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O Passaporte de Miriam Makeba

Barrada no enterro da mãe em 1960, Makeba cantou três décadas no exílio e voltou a Johannesburgo em junho de 1990.

Cantora sul-africana de turbante diante de um microfone num palco de Nova York, 1960.

Miriam Makeba em Nova York, 1960

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4 de março de 1932: nasce Zenzile Miriam Makeba em Johannesburgo, filha de Christina, empregada doméstica e curandeira, e de Caswell, professor. Aos 18 dias de vida, vai para a cadeia no colo da mãe, presa por fabricar e vender umqombothi (cerveja caseira de milho e sorgo) para sustentar a casa. As duas passam seis meses atrás das grades.

1948: o Partido Nacional vence a eleição e começa a montar o apartheid (o regime de segregação racial escrito em lei). A adolescente canta no coral da escola metodista de Kilnerton, em Pretória, e trabalha como babá e lavadeira em casas de famílias brancas.

1954: entra como única voz feminina nos Manhattan Brothers, grupo de jazz vocal de Johannesburgo, e grava os primeiros discos. Pouco depois, monta com outras cantoras as Skylarks e sai em turnê pelo sul da África. Nos shows, mistura canções zulus e xhosas com o swing das big bands americanas que chegavam pelo rádio.

1959: aparece no documentário Come Back, Africa (Volte, África), filmado às escondidas pelo americano Lionel Rogosin nos bairros negros de Johannesburgo. Rogosin a filma num shebeen (bar clandestino dos bairros negros), cantando duas músicas. O governo emite o passaporte para ela acompanhar a exibição do filme no Festival de Veneza, em agosto.

Novembro de 1959: canta no programa de televisão de Steve Allen, em Nova York, e estreia no clube Village Vanguard. Harry Belafonte, então um dos cantores mais vendidos dos Estados Unidos, vira padrinho de carreira e ajuda a acertar os primeiros contratos americanos.

Início de 1960: chega a notícia de Johannesburgo. Christina, a mãe que dividiu a cela com a filha recém-nascida, tinha partido. A cantora arrumou a mala para o enterro, e o documento carimbado meses antes para a viagem a Veneza ficou entre ela e o voo de volta.

O que aconteceu no balcão do consulado decidiu as três décadas seguintes da vida dela.

 

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I  A Queda

O carimbo do consulado

 
 

Miriam Makeba tinha 27 anos e um disco americano a caminho quando procurou o consulado sul-africano para voltar ao país, em 1960. A resposta veio seca: o passaporte tinha sido invalidado pelo governo de Pretória. Ela não pôde entrar na própria terra para enterrar a mãe.

O regime não precisou dar explicação formal. A cantora tinha aparecido num filme contra o apartheid e falava dos bairros negros às plateias de Nova York. Na autobiografia Makeba: My Story, de 1987, escrita com o jornalista James Hall, ela trata a recusa como o começo do exílio.

Os pedidos de reconsideração não deram em nada. O consulado repetia que a decisão vinha de Pretória, e o governo nunca publicou o motivo por escrito; o que se sabe vem do relato da cantora e da ordem dos fatos.

Sharpeville

Em 21 de março de 1960, a polícia abriu fogo contra uma multidão desarmada que protestava em Sharpeville contra a lei do passe (o documento que todo negro era obrigado a carregar para circular). Sessenta e nove pessoas morreram; dois tios de Makeba estavam entre as vítimas, segundo a autobiografia.

A sobrinha não podia ir ao velório de ninguém. Seguiu em turnê pelos Estados Unidos e passou a incluir nos shows canções em xhosa, a língua da família, com os estalos de língua que o público americano nunca tinha ouvido. A mais famosa ganhou o apelido de The Click Song (a canção dos estalos); o nome original, Qongqothwane, é um besouro que bate na madeira.

O depoimento na ONU

Em 16 de julho de 1963, Makeba depôs no Comitê Especial contra o Apartheid das Nações Unidas, em Nova York. Pediu boicote econômico ao governo sul-africano e a libertação dos presos políticos. Pretória respondeu proibindo os discos dela no país e cassando a cidadania.

A partir dali, a mulher nascida em Johannesburgo não tinha nacionalidade nenhuma. Para atravessar fronteira, dependia de documentos cedidos por governos amigos. Ao longo do exílio, juntou nove passaportes e o título de cidadã honorária de dez países.

 

“Pergunto a vocês e a todos os líderes do mundo: agiriam de outro modo, ficariam calados e sem fazer nada, se estivessem no nosso lugar?” Miriam Makeba, depoimento ao Comitê Especial contra o Apartheid da ONU, 1963 (tradução livre).

 
 

Uma recusa no balcão do consulado transformou a cantora de Johannesburgo numa mulher sem país.

 
 
 
 

II  O Triunfo

O Grammy e a rádio de Conakry

 
 

Miriam Makeba seguiu gravando nos Estados Unidos, e o mercado americano abriu espaço. Em 1966, o disco An Evening with Belafonte/Makeba, feito em dupla com Harry Belafonte, ganhou o Grammy de melhor gravação folk, o primeiro levado por uma cantora africana.

