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ED 118

O Inverno dos Bulbos de Tulipa

Entre novembro de 1944 e maio de 1945, uma menina de quinze anos em Velp moía bulbos de tulipa para comer, e saiu de lá com anemia crônica.

A Villa Beukenhof, na rua Rosendaalselaan, em Velp, onde Audrey Hepburn passou o inverno da fome de 1944 para 1945.

Velp: a casa onde ela passou o inverno

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4 de maio de 1929: Audrey Kathleen Ruston, a mulher que trinta e dois anos depois seria fotografada de vestido preto e colar de pérolas diante da vitrine da Tiffany, nasce em Ixelles, subúrbio de Bruxelas, filha da baronesa holandesa Ella van Heemstra.

1939: a mãe tira a filha do colégio na Inglaterra e a leva para Arnhem, no leste da Holanda, contando com a neutralidade que o país tinha mantido na guerra anterior.

10 de maio de 1940: a Wehrmacht (as forças armadas alemãs) atravessa a fronteira holandesa. Em cinco dias o país se rende e a ocupação começa.

1942: Otto van Limburg Stirum, tio da menina e magistrado, é fuzilado como refém em represália a uma ação da resistência. O irmão mais velho dela, Ian, é levado para trabalho forçado na Alemanha.

Setembro de 1944: a Operação Market Garden joga paraquedistas aliados sobre Arnhem e a batalha destrói a cidade. Os alemães ordenam a evacuação civil, e a família se muda para a casa do avô, em Velp, a poucos quilômetros dali.

Novembro de 1944 a maio de 1945: o oeste e o centro da Holanda ocupada entram na Hongerwinter (inverno da fome), com o transporte fluvial bloqueado e o combustível acabado.

7 de maio de 1945: tropas canadenses chegam a Velp. A adolescente que sai daquela casa pesa cerca de quarenta quilos, tem os tornozelos inchados, anemia e icterícia.

1953: com o nome artístico Audrey Hepburn, ela ganha o Oscar de melhor atriz pelo primeiro papel principal em Hollywood, em A Princesa e o Plebeu.

1988: aos cinquenta e nove anos, aceita o posto de embaixadora de boa vontade do UNICEF e desembarca na Etiópia, no meio de uma fome que já tinha matado centenas de milhares de pessoas.

Quem olha essa lista de trás para a frente vê glamour e depois caridade. Lida na ordem em que aconteceu, ela mostra outra engrenagem: a atriz mais fotografada do século chegou aos campos de fome da África com um histórico clínico que os médicos do UNICEF sabiam ler. O rosto que o mundo reconhecia foi construído em cima de uma menina que passou seis meses moendo bulbo de flor para fazer farinha.

 

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I  A Queda

Farinha de bulbo no porão de Velp

 
 

No inverno de 1944 para 1945, Audrey Kathleen Ruston tinha quinze anos e morava na Villa Beukenhof, a casa do avô materno, o barão Aarnoud van Heemstra, na rua Rosendaalselaan, em Velp. A cidade de Arnhem, onde ela tinha estudado balé nos três anos anteriores, estava esvaziada e saqueada a sete quilômetros de distância.

A batalha de setembro deixou a região dos rios cortada em duas. Os aliados pararam ao sul do Reno, os alemães mantiveram o norte, e a ferrovia holandesa entrou em greve para atrapalhar o movimento de tropas. A retaliação da administração de ocupação foi bloquear o transporte de alimentos por barcaça para o oeste do país. Quando o bloqueio afrouxou, em janeiro, os canais já tinham congelado.

As rações oficiais registradas pela administração de alimentos holandesa despencaram ao longo daquele inverno; nas cidades do oeste, a cota distribuída chegou a girar em torno de quatrocentas calorias por dia por adulto, menos de um quinto do que um corpo adolescente precisa. Fora da cota, restava o que desse para achar.

 

A família moía bulbos de tulipa no moedor de café e fazia com a farinha uma espécie de bolacha e uma sopa espessa. Bulbo de tulipa é amido comestível quando fervido, e os agricultores holandeses tinham estoque parado, porque o mercado de flores não existia mais.

 

O resto do cardápio era endívia crua, beterraba forrageira (a beterraba que se planta para alimentar gado) e água quente com uma colher de qualquer coisa. Os relatos do período descrevem gente derrubando árvore de rua para cozinhar e desmontando o assoalho de casas vazias.

O corpo dela respondeu ao cardápio. Ela desenvolveu edema, o inchaço de tornozelo e pé que aparece quando falta proteína no sangue e o líquido escapa para os tecidos. Veio junto anemia, icterícia e uma crise respiratória que ela descreveria mais tarde como asma. Em maio de 1945, com um metro e setenta, pesava por volta de quarenta quilos.

