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O Projetista Sem Nome

Sergei Korolev voltou das minas de ouro de Kolimá em 1944, pôs o Sputnik em órbita em 1957 e só teve o nome revelado em 1966.

Presos do gulag numa mina de ouro de Kolimá, no gelo do nordeste soviético, 1939.

Mina de ouro de Kolimá, 1939

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12 de janeiro de 1907: nasce Sergei Pavlovich Korolev em Jitomir, cidade ucraniana do Império Russo. Os pais se separam quando o menino tem três anos, e ele cresce com os avós maternos em Nijin.

1913: o aviador Sergei Utochkin faz exibição de voo em Nijin, num biplano de madeira e lona. O garoto de seis anos assiste da multidão e volta para casa desenhando asas no caderno.

1924: em Odessa, aos 17 anos, entra num clube de planadores do porto e projeta o primeiro aparelho dele, o K-5, um planador sem motor aprovado pela comissão do clube.

1926: troca o Instituto Politécnico de Kiev pela Escola Técnica Superior de Moscou. Lá tem aulas com Andrei Tupolev, o engenheiro que desenhava os aviões grandes do país.

1931: funda em Moscou, com o engenheiro Friedrich Zander, o GIRD (Grupo de Estudo da Propulsão a Jato), instalado num porão da rua Sadovaia-Spasskaia. Sem salário regular, os membros brincavam que a sigla queria dizer grupo de engenheiros trabalhando de graça.

17 de agosto de 1933: o GIRD-09, movido a oxigênio líquido e gasolina endurecida, sobe cerca de 400 metros sobre um campo em Nakhabino, nos arredores de Moscou. É o primeiro foguete soviético a combustível líquido.

1937: aos 30 anos, Korolev chefia o setor de foguetes com asas do RNII (Instituto de Pesquisa da Propulsão a Jato). Em novembro, a polícia política de Stálin prende o diretor, Ivan Kleimenov, e o vice, Georgi Langemak. Os dois são fuzilados em janeiro de 1938.

O engenheiro que pôs o primeiro foguete líquido do país no céu via a lista de presos crescer dentro do próprio prédio. O que vem abaixo conta o verão em que a polícia bateu na porta dele e o caminho que o levou das minas de ouro até a plataforma de lançamento.

 

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I  A Queda

O ouro de Kolimá

 
 

Sergei Pavlovich Korolev foi preso pelo NKVD (a polícia política soviética) em 27 de junho de 1938, em Moscou, no apartamento onde morava com a mulher, a médica Ksenia Vincentini, e a filha Natalia, de três anos.

A acusação: sabotagem e participação num grupo trotskista dentro do instituto. Valentin Glushko, projetista de motores do RNII preso em março, tinha citado Korolev nos interrogatórios.

Segundo a filha, Natalia Koroleva, na biografia Otets (Pai), os interrogadores quebraram o maxilar dele. Em 27 de setembro de 1938, o Colégio Militar da Suprema Corte o condenou a dez anos de trabalhos forçados.

A mina de Maldiak

O trem levou o preso até Vladivostok, na costa do Pacífico. De lá, um navio cruzou o mar de Okhotsk até Magadan, a porta de Kolimá, região de campos do gulag (a rede soviética de campos de trabalho forçado) no extremo nordeste do país.

Em agosto de 1939, Korolev chegou à mina de Maldiak. Os presos arrancavam ouro do chão congelado com picareta e carrinho de mão, em turnos de mais de 12 horas, e a ração de pão dependia da cota cumprida.

Sem verdura nem fruta, o corpo dele pegou escorbuto (a doença da falta de vitamina C). As gengivas incharam e sangraram, e os dentes começaram a cair. Ele ficou cerca de cinco meses na mina. Os navios só chegavam a Magadan entre maio e novembro, quando o gelo do mar de Okhotsk deixava passar.

O navio perdido

Em Moscou, a mãe, Maria Balanina, mandava cartas a Stálin e aos procuradores pedindo revisão do processo. Tupolev, preso também, incluiu o ex-aluno na lista de engenheiros que queria no escritório de projetos onde trabalhava como detento.

Em dezembro de 1939, chegou a ordem de levar Korolev de volta a Moscou para novo julgamento. O último navio da temporada já tinha partido de Magadan, e ele perdeu a vaga. Pela história contada na família, aquele navio, o Indigirka, afundou na costa do Japão no mesmo mês, com centenas de presos a bordo.

Ele esperou o inverno num campo de trânsito e só desembarcou em Moscou em fevereiro de 1940, magro, sem metade dos dentes e com o coração enfraquecido pelo escorbuto.

 

Em 18 meses, o engenheiro do primeiro foguete líquido soviético virou o preso que perdeu os dentes cavando ouro no gelo de Kolimá.

 
 
 
 
 
 
 
 

II  O Triunfo

Do porão a Baikonur

 
 

Sergei Korolev não voltou livre. Em julho de 1940, a nova sentença baixou a pena para oito anos, e ele foi mandado para a TsKB-29, uma sharashka (prisão-laboratório onde engenheiros presos projetavam armas), em Moscou, chefiada pelo mesmo Tupolev.

Ali desenhou peças do bombardeiro Tu-2. Em 1942, foi transferido para outra sharashka, em Kazan, onde trabalhou com Glushko, o colega que o havia citado nos interrogatórios, em motores-foguete auxiliares para aviões.