Em 1967, Pata Pata, canção que ela cantava desde os bailes de Johannesburgo nos anos 1950, entrou nas paradas americanas. A letra descreve uma dança dos bairros negros, e o título quer dizer toca, toca em xhosa. A gravação americana saiu pela Reprise Records, a gravadora fundada por Frank Sinatra.

O casamento de 1968

Em 1968, Makeba casou com Stokely Carmichael, dirigente dos Panteras Negras e voz do lema Black Power (poder negro). Gravadoras e casas de show reagiram em semanas: turnês canceladas, contratos desfeitos, shows riscados da agenda.

Não houve carta de demissão. Os telefonemas pararam de chegar. O casal se mudou para a Guiné, na África Ocidental, a convite do presidente Ahmed Sékou Touré, e montou casa em Conakry, a capital. O casamento acabou em 1978, e Makeba seguiu morando na cidade.

A delegada da Guiné

Na Guiné, a exilada ganhou passaporte diplomático e o posto de delegada do país nas Nações Unidas. Discursou na Assembleia Geral em 1975 contra o apartheid, com o mesmo argumento de 1963 e outra bandeira atrás da cadeira.

Cantou em festas de independência pela África, em Angola, em Moçambique, na Tanzânia, e ganhou o apelido de Mama Africa. Em 1985, perdeu a filha única, Bongi Makeba, também cantora, e a enterrou em Conakry.

1987: Paul Simon a chama para a turnê do disco Graceland, gravado com músicos sul-africanos. Makeba volta às grandes plateias da Europa e dos Estados Unidos ao lado de Hugh Masekela, trompetista, ex-marido e outro exilado de Johannesburgo.

 

“Olho para uma formiga e vejo a mim mesma: uma sul-africana nativa, dotada pela natureza de uma força muito maior do meu tamanho, para aguentar o peso de um racismo que esmaga meu espírito.” Miriam Makeba, Makeba: My Story, 1987 (tradução livre).

 
 

Os Estados Unidos cancelaram a cantora em 1968, e a Guiné deu a ela passaporte, cadeira na ONU e os palcos de um continente.

 
 
 
 
 

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III  A Lição

O desembarque de 1990

 
 

Miriam Makeba recebeu de Nelson Mandela o convite para voltar. O líder do Congresso Nacional Africano saiu da prisão em 11 de fevereiro de 1990, depois de 27 anos preso, e chamou os exilados de volta para casa.

Em 10 de junho de 1990, ela desembarcou em Johannesburgo com passaporte francês, 31 anos depois da partida para Veneza. Ainda não votava no país onde nasceu: a primeira eleição aberta a todos os sul-africanos aconteceu em abril de 1994.

Em 1991, gravou o disco Eyes on Tomorrow com Dizzy Gillespie, Nina Simone e Hugh Masekela, e voltou a cantar em xhosa para plateias sul-africanas, agora em teatros abertos a todos.

Voltou a gravar e a fazer turnês. Em 1999, a FAO, agência das Nações Unidas para a alimentação, a nomeou embaixadora da boa vontade. Em 9 de novembro de 2008, aos 76 anos, passou mal no fim de um show em Castel Volturno, na Itália, em apoio a um escritor ameaçado pela máfia local, e morreu horas depois.

Três gestos de Makeba

Do consulado de 1960 ao avião de 1990, Makeba repetiu três movimentos:

1. Levar a língua junto. Sem poder pisar em casa, cantou em xhosa nos palcos americanos, e os estalos viraram assinatura. O público que não entendia a letra entendia de onde ela vinha.

2. Mudar de passaporte e manter o assunto. Com papel da Guiné ou da França, falou do apartheid na ONU em 1963 e em 1975. O papel mudou de cor três vezes; o pedido de boicote ficou igual.

3. Aceitar o palco menor. Sem os contratos americanos, cantou nos festivais africanos por quase duas décadas até Graceland a devolver às grandes plateias. Esses anos pagaram a casa e mantiveram a voz em forma para 1987.

 

A mulher barrada no enterro da mãe em 1960 voltou a Johannesburgo trinta anos depois como Mama Africa.

 

Makeba foi cremada, e as cinzas foram lançadas ao mar, como ela pedia. Os discos seguem em catálogo nas plataformas de música, e o documentário Mama Africa, do finlandês Mika Kaurismäki, de 2011, conta a carreira com imagens de arquivo. Em 2020, a cantora beninense Angélique Kidjo regravou Pata Pata com letra nova para uma campanha da Unicef.

Os fatos centrais desta edição vêm da autobiografia Makeba: My Story, escrita com James Hall e publicada em 1987, e do livro Makeba: The Miriam Makeba Story, feito com Nomsa Mwamuka e publicado em 2004.

Christina Makeba levou a filha no colo para a cadeia em 1932 e foi enterrada sem ela em 1960. Trinta anos depois, a menina da cela desceu do avião em Johannesburgo, com outro passaporte na bolsa.

 
 
Quiz da edição

Depois de ter a cidadania sul-africana cassada em 1963, com quantos passaportes concedidos por governos amigos Miriam Makeba atravessou fronteiras ao longo dos trinta anos de exílio?

A5 passaportes
B3 passaportes
C9 passaportes
D14 passaportes

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Maratona dos 7 dias finais

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