|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
2 leitores escolheram Cem Anos de Solidão. Aqui está.
|
O Liquidificador que Pagou Macondo
Sem dinheiro para postar o original, García Márquez mandou meio livro a Buenos Aires e penhorou a casa para enviar o resto.
|
O original de Cem Anos de Solidão, 1966
|
| ▼ |
| |
| |
| |
|
6 de março de 1927: nasce Gabriel José García Márquez em Aracataca, povoado bananeiro do Caribe colombiano, e passa a infância na casa dos avós maternos, onde a avó contava histórias de mortos que andavam pelos quartos com a voz de quem lê o jornal.
1955: publica La hojarasca (A revoada), primeiro romance, que quase ninguém compra.
1961: desembarca na Cidade do México com a mulher, Mercedes Barcha, o filho Rodrigo, de dois anos, e pouco mais que as malas. Vive de escrever para revistas, anúncios e roteiros de cinema.
1965: na estrada para Acapulco, ao volante, a frase de abertura de um livro que ele perseguia havia quase vinte anos surge inteira. Dá meia-volta, e a viagem de férias termina ali.
Agosto de 1966: sai do escritório dos fundos da casa, no bairro de San Ángel, com um maço de cerca de 490 folhas datilografadas. É o original de Cem Anos de Solidão, destinado à Editorial Sudamericana, em Buenos Aires.
Mercedes e Gabriel levam o pacote à agência de correio. O funcionário põe o papel na balança e anuncia o preço da remessa aérea: 82 pesos mexicanos. Os dois esvaziam os bolsos e contam 53.
Não havia a quem pedir. Os amigos da cidade já tinham emprestado dinheiro, feito compras de mercado e aguentado o casal por meses. O açougueiro, o padeiro e o dono da casa esperavam pagamento.
O funcionário sugere a saída mais simples: mandar só a parte que o dinheiro cobre. Eles separam o maço ao meio, pagam a primeira remessa e voltam para casa com o restante do romance debaixo do braço.
Para entender como o autor de um livro prestes a mudar a literatura em espanhol chegou àquele balcão com 53 pesos, é preciso voltar dezoito meses, ao dia em que ele largou o emprego.
|
| |
|
Continue lendo ↓
|
| |
| |
| |
|
I A Queda
Dezoito meses sem salário
|
| |
| |
|
Gabriel García Márquez tinha 38 anos quando decidiu que o livro não cabia nas horas livres. Trabalhava numa agência de publicidade e escrevia roteiros por encomenda. Largou os dois e se trancou num cômodo pequeno da casa, que os amigos apelidaram de a Caverna da Máfia.
A família precisava de dinheiro para o tempo da escrita. Ele vendeu o carro, um Opel branco, e entregou o valor a Mercedes. A conta era que a quantia segurasse seis meses. O livro levou dezoito.
A rotina tinha hora marcada. Ele escrevia das nove da manhã às duas e meia da tarde, sete dias por semana, numa máquina de escrever, fumando um cigarro atrás do outro. De tarde relia o que tinha escrito e riscava a lápis.
Havia dias que rendiam uma página inteira e dias que rendiam uma linha, jogada fora na manhã seguinte. Quando terminou o capítulo em que o coronel Aureliano Buendía chega ao fim da vida, subiu ao quarto, deitou-se e chorou, como contou mais tarde a Mercedes e aos amigos.
O mundo que saía da máquina era Macondo, cidade inventada que ele modelou em Aracataca, e a família Buendía, sete gerações presas à mesma casa e aos mesmos nomes. A primeira frase era a que tinha surgido na estrada:
|
| |
“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, 1967 |
|
| |
|
Enquanto ele escrevia, Mercedes administrava a falência. Pedia fiado ao açougueiro e ao padeiro com a promessa de pagar quando o livro saísse. Convenceu o dono da casa a esperar o aluguel atrasado por meses, com a mesma promessa.
Os amigos entraram na conta. O poeta colombiano Álvaro Mutis, que também vivia na Cidade do México, aparecia com comida e com dinheiro emprestado. Outros casais convidavam a família para jantar sem dizer que era por caridade.
|
| |
Na metade do livro, a família García Barcha devia ao açougue, à padaria e ao senhorio, tinha vendido o carro e contava moedas para o leite dos dois filhos, Rodrigo e Gonzalo. |
|
| |
|
Nada no manuscrito garantia retorno. Os quatro livros anteriores de García Márquez tinham vendido pouco, e o romance anterior, La mala hora (O veneno da madrugada), saíra em 1962 numa edição espanhola que ele renegou por causa da censura do revisor.
A última página ficou pronta no meio de 1966. Esperanza Araiza, a datilógrafa que os amigos chamavam de Pera, passou o texto a limpo a partir das folhas riscadas. O original ficou pronto para viajar. Faltava o dinheiro do selo.
|
| |
| |
| |
|
II O Triunfo
O resto foi para o penhor
|
| |
| |
|
Gabriel García Márquez voltou do correio com meio romance e uma dívida nova para resolver. Mercedes resolveu em casa. Juntou os três objetos de valor que ainda restavam: o aquecedor elétrico, o secador de cabelo dela e o liquidificador.
Ela levou os três a uma casa de penhores da Cidade do México e voltou com o dinheiro que faltava. O casal fez a segunda viagem ao correio e despachou o resto do pacote para Buenos Aires.
Na saída da agência, segundo o relato que o próprio escritor repetiu em entrevistas, Mercedes disse a frase que a família guardou:
|
| |
“Agora só falta o romance ser ruim.” Mercedes Barcha, citada por Gerald Martin em Gabriel García Márquez: uma vida, 2008 |
|
| |
|
Havia mais um tropeço. Na pressa, o casal tinha mandado primeiro a segunda metade do livro. O editor Francisco Porrúa, da Sudamericana, recebeu o fim de Macondo antes do começo. Leu assim mesmo, fora de ordem, e percebeu o que tinha nas mãos: um romance que prendia o leitor até lido de trás para frente.
Porrúa escreveu de volta pedindo o resto com urgência e mandou um adiantamento de 500 dólares, que pagou parte das dívidas. A agente literária do escritor, a espanhola Carmen Balcells, tinha negociado o contrato meses antes.
|
| |
Cem Anos de Solidão chegou às livrarias de Buenos Aires em 30 de maio de 1967, com tiragem inicial de 8 mil exemplares, e a primeira edição se esgotou em poucas semanas. |
|
| |
|
A Sudamericana mandou rodar novas tiragens sem intervalo. A revista argentina Primera Plana pôs o autor na capa em junho de 1967, e ele viajou a Buenos Aires para ser jurado de um concurso literário.
Na capital argentina, conta o jornalista Tomás Eloy Martínez, que o recebeu, a plateia de um teatro aplaudiu quando o casal entrou na sala, de pé. Um ano antes, o mesmo casal contava moedas no balcão do correio.
As dívidas foram pagas. O açougueiro, o padeiro e o dono da casa receberam o que era deles, e os objetos voltaram do penhor. O livro seguiu em reedições e traduções pelo mundo, e em 1970 saiu em inglês, nos Estados Unidos, na tradução de Gregory Rabassa.
|
| |
| |
| |
|
| |