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O Rim Feito com Latas de Suco
Ele montou a primeira máquina de diálise na Holanda ocupada e viu dezesseis pacientes não resistirem antes de acertar na número 17.
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Kampen, 1943: o tambor de madeira em teste
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Hospital universitário de Groningen, Holanda, 1938. Um médico recém-formado de vinte e sete anos acompanha a semana final de um rapaz de vinte e dois, que vai perdendo a consciência devagar enquanto o próprio sangue se enche de ureia. O prontuário registrava insuficiência renal e nenhuma conduta possível.
A conta que ele rabiscou depois era simples e desesperadora. Um adulto com os rins parados acumula cerca de vinte gramas de ureia por dia. Quem conseguisse retirar essas vinte gramas do sangue diariamente compraria tempo, e o tempo era tudo que faltava para o corpo tentar se recuperar sozinho.
A ideia não era inédita no papel. Em 1913, John Abel filtrou sangue de cachorro através de membranas de colódio em Baltimore, e em 1924 Georg Haas ligou uma pessoa a um aparelho parecido em Giessen, por poucos minutos. Nenhum dos dois transformou a experiência de laboratório em tratamento de gente doente.
Em maio de 1940 a Holanda foi ocupada. O chefe do serviço em Groningen, judeu, encerrou a própria vida junto com a mulher poucos dias depois da invasão, e o cargo foi entregue a um médico ligado ao partido nazista holandês. Em 1941 o jovem clínico pediu transferência para Kampen, uma cidade pequena às margens do rio IJssel.
O hospital municipal de Kampen não tinha prestígio, laboratório decente nem verba de pesquisa. Tinha uma vantagem: ninguém olhava para lá.
Ainda em Groningen ele havia montado o primeiro banco de sangue da Europa continental, e durante a ocupação usou fichas médicas forjadas para tirar centenas de homens do trabalho forçado e esconder perseguidos dentro das enfermarias.
O aparelho que ele queria construir não tinha fornecedor. Precisava de membrana permeável, bomba, motor, tanque grande e vários metros de tubo, num país onde metal e borracha estavam racionados e onde qualquer encomenda volumosa chamava a atenção do ocupante.
A lista de compras virou uma lista de improvisos, e cada peça saiu de um lugar que nada tinha a ver com medicina.
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I A Queda
Celofane, madeira e dezesseis derrotas
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A máquina que ficou pronta em 1943 parecia equipamento de lavoura. Um tambor montado com ripas de madeira girava dentro de um tanque com cerca de cem litros de solução salina, e em volta do tambor iam quase cinquenta metros de tripa de salsicha feita de celofane.
O celofane era a peça central e veio da indústria de embutidos. A parede da tripa deixava a ureia atravessar e segurava as células do sangue, exatamente o que uma membrana de diálise precisa fazer.
O resto saiu de onde deu. Latas de suco de laranja, a bomba d'água de um Ford, alumínio de um avião abatido, uma corrente de bicicleta e um motor de máquina de costura.
O tanque veio da fábrica de esmaltados de Hendrik Berk, na própria Kampen, onde a montagem aconteceu no chão do galpão com o engenheiro E. C. van Dijk resolvendo o que a medicina não sabia resolver.
O funcionamento era direto. O sangue saía por uma artéria do punho, corria dentro do celofane enquanto o tambor rodava dentro do banho de sal e voltava para o corpo com menos ureia do que tinha saído.
O primeiro paciente entrou na máquina em março de 1943. O aparelho fez o que prometia: a ureia caía de forma mensurável a cada rodada e o exame de laboratório provava a limpeza do sangue. Só que limpar o sangue não bastava.
Entre 1943 e 1945, dezesseis pessoas passaram pelo tambor de Kampen. Nenhuma resistiu. Quase todas chegavam ao hospital na fase final de uma doença renal crônica, com o órgão destruído por anos de deterioração e nada para recuperar depois da sessão.
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A máquina limpava o sangue de gente que já não tinha rim para voltar a funcionar. O aparelho acertava a tarefa e errava o paciente. |
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Do lado de fora, a leitura era mais curta. Dezesseis tentativas, dezesseis desfechos iguais, num hospital de província, com um aparelho montado em fábrica de esmalte, no meio de uma guerra.