Em julho de 1944, um decreto do Soviete Supremo o libertou antes do prazo, sem apagar a condenação. Korolev saiu com 37 anos, a ficha de ex-preso e a boca sem metade dos dentes.

Os foguetes de Hitler

Em setembro de 1945, o Exército Vermelho o mandou à Alemanha, com patente de coronel, para estudar os restos do V-2, o foguete que os nazistas tinham disparado contra Londres. Os soviéticos recolheram peças, desenhos e técnicos alemães.

Em agosto de 1946, Korolev virou projetista-chefe do OKB-1 (Escritório de Projetos Experimentais número 1), em Podlipki, perto de Moscou. O primeiro trabalho foi copiar o V-2: a cópia, chamada R-1, voou em 1948.

Em 1953, o governo pediu um foguete capaz de levar uma bomba de hidrogênio até a América. A resposta foi o R-7, apelidado de Semiorka (setezinha): um núcleo central com quatro blocos presos em volta e 20 câmaras de combustão acesas juntas.

Em 21 de agosto de 1957, a Semiorka voou cerca de 6 mil quilômetros, do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, até a península de Kamtchatka, no Pacífico.

Bip, bip

Korolev convenceu o governo a usar um desses foguetes para pôr um satélite em órbita. O satélite grande, cheio de instrumentos, atrasou, e ele propôs um modelo simples: uma esfera de alumínio de 58 centímetros, 83,6 quilos, quatro antenas e dois rádios.

Em 4 de outubro, às 22h28 de Moscou, o Sputnik (companheiro de viagem) subiu de Baikonur. Os bipes dele saíam em duas faixas de rádio que qualquer radioamador sintonizava, e a esfera dava uma volta na Terra a cada 96 minutos.

Vieram depois a cadela Laika, em novembro de 1957, e Yuri Gagarin, o primeiro homem no espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1. Korolev acompanhou a decolagem pelo rádio, do bunker de comando.

 

“Poiékhali!” (Vamos lá!) Yuri Gagarin, na decolagem da Vostok 1, gravação de bordo, 1961.

 
 

Treze anos depois de sair da sharashka, o ex-preso de Kolimá desenhava os foguetes que punham a União Soviética na frente da corrida espacial.

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

O rosto no obituário

 
 

Sergei Korolev viveu os anos de glória sem poder dizer quem era. O Kremlin tratava a identidade dele como segredo de Estado: nos jornais, ele aparecia só como o Projetista-Chefe, sem foto nem sobrenome.

O jornalista James Harford aponta dois motivos: o medo de que espiões ocidentais o tomassem como alvo e a regra soviética de creditar as vitórias ao coletivo, nunca a um homem só. Até os cosmonautas o chamavam apenas de S.P., as iniciais. Quando o comitê do Nobel quis saber quem projetara o Sputnik, conta Harford, Nikita Khrushchev respondeu que o autor era o povo soviético inteiro.

A condenação de 1938 só foi anulada em abril de 1957, quando a Suprema Corte reabilitou Korolev, seis meses antes do satélite.

Janeiro de 1966

Em 14 de janeiro de 1966, Korolev morreu num hospital de Moscou, aos 59 anos, durante uma cirurgia para retirar um tumor no intestino. Os médicos tiveram dificuldade para entubá-lo: o maxilar quebrado em 1938 nunca mais abriu por inteiro.

Dois dias depois, o Pravda, jornal oficial do Partido Comunista, publicou o obituário com foto e nome completo. O país conheceu o Projetista-Chefe pelo rosto na página de luto. As cinzas foram depositadas no muro do Kremlin, na Praça Vermelha.

Onde está Korolev hoje

O OKB-1 virou a empresa RKK Energia, que ainda fabrica as naves Soyuz, lançadas por foguetes descendentes da Semiorka. Em 1996, a cidade de Podlipki, então chamada Kaliningrado, foi rebatizada de Korolev.

A casa de Moscou onde ele morou de 1959 a 1966, perto do parque Ostankino, é museu aberto à visita. Uma cratera no lado oculto da Lua leva o sobrenome dele.

Os fatos centrais desta edição vêm de Korolev, de James Harford (John Wiley & Sons, 1997), de Challenge to Apollo, de Asif Siddiqi (NASA, 2000), e da biografia Otets (Pai), escrita pela filha, Natalia Koroleva, em três volumes.

Três lições do Projetista-Chefe

Três lições servem a quem recomeça do zero:

1. Guardar o ofício na pior fase. Korolev saiu do gulag sabendo desenhar foguete, e foi esse saber que o tirou da mina.

2. Aceitar a ponte disponível. A sharashka era prisão, mas o devolveu à prancheta quatro anos antes da soltura.

3. Encolher o projeto para chegar primeiro. A esfera de 83,6 quilos saiu na frente do satélite grande, que atrasou.

 

O homem que pôs o primeiro satélite em órbita só teve o rosto publicado no obituário.

 

Em Jitomir, a casa onde Sergei Pavlovich Korolev nasceu em 1907 é hoje um museu da cosmonáutica, e o sobrenome que o Kremlin escondia batiza o prédio.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, por que Korolev não conseguiu embarcar de volta a Moscou em dezembro de 1939, quando chegou a ordem de novo julgamento?

AEle preferiu terminar a pena na mina de Maldiak antes de viajar
BO navio Indigirka, último da temporada, já tinha partido de Magadan
CTupolev retirou o pedido de transferência dele para a sharashka
DO escorbuto o deixou incapaz de embarcar

Resultado da última edição: 75% acertaram.

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