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ED 129

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Oitenta e Seis Sinais para uma Língua

Sem ler língua nenhuma, o prateiro Sequoyah gastou doze anos num silabário cherokee e, em 1821, ensinou a nação a escrever.

Homem cherokee de turbante, sentado diante de uma tábua, desenhando sinais de escrita, no início do século XIX.

Sequoyah e os sinais do silabário cherokee

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Por volta de 1770: nasce Sequoyah, batizado em inglês George Gist, na vila cherokee de Tuskegee, à beira do rio Little Tennessee, filho de Wut-teh, do clã da Tinta Vermelha, e de um comerciante branco de peles.

1809: já prateiro, com uma perna manca desde a juventude, começa a riscar sinais para registrar a língua cherokee.

1814: luta na Batalha de Horseshoe Bend, no Alabama, com os soldados cherokees aliados às tropas de Andrew Jackson contra os Red Sticks (Bastões Vermelhos), facção rebelde do povo creek.

1821: apresenta ao conselho cherokee um silabário (sistema de escrita em que cada sinal marca uma sílaba) de 86 caracteres.

1825: o conselho nacional adota a escrita como oficial.

21 de fevereiro de 1828: circula em New Echota, capital cherokee na Geórgia, a primeira edição do Cherokee Phoenix (Fênix Cherokee), jornal impresso em inglês e no silabário.

No começo do século XIX, os cherokees ocupavam terras que cobriam partes da Geórgia, do Tennessee, das Carolinas e do Alabama. Plantavam milho, criavam gado, negociavam com comerciantes brancos e assinavam tratados com o governo americano.

Os tratados vinham escritos em inglês. Poucos chefes conseguiam conferir o que tinham assinado, e cada acordo levava mais um pedaço de território. A língua cherokee, falada por milhares de pessoas, só existia na boca de quem a falava.

Sequoyah via os brancos lidarem com papel todos os dias. Comerciantes anotavam dívidas, oficiais despachavam ordens, missionários abriam a Bíblia. Os relatos da época dizem que os cherokees chamavam aquelas folhas de "talking leaves" (folhas falantes, em inglês).

Ele nunca frequentou escola e não sabia ler inglês nem qualquer outra língua. Trabalhava a prata com as mãos, fazia brincos, braceletes e colheres, e desenhava bem. Tinha uma convicção que os vizinhos achavam ridícula: a fala do seu povo também podia virar marca num papel.

A primeira seção conta os anos em que essa convicção custou a Sequoyah a oficina, a reputação e quase a família.

 

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I  A Queda

Um sinal para cada palavra

 
 

Sequoyah, o prateiro cherokee também conhecido como George Gist, começou pelo caminho que parecia óbvio. Se o papel dos brancos guardava palavras, ele desenharia um sinal para cada palavra da língua cherokee. Um desenho para "casa", outro para "milho", outro para "rio".

O método logo virou armadilha. Cada verbo cherokee muda de forma conforme quem age, quando e com que intenção, e uma frase simples podia exigir sinais que ainda não existiam. Os relatos colhidos décadas depois falam de milhares de desenhos riscados em lascas de madeira e cascas de árvore, e de um homem incapaz de lembrar metade deles.

A oficina ficou para trás. Clientes deixaram de aparecer, a lavoura da família minguou e os vizinhos passaram a desconfiar. Um homem que passava o dia sozinho riscando figuras que ninguém entendia parecia praticar feitiçaria, acusação grave numa comunidade em que o feiticeiro podia ser punido pelos próprios parentes.

A tradição oral cherokee conta que a esposa, cansada da pobreza, jogou os rabiscos no fogo. Nenhum documento da época confirma o episódio, e os biógrafos o tratam como lenda de família. O que os registros confirmam é que Sequoyah recomeçou várias vezes, sem apoio de chefe nem de missionário.

A guerra de 1814 deu a ele uma razão a mais. Nos acampamentos, os soldados brancos escreviam cartas para casa e liam ordens por escrito. Os cherokees dependiam de mensageiros e da memória. Sequoyah voltou do Alabama convencido de que seu povo perdia terreno também por não ter como registrar a própria voz.

 

Depois de anos de trabalho, Sequoyah tinha uma pilha de desenhos, uma lavoura abandonada, fama de feiticeiro e nenhuma frase que outro cherokee conseguisse ler.

 

A virada veio de ouvir, e não de desenhar. Ele percebeu que as palavras cherokees, por mais numerosas que fossem, se montavam com um conjunto pequeno de sons repetidos. Se desse um sinal a cada som, o problema caberia em algumas dezenas de figuras.

Por volta de 1818, mudou-se com parte da família para o Arkansas, onde vivia o grupo conhecido como cherokees do oeste. Lá, recortou formas de uma cartilha de ortografia em inglês que não sabia ler. Usou as letras como desenhos, com valores novos: a figura parecida com um R passou a valer o som "e"; a parecida com um D, o som "a". Juntou a elas sinais inventados até cobrir cada sílaba que ouvia.

 
 
 

II  O Triunfo

A menina de seis anos no conselho

 
 

Em 1821, Sequoyah voltou ao território cherokee do leste com a escrita pronta e uma aliada improvável: a filha Ayoka, de seis anos, que tinha aprendido os 86 sinais com ele. Os chefes do conselho ouviram a proposta com a mesma desconfiança dos vizinhos.

