadas por Washington e ela nunca deixou relato próprio das decisões.

A ponte do Brooklyn continua aberta a pedestres, ciclistas e carros. Numa das torres, uma placa instalada em 1951 pela associação de engenheiros do Brooklyn homenageia Emily, Washington e John Roebling.

Em Cold Spring, a vila do Hudson onde nasceu em 1843, Emily está enterrada no jazigo da família Warren, pouco mais de 80 quilômetros ao norte das torres de granito que ela viu subir da janela de Columbia Heights.

 

Que tarefa você assumiria hoje se a pessoa que sabia fazê-la deixasse de sair de casa?

 
 

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Quiz da edição

Depois de descobrir que o fornecedor J. Lloyd Haigh entregou fios de aço reprovados na inspeção, quantos fios extras de reforço cada cabo da ponte recebeu, segundo o cálculo de Washington Roebling?

ACerca de 50 fios extras
BCerca de 150 fios extras
CCerca de 300 fios extras
DCerca de 500 fios extras

Resultado da última edição: 1 de 2 acertaram.

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