 

Eu estava entre as crianças que receberam alimento e socorro médico logo depois da Segunda Guerra, e por isso posso testemunhar o que o UNICEF significa.

Audrey Hepburn, declarações ao UNICEF a partir de 1988, reunidas na biografia Audrey Hepburn, de Barry Paris, 1996

 

Ela também carregou papel para a resistência holandesa dentro do sapato e dançou em apresentações fechadas, de cortinas cerradas e sem aplauso no fim, para arrecadar dinheiro para o movimento clandestino. A plateia batia palma sem barulho, com as mãos no ar.

A libertação chegou em maio de 1945 junto com os caminhões da UNRRA, a agência de socorro das Nações Unidas criada em 1943. Vieram leite condensado, chocolate, penicilina e farinha. A adolescente comeu açúcar demais de uma vez, passou mal, e essa foi a primeira lição prática dela sobre realimentação de desnutrido.

 
 
 

II  O Triunfo

O laudo médico que a tirou do balé

 
 

A guerra terminou e o plano continuava sendo o mesmo desde os onze anos: ser bailarina principal. Audrey Hepburn se mudou com a mãe para Amsterdã em 1945 e estudou com Sonia Gaskell, uma das professoras mais duras do país. Em 1948 conseguiu bolsa para a escola de Marie Rambert, em Londres.

Rambert avaliou a aluna e deu o diagnóstico de carreira: técnica boa, presença rara, altura excessiva para a maioria dos pares masculinos, e um corpo que não tinha massa muscular nem fôlego para aguentar a rotina de uma companhia. Os anos de subnutrição tinham cobrado o preço no momento exato em que uma bailarina se forma. Ela tinha dezenove anos e precisou escolher outro ofício.

Foi trabalhar como corista em revistas musicais no West End londrino e pegar figuração em cinema. Em 1951, filmando em Monte Carlo, foi vista no saguão do hotel pela escritora francesa Colette, que estava escalando a protagonista da adaptação teatral do próprio romance Gigi. Colette apontou para ela e disse que a Gigi dela estava ali. A peça estreou na Broadway em novembro daquele ano.

 

Dois anos depois, o primeiro papel principal em Hollywood, o de uma princesa que foge da agenda oficial para passear de Vespa por Roma, rendeu a ela o Oscar de melhor atriz de 1954, o Tony de teatro no mesmo ano e a capa da revista Time.

 

Vieram Sabrina, em 1954, Cinderela em Paris, em 1957, e Bonequinha de Luxo, em 1961, cuja primeira cena, com ela comendo um croissant na calçada da Quinta Avenida às sete da manhã, virou a imagem mais reproduzida da carreira dela. Hubert de Givenchy vestiu quase todos esses filmes.

A magreza que a indústria vendeu como elegância tinha origem clínica. Ela pesou pouco a vida inteira, nunca recuperou a musculatura perdida no inverno de 1944, e conviveu com anemia recorrente. Nas entrevistas dos anos 1950 e 1960, contava a história de Arnhem em duas frases e mudava de assunto, o que manteve o episódio fora do imaginário do público por décadas.

Em 1967 ela praticamente encerrou a carreira, mudou para uma fazenda em Tolochenaz, na Suíça, e passou vinte anos criando os dois filhos, Sean e Luca, com jardim, cachorro e pouquíssimos filmes. Quem ligava oferecendo papel ouvia não.

 
 
 
 

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III  A Lição

A credencial que ela levou para a Etiópia

 
 

Em 1988, o UNICEF procurou Audrey Hepburn para um posto honorário de embaixadora de boa vontade, dos que costumam render uma sessão de fotos por ano. Ela aceitou por um dólar simbólico de salário e tratou o cargo como emprego de período integral, com nove meses de viagem por ano.

A primeira missão foi em março de 1988, em Mek'ele e nos campos do norte da Etiópia, em plena fome do Tigré. Depois vieram Turquia, Venezuela e Equador ainda em 1988, Sudão e Guatemala em 1989, Vietnã em 1990, e a Somália em setembro de 1992, a viagem que ela chamou de pior de todas.

O que ela fazia em campo não era pose. Entrava em centro de realimentação, segurava criança com edema, pesava, perguntava rota de suprimento, anotava número, e voltava para dar depoimento no Congresso americano, em entrevista coletiva e em comitê da ONU com os dados na mão. A imprensa aparecia porque o rosto era conhecido; a pauta que saía impressa era a logística do socorro.

 
1A credencial dela era clínica, não sentimental. