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O Leilão Que Desmontou a Casa de Rembrandt
Rembrandt entregou os bens à justiça de Amsterdã em 1656, e pintou seus quadros mais escuros nos treze anos que viveu depois da ruína.
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Amsterdã, 1656: o inventário dos bens
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Amsterdã, julho de 1656. Dois funcionários da Câmara de Insolvência subiram a escada de uma casa larga na Jodenbreestraat com papel, tinta e a ordem de anotar tudo o que houvesse lá dentro.
Eles levaram dois dias. O documento que saiu dali é uma das listas mais detalhadas que sobraram da vida doméstica holandesa do século XVII, e foi feito por um motivo bem menos nobre: o dono da casa tinha pedido à justiça para entregar os próprios bens aos credores.
O inventário desceu ao nível do ridículo. Havia quadros, claro, e gravuras, e desenhos. Havia também armaduras, instrumentos de sopro, chifres de animais, conchas exóticas, bustos de imperadores romanos, um leão empalhado e as camisas e lençóis que a casa usava para dormir.
Cada linha recebeu um número. Nenhuma recebeu um preço, porque preço quem daria era o martelo do leiloeiro, mais tarde, na sala de um albergue chamado Coroa do Imperador.
O homem que assinou o pedido tinha cinquenta anos e era, havia duas décadas, o pintor mais requisitado da cidade mais rica da Europa. Ele cobrava caro, gastava mais do que cobrava, comprava arte alheia em leilão para estudar e discutia preço com clientes que o consideravam impossível.
Não era falência declarada. Era um instituto do direito holandês chamado cessão de bens, uma rendição administrada: o devedor abre mão de tudo o que tem, em troca de não ir para a prisão por dívida e de não carregar a marca da bancarrota fraudulenta.
A diferença importava para a reputação e não mudava nada na prática. A casa iria embora, a coleção iria embora, e o que sobrasse do dinheiro seria dividido entre quem tinha papel assinado na mão.
O que quase ninguém previu foi o que ele fez depois. Nos treze anos seguintes, sem casa própria, sem coleção e sem o mercado que o tinha sustentado, pintou os quadros pelos quais o mundo hoje o conhece, e que naquela época pouca gente queria comprar.
Para entender o tamanho do tombo, é preciso voltar ao dia em que ele assinou o contrato daquela casa.
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I A Queda
O inventário de trezentos e sessenta e três itens
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Em janeiro de 1639, Rembrandt van Rijn comprou a casa da Jodenbreestraat por treze mil florins. Era um imóvel de esquina, de fachada larga, no bairro onde moravam mercadores prósperos e a comunidade judaica portuguesa da cidade.
O contrato previa pagamento parcelado ao longo de seis anos. Ele tinha vinte e dois mil florins de rendimento estimado por ano em encomendas e aulas, e nenhuma razão para achar que aquilo pararia.
A conta seguinte dá a escala. Um carpinteiro de Amsterdã ganhava por volta de trezentos florins por ano; um retrato de meio corpo assinado por ele custava algumas centenas.
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| • Preço da casa da Jodenbreestraat: 13.000 florins | | • Prazo combinado para quitar: 6 anos | | • Salário anual de um artesão da cidade: cerca de 300 florins | | • Itens listados pela Câmara de Insolvência: 363 | | • Valor apurado nos leilões de 1657 e 1658: menos de 5.000 florins |
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A casa não afundou o pintor sozinha. Foi a soma de uma dívida longa com um hábito caro: ele comprava, em leilão, a preço de disputa, a arte que queria estudar. |
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Rembrandt colecionava como quem monta um arquivo de trabalho. Gravuras de Mantegna e de Rafael, esculturas antigas, armas turcas, tecidos, animais empalhados, tudo o que pudesse virar textura, roupa ou luz dentro de um quadro.
Testemunhas contaram que ele dava lances agressivos para não deixar a peça escapar e para manter o preço da arte holandesa alto em praça pública. Era uma teoria de mercado defendida com o próprio dinheiro, e o dinheiro era o do parcelamento da casa.
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Meu senhor, pendure este quadro numa luz forte, de modo que se possa vê-lo de longe, e então ele brilhará como deve. ~ Rembrandt van Rijn, carta a Constantijn Huygens, 1639 |
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A instrução é do mesmo ano da compra da casa, escrita ao secretário do príncipe de Orange, e mostra um pintor que ainda mandava no próprio jogo: dizia onde pendurar, a que distância olhar, quanto cobrar.
O mundo em volta foi mudando mais rápido que a dívida. Saskia, a esposa, morreu em 1642 e deixou o dinheiro dela preso num testamento que amarrava a herança ao filho pequeno, Titus.
Em 1653, a guerra com a Inglaterra derrubou o comércio holandês e secou o mercado de arte. Os credores, que tinham deixado o assunto dormir por anos, começaram a cobrar juntos.
O gosto da cidade também virou. Amsterdã passou a querer superfície lisa, acabamento fino e o brilho italiano de pintores mais jovens, enquanto a tinta dele ficava cada vez mais grossa, mais rasgada, mais suja de pincelada visível.
Em julho de 1656 ele pediu a cessão de bens. Os leilões vieram em seguida, a coleção inteira saiu por uma fração do que custara, e a casa foi vendida em 1658 sem cobrir o buraco que existia desde 1639.
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II O Triunfo
A firma no nome do filho de dezenove anos
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A regra da corporação dos pintores de Amsterdã era clara: quem tinha passado por insolvência não podia mais negociar quadros na cidade. Vender a própria obra, para Rembrandt, tinha virado ato proibido.
A saída foi jurídica e veio da família. Em 1660, Titus, então com dezenove anos, e Hendrickje Stoffels, a companheira que antes fora empregada da casa, registraram uma sociedade de comércio de arte.
O pintor entrou no contrato como funcionário dos dois. Recebia casa, comida e material, e em troca entregava à firma tudo o que produzisse, o que colocava a obra fora do alcance dos credores antigos.
Ele tinha se mudado para a Rozengracht, um bairro modesto do lado oeste, numa casa alugada bem menor que a anterior. Foi ali, trabalhando por hospedagem, que a pintura dele endureceu e ficou grande.
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O período mais pobre da vida de Rembrandt é o período que hoje sustenta a fama dele. A tinta engrossou, o desenho ficou solto, e a luz parou de descrever objetos para começar a descrever pessoas. |
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Nem tudo que veio depois foi aceito. Em 1661 a nova prefeitura de Amsterdã encomendou uma tela enorme sobre a revolta dos batavos contra Roma, e ele entregou uma cena noturna, brutal, com um chefe caolho jurando conspiração à luz de tochas.
A obra ficou pouco tempo pendurada. Foi devolvida, e o pintor cortou a tela para vender o pedaço central, que é a única parte que sobreviveu, hoje em Estocolmo.
No mesmo período, a corporação dos negociantes de tecido encomendou o retrato coletivo dos síndicos, entregue em 1662, e a peça foi aceita sem atrito. Quem paga em grupo costuma pedir menos ousadia, e ele soube quando dar.
O que ele pintou sem encomenda é outra história. As telas tardias de casais e de figuras bíblicas, feitas com a espátula e o cabo do pincel, tratam mão, manga e rosto com a mesma matéria carregada.
Os autorretratos são o registro mais franco do processo. Ele se pintou dezenas de vezes ao longo da vida, e as versões finais mostram um rosto inchado, olhos cansados e nenhum esforço para embelezar o resultado.
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Ele não escolheu uma Vênus grega como modelo, mas antes uma lavadeira ou uma pisoadora de turfa de um celeiro. ~ Andries Pels, Gebruik én misbruik des tooneels, 1681 |
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A frase é de um poeta holandês que escreveu doze anos após o enterro e resume o veredito da época: pintor de gente feia, de mão pesada, fora do bom gosto.
O preço pessoal continuou subindo. Hendrickje morreu em 1663, Titus morreu em 1668, poucos meses depois de casar, e Rembrandt ficou com a nora e uma neta recém-nascida.
Ele morreu em outubro de 1669 e foi enterrado numa sepultura alugada na Westerkerk, do tipo que se reaproveita quando o aluguel vence. O inventário final da casa da Rozengracht listou pouca coisa além de roupas de trabalho e material de pintura.
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