Os chefes montaram um teste. Pai e filha foram postos em lugares separados, sem se ver. Os chefes ditavam a Sequoyah uma frase em cherokee, ele a escrevia, e um mensageiro levava o papel até Ayoka, que lia a mensagem palavra por palavra. Depois o caminho se invertia.

 

A menina leu cada recado sem erro. Os chefes repetiram a prova com rapazes que Sequoyah ensinou em poucos dias, e os rapazes também leram tudo.

 

A rapidez explicava a febre que veio depois. Quem falava cherokee não precisava aprender uma língua nova, só associar cada som conhecido a um sinal. Relatos de missionários da época falam de gente que aprendia a ler em poucos dias e ensinava parentes na semana seguinte.

A escrita correu de casa em casa sem escola, sem livro e sem professor pago. Em poucos anos, milhares de cherokees liam e escreviam na própria língua, numa proporção que os missionários da região comparavam à dos colonos brancos vizinhos. Cartas passaram a atravessar centenas de quilômetros entre os cherokees do leste e os do Arkansas.

Em 1824, o conselho cherokee concedeu a Sequoyah uma medalha de prata, feita especialmente para ele, e depois uma pensão anual. O homem acusado de feitiçaria virou símbolo da nação. Em 1825, a escrita dele foi adotada como oficial.

O passo seguinte exigiu metal. Com dinheiro do conselho e apoio do missionário Samuel Worcester, os cherokees encomendaram em Boston tipos móveis (as pecinhas de metal com um caractere cada, usadas na prensa) com os sinais de Sequoyah. A gráfica foi montada em New Echota.

Em 21 de fevereiro de 1828, saiu a primeira edição do Cherokee Phoenix, editado por Elias Boudinot, cherokee educado numa escola missionária em Connecticut. As colunas alternavam inglês e silabário. Leis do conselho, notícias e trechos da Bíblia passaram a circular impressos.

Pela primeira vez na América do Norte, um povo indígena tinha jornal próprio, na própria escrita, criada por um dos seus. O inventor não conseguia ler uma linha da metade em inglês do jornal.

 
 
 
 

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III  A Lição

Uma cabana em Sallisaw

 
 

A escrita não segurou as terras. Em 1830, o Congresso americano aprovou a Lei de Remoção dos Índios, assinada pelo presidente Andrew Jackson, o mesmo general ao lado de quem Sequoyah lutara em 1814. A Geórgia passou a pressionar os cherokees, e o Cherokee Phoenix parou de circular em 1834, sem dinheiro e sob ataque do governo estadual.

Entre 1838 e 1839, o exército americano retirou à força milhares de cherokees do leste e os levou a pé até o atual Oklahoma. A marcha ficou conhecida como Trilha das Lágrimas, pela quantidade de gente que sucumbiu de frio, fome e doença no caminho. Na bagagem de quem chegou, iam cartas, Bíblias e leis escritas no silabário.

Sequoyah já estava no oeste. Em 1829, tinha se instalado numa cabana de toras perto da atual Sallisaw, em Oklahoma. Ali trabalhou o sal, lavrou a terra e ajudou, em 1839, nas negociações que reuniram os cherokees recém-chegados aos que já viviam na região.

Em 1842, já idoso, partiu rumo ao México atrás de um grupo de cherokees que tinha migrado para lá. Queria reuni-los ao restante da nação. Adoeceu na viagem e sucumbiu por volta de 1843, perto de San Fernando, no estado mexicano de Coahuila.

O túmulo nunca foi encontrado. A data e o lugar exatos seguem desconhecidos porque a única fonte é o relato dos companheiros de viagem, recolhido meses depois pelos cherokees que foram buscar notícias dele. Nenhuma busca posterior achou os restos.

A lição mora nos anos de lascas de madeira. O método errado custou a Sequoyah a renda e o respeito, e foi o erro que ensinou a ele a medida real da língua. Quando trocou o desenho pela escuta, o trabalho de uma década coube em 86 figuras que uma criança aprendia.

Os fatos centrais vêm de duas obras: Sequoyah, biografia de Grant Foreman publicada em 1938 pela University of Oklahoma Press, e The Cherokee Syllabary: Writing the People's Perseverance, de Ellen Cushman, publicado em 2011 pela mesma editora. Detalhes da juventude, como o incêndio dos rabiscos, vêm só da tradição oral.

A cabana de Sallisaw está de pé, protegida por uma construção de pedra erguida na década de 1930, e hoje é administrada pela Nação Cherokee como museu. Uma estátua de Sequoyah representa Oklahoma no Salão Nacional das Estátuas, no Capitólio, em Washington, desde 1917.

Os 86 sinais de 1821 viraram 85, porque um deles caiu de uso. Desde 1999, fazem parte do Unicode, o padrão que codifica a escrita dos computadores, e aparecem no teclado dos celulares. Na escola de imersão da Nação Cherokee, em Tahlequah, crianças de seis anos aprendem os mesmos sinais que Ayoka leu diante dos chefes.

 

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