Parte da comunidade médica achava o procedimento repugnante em si. Tirar o sangue do corpo de uma pessoa, passar por um tubo e devolver soava a temeridade, e não faltou colega publicando artigo para sustentar que o aparelho não era necessário.
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Havia muita gente que achava a ideia de ter sangue fora do corpo de alguém uma ideia horrível. ~ Willem Kolff, entrevista à Academy of Achievement, 1991 |
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A conclusão que corria nos corredores era a mais econômica de todas: um clínico de cidade pequena bancando curandeiro com peça de ferro-velho. Ele tinha trinta e poucos anos, nenhum cargo de peso e um currículo feito de improviso, o que tornava a acusação fácil de repetir.
Faltava material de todo tipo. Faltava heparina para impedir o sangue de coagular dentro do celofane, faltava autorização para quase tudo e cada sessão consumia semanas de preparo.
Ele continuou anotando cada rodada em detalhe: litros de sangue processados, gramas de ureia retiradas, horas de máquina, evolução do paciente hora a hora. Os cadernos guardavam a única coisa que aquelas dezesseis tentativas ainda podiam entregar.
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II O Triunfo
Onze horas e oitenta litros
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No começo de setembro de 1945, com a guerra encerrada havia quatro meses, chegou ao hospital de Kampen uma mulher de sessenta e sete anos vinda de um campo de detenção para colaboradores do ocupante. O nome dela era Sofia Maria Schafstadt.
O quadro clínico era outro, e a diferença decidiu tudo. Ela tinha inflamação aguda da vesícula, icterícia e os rins parados por consequência da infecção, não por destruição acumulada. Se o corpo atravessasse alguns dias, o órgão tinha chance de voltar sozinho.
Em 11 de setembro de 1945 ela entrou em coma urêmico e foi ligada ao tambor. A sessão durou onze horas. Passaram cerca de oitenta litros de sangue pelo celofane e saíram sessenta gramas de ureia.
Ela abriu os olhos e falou. A primeira frase da primeira pessoa salva por uma máquina de diálise não tinha nada de médico: anunciou que ia se divorciar do marido, e cumpriu. Os rins dela voltaram a funcionar sete dias depois, e ela viveu mais sete anos.
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A técnica era a mesma das dezesseis tentativas anteriores. O que mudou foi o tipo de paciente colocado dentro dela. |
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Em 1946 ele defendeu em Groningen a tese sobre o rim artificial. Logo em seguida tomou a decisão que definiu o alcance do invento: não registrou patente nenhuma e distribuiu as máquinas de graça para hospitais em Londres, Amsterdã, Montreal e Polônia.
Em 26 de janeiro de 1948 a primeira diálise dos Estados Unidos aconteceu no Mount Sinai, em Nova York, com um aparelho saído dessa distribuição. Dois anos depois ele mesmo atravessou o Atlântico e foi trabalhar na Cleveland Clinic.
O improviso continuou sendo o método. Em Cleveland ele desenvolveu o dialisador de bobina dupla usando peças de máquina de lavar roupa, um modelo descartável e barato que virou padrão industrial e levou a diálise para hospitais sem oficina e sem engenheiro residente.
Em 1957, com Tetsuzo Akutsu, implantou o primeiro coração artificial num cachorro, que viveu noventa minutos com o aparelho. Em 1967 montou na Universidade de Utah a divisão de órgãos artificiais, e a linha do coração seguiu por mais quinze anos dentro daquele laboratório.
Em 2 de dezembro de 1982 o Jarvik-7, desenvolvido pela equipe de Utah, foi implantado no dentista Barney Clark. Ele viveu cento e doze dias com o aparelho batendo no peito, e o coração continuava funcionando quando o corpo dele parou.
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Quando aquele coração foi colocado em Barney Clark, quando funcionou, eu me lembro de que chorei por um momento, porque eu tinha começado a trabalhar no coração artificial em 1957, e aquilo era 1982. ~ Willem Kolff, entrevista à Academy of Achievement, 1991 |
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Em 2002 a Fundação Lasker premiou o desenvolvimento da hemodiálise, e o texto oficial registrou que a técnica transformou a insuficiência renal de doença fatal em doença tratável, prolongando a vida útil de milhões de pacientes.
Hoje mais de dois milhões de pessoas no mundo dependem de sessões regulares de diálise para continuar vivas. A linhagem de todas as máquinas em uso passa por um tambor de ripas de madeira montado numa fábrica de panelas esmaltadas.
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