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Sergei Pavlovich Korolev foi preso pelo NKVD (a polícia política soviética) em 27 de junho de 1938, em Moscou, no apartamento onde morava com a mulher, a médica Ksenia Vincentini, e a filha Natalia, de três anos.
A acusação: sabotagem e participação num grupo trotskista dentro do instituto. Valentin Glushko, projetista de motores do RNII preso em março, tinha citado Korolev nos interrogatórios.
Segundo a filha, Natalia Koroleva, na biografia Otets (Pai), os interrogadores quebraram o maxilar dele. Em 27 de setembro de 1938, o Colégio Militar da Suprema Corte o condenou a dez anos de trabalhos forçados.
A mina de Maldiak
O trem levou o preso até Vladivostok, na costa do Pacífico. De lá, um navio cruzou o mar de Okhotsk até Magadan, a porta de Kolimá, região de campos do gulag (a rede soviética de campos de trabalho forçado) no extremo nordeste do país.
Em agosto de 1939, Korolev chegou à mina de Maldiak. Os presos arrancavam ouro do chão congelado com picareta e carrinho de mão, em turnos de mais de 12 horas, e a ração de pão dependia da cota cumprida.
Sem verdura nem fruta, o corpo dele pegou escorbuto (a doença da falta de vitamina C). As gengivas incharam e sangraram, e os dentes começaram a cair. Ele ficou cerca de cinco meses na mina. Os navios só chegavam a Magadan entre maio e novembro, quando o gelo do mar de Okhotsk deixava passar.
O navio perdido
Em Moscou, a mãe, Maria Balanina, mandava cartas a Stálin e aos procuradores pedindo revisão do processo. Tupolev, preso também, incluiu o ex-aluno na lista de engenheiros que queria no escritório de projetos onde trabalhava como detento.
Em dezembro de 1939, chegou a ordem de levar Korolev de volta a Moscou para novo julgamento. O último navio da temporada já tinha partido de Magadan, e ele perdeu a vaga. Pela história contada na família, aquele navio, o Indigirka, afundou na costa do Japão no mesmo mês, com centenas de presos a bordo.
Ele esperou o inverno num campo de trânsito e só desembarcou em Moscou em fevereiro de 1940, magro, sem metade dos dentes e com o coração enfraquecido pelo escorbuto.
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Sergei Korolev não voltou livre. Em julho de 1940, a nova sentença baixou a pena para oito anos, e ele foi mandado para a TsKB-29, uma sharashka (prisão-laboratório onde engenheiros presos projetavam armas), em Moscou, chefiada pelo mesmo Tupolev.
Ali desenhou peças do bombardeiro Tu-2. Em 1942, foi transferido para outra sharashka, em Kazan, onde trabalhou com Glushko, o colega que o havia citado nos interrogatórios, em motores-foguete auxiliares para aviões.
Em julho de 1944, um decreto do Soviete Supremo o libertou antes do prazo, sem apagar a condenação. Korolev saiu com 37 anos, a ficha de ex-preso e a boca sem metade dos dentes.
Os foguetes de Hitler
Em setembro de 1945, o Exército Vermelho o mandou à Alemanha, com patente de coronel, para estudar os restos do V-2, o foguete que os nazistas tinham disparado contra Londres. Os soviéticos recolheram peças, desenhos e técnicos alemães.
Em agosto de 1946, Korolev virou projetista-chefe do OKB-1 (Escritório de Projetos Experimentais número 1), em Podlipki, perto de Moscou. O primeiro trabalho foi copiar o V-2: a cópia, chamada R-1, voou em 1948.
Em 1953, o governo pediu um foguete capaz de levar uma bomba de hidrogênio até a América. A resposta foi o R-7, apelidado de Semiorka (setezinha): um núcleo central com quatro blocos presos em volta e 20 câmaras de combustão acesas juntas.
Em 21 de agosto de 1957, a Semiorka voou cerca de 6 mil quilômetros, do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, até a península de Kamtchatka, no Pacífico.
Bip, bip
Korolev convenceu o governo a usar um desses foguetes para pôr um satélite em órbita. O satélite grande, cheio de instrumentos, atrasou, e ele propôs um modelo simples: uma esfera de alumínio de 58 centímetros, 83,6 quilos, quatro antenas e dois rádios.
Em 4 de outubro, às 22h28 de Moscou, o Sputnik (companheiro de viagem) subiu de Baikonur. Os bipes dele saíam em duas faixas de rádio que qualquer radioamador sintonizava, e a esfera dava uma volta na Terra a cada 96 minutos.
Vieram depois a cadela Laika, em novembro de 1957, e Yuri Gagarin, o primeiro homem no espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1. Korolev acompanhou a decolagem pelo rádio, do bunker de comando.
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