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Miriam Makeba tinha 27 anos e um disco americano a caminho quando procurou o consulado sul-africano para voltar ao país, em 1960. A resposta veio seca: o passaporte tinha sido invalidado pelo governo de Pretória. Ela não pôde entrar na própria terra para enterrar a mãe.
O regime não precisou dar explicação formal. A cantora tinha aparecido num filme contra o apartheid e falava dos bairros negros às plateias de Nova York. Na autobiografia Makeba: My Story, de 1987, escrita com o jornalista James Hall, ela trata a recusa como o começo do exílio.
Os pedidos de reconsideração não deram em nada. O consulado repetia que a decisão vinha de Pretória, e o governo nunca publicou o motivo por escrito; o que se sabe vem do relato da cantora e da ordem dos fatos.
Sharpeville
Em 21 de março de 1960, a polícia abriu fogo contra uma multidão desarmada que protestava em Sharpeville contra a lei do passe (o documento que todo negro era obrigado a carregar para circular). Sessenta e nove pessoas morreram; dois tios de Makeba estavam entre as vítimas, segundo a autobiografia.
A sobrinha não podia ir ao velório de ninguém. Seguiu em turnê pelos Estados Unidos e passou a incluir nos shows canções em xhosa, a língua da família, com os estalos de língua que o público americano nunca tinha ouvido. A mais famosa ganhou o apelido de The Click Song (a canção dos estalos); o nome original, Qongqothwane, é um besouro que bate na madeira.
O depoimento na ONU
Em 16 de julho de 1963, Makeba depôs no Comitê Especial contra o Apartheid das Nações Unidas, em Nova York. Pediu boicote econômico ao governo sul-africano e a libertação dos presos políticos. Pretória respondeu proibindo os discos dela no país e cassando a cidadania.
A partir dali, a mulher nascida em Johannesburgo não tinha nacionalidade nenhuma. Para atravessar fronteira, dependia de documentos cedidos por governos amigos. Ao longo do exílio, juntou nove passaportes e o título de cidadã honorária de dez países.
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Miriam Makeba seguiu gravando nos Estados Unidos, e o mercado americano abriu espaço. Em 1966, o disco An Evening with Belafonte/Makeba, feito em dupla com Harry Belafonte, ganhou o Grammy de melhor gravação folk, o primeiro levado por uma cantora africana.
Em 1967, Pata Pata, canção que ela cantava desde os bailes de Johannesburgo nos anos 1950, entrou nas paradas americanas. A letra descreve uma dança dos bairros negros, e o título quer dizer toca, toca em xhosa. A gravação americana saiu pela Reprise Records, a gravadora fundada por Frank Sinatra.
O casamento de 1968
Em 1968, Makeba casou com Stokely Carmichael, dirigente dos Panteras Negras e voz do lema Black Power (poder negro). Gravadoras e casas de show reagiram em semanas: turnês canceladas, contratos desfeitos, shows riscados da agenda.
Não houve carta de demissão. Os telefonemas pararam de chegar. O casal se mudou para a Guiné, na África Ocidental, a convite do presidente Ahmed Sékou Touré, e montou casa em Conakry, a capital. O casamento acabou em 1978, e Makeba seguiu morando na cidade.
A delegada da Guiné
Na Guiné, a exilada ganhou passaporte diplomático e o posto de delegada do país nas Nações Unidas. Discursou na Assembleia Geral em 1975 contra o apartheid, com o mesmo argumento de 1963 e outra bandeira atrás da cadeira.
Cantou em festas de independência pela África, em Angola, em Moçambique, na Tanzânia, e ganhou o apelido de Mama Africa. Em 1985, perdeu a filha única, Bongi Makeba, também cantora, e a enterrou em Conakry.
1987: Paul Simon a chama para a turnê do disco Graceland, gravado com músicos sul-africanos. Makeba volta às grandes plateias da Europa e dos Estados Unidos ao lado de Hugh Masekela, trompetista, ex-marido e outro exilado de Johannesburgo.
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