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O Lavador de Carros Que Fundou a Mangueira
Cartola fundou a Mangueira em 1928, sumiu do samba e lavava carros em Ipanema até um jornalista reconhecê-lo, em 1956.
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Ipanema, 1956: o fundador reconhecido na rua
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Morro da Mangueira, 28 de abril de 1928. Um grupo de sambistas se reuniu numa casa de barro para dar nome a um bloco que já desfilava sem registro, e escolheu Estação Primeira porque o morro ficava perto da primeira parada de trem depois da Central do Brasil.
Entre eles havia um rapaz de vinte anos chamado Angenor de Oliveira. Trabalhava como ajudante de pedreiro e usava um chapéu-coco de aba dura para o cimento não cair no cabelo. Os vizinhos passaram a chamá-lo de Cartola, e o apelido enterrou o nome de batismo para sempre.
Ele não era apenas mais um dos fundadores. Foi quem propôs as cores verde e rosa, tiradas do rancho carnavalesco Arrepiados, e quem escreveu os primeiros sambas que a escola levou para a rua num tempo em que samba de morro ainda era caso de polícia.
Nos anos seguintes, o compositor virou nome grande na cidade lá embaixo. Sambas dele foram gravados por Francisco Alves, Carmen Miranda e Mário Reis, os artistas mais bem pagos do rádio brasileiro. As parcerias com Carlos Cachaça renderam algumas das letras mais elegantes já feitas num barracão de escola de samba.
Havia um detalhe cruel na economia do rádio daquela época. O compositor do morro vendia o samba por um valor fixo, muitas vezes uma quantia pequena e à vista, e o intérprete famoso assinava a gravação. Direito autoral existia no papel e quase nunca chegava a quem escrevia.
Cartola escreveu muito e assinou pouco. Sambas dele circularam pelo país inteiro na voz de outros, e o dinheiro que sobrava para o autor dava para pagar aluguel de cômodo, não para sair do morro.
Enquanto a saúde e a família se sustentavam, o arranjo se aguentava. Quando as duas ruíram no mesmo intervalo de tempo, o homem que tinha batizado uma das maiores escolas de samba do Brasil simplesmente saiu de cena, e ninguém no meio musical foi atrás dele.
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I A Queda
O homem que a cidade deu por perdido
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Rio de Janeiro, 1946. Deolinda, a companheira de mais de vinte anos, adoeceu e faleceu, e Cartola desabou junto. Pouco depois ele próprio foi internado com uma meningite que o deixou meses sem condições de trabalhar e sem qualquer renda para atravessar o período.
A doença veio acompanhada de uma briga interna na escola que ele havia fundado. Cartola se afastou da Mangueira, deixou o morro e foi morar longe, em Ramos e depois em outros endereços de subúrbio, sem avisar quem ficava para trás.
O sumiço foi tão completo que virou boato. Circulou pelo meio do samba a informação de que o compositor já não estava entre os vivos, e alguns jornais chegaram a tratar o nome dele como assunto encerrado. Ninguém procurou, porque não havia motivo aparente para procurar.
O que Cartola fazia nesses anos não cabia em nota de jornal. Trabalhou em obra, foi ajudante de pedreiro de novo, lavou carros na Praça General Osório e nas ruas de Ipanema, carregou peso em depósito e passou temporadas dormindo em quarto emprestado.
A conta dos anos de silêncio cabe em poucas linhas.
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| • Idade ao fundar a Estação Primeira de Mangueira: 20 | | • Ano em que se afastou da escola e do samba: 1946 | | • Anos vividos fora do circuito musical: cerca de 10 | | • Ocupação registrada por quem o reencontrou: lavador de carros | | • Discos solo gravados até os 60 anos: nenhum |
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Ele não sumiu porque parou de compor. Sumiu porque compor tinha deixado de pagar qualquer conta, e ninguém no rádio sentiu falta do autor. |
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O reencontro com a música não veio de um empresário nem de uma gravadora. Veio de um jornalista de crônica leve, Sérgio Porto, que assinava como Stanislaw Ponte Preta e conhecia o repertório do morro melhor que a maioria dos produtores.
Em 1956, num lava-rápido de Ipanema, Sérgio Porto reconheceu o rosto do homem que estava com o balde na mão. Levou o caso à imprensa, escreveu sobre ele e o apresentou à Rádio Mayrink Veiga, onde Cartola voltou a ser tratado como compositor.
Foi uma volta parcial. O reconhecimento devolveu o nome, não a renda. Ele continuou fazendo bico durante anos, e a estabilidade só apareceria muito depois, por um caminho que ninguém no rádio previa.
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Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida, já anuncias a hora de partida, sem saber mesmo o rumo que irás tomar. Cartola, O Mundo é um Moinho, álbum Cartola, 1976 |
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A letra é de trinta anos depois do sumiço, escrita por um homem que já sabia exatamente quanto tempo uma vida leva para virar. Em 1956 ele tinha o nome de volta na boca da cidade e continuava sem contrato, sem disco e sem salário fixo.
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II O Triunfo
O primeiro disco aos sessenta e cinco anos
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A reconstrução começou por um balcão, não por um estúdio. Em 1963, Cartola e Zica, a companheira que ele encontrou depois de tudo, abriram na Rua da Carioca um restaurante que ficou conhecido como Zicartola, com comida da casa durante o dia e roda de samba à noite.
O lugar durou pouco mais de dois anos e mudou a música brasileira. Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti passavam por ali, e a classe média universitária do centro do Rio descobriu na prática que o samba de morro tinha autor, nome e obra.
Zicartola quebrou por má administração e dívida, e o casal voltou à vida difícil. A diferença é que dessa vez Cartola já não era um desaparecido: era o compositor mais respeitado de uma geração inteira de músicos jovens que começava a gravar.
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O restaurante fracassou como negócio e funcionou como currículo. Quem passou por aquele salão virou, dez anos depois, quem defendia o nome dele nas gravadoras. |
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Entre a queda do restaurante e o estúdio houve quase uma década de trabalho miúdo. Cartola gravou participações em coletâneas, apareceu em programas de televisão como convidado de outros artistas e viu compositores mais jovens levarem sambas dele para o disco antes de ele mesmo ter um.
Em 1974, aos 65 anos, ele finalmente gravou o primeiro disco solo da vida, lançado pelo selo de Marcus Pereira e chamado apenas Cartola. Eram sambas guardados havia décadas, alguns compostos ainda nos anos trinta, gravados pela primeira vez na voz do próprio autor.
Dois anos depois veio o segundo álbum, com o mesmo nome do primeiro e um repertório que virou patrimônio do país: As Rosas Não Falam, O Mundo é um Moinho, Acontece. Era a obra completa de um homem que passara meia vida vendendo samba por valor fixo para cantor famoso.
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As rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti. Cartola, As Rosas Não Falam, álbum Cartola, 1976 |
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O reconhecimento chegou rápido depois disso. Nos últimos anos de vida ele gravou mais dois discos, viu suas canções regravadas por gente de todo o país e voltou a ser recebido na Mangueira como fundador, e não como um caso antigo do morro.
Ele deixou a vida em 1980, aos 72 anos, com quatro discos solo gravados em seis anos e uma obra que hoje é considerada base do samba brasileiro. A Mangueira que ele batizou em 1928 continua desfilando de verde e rosa.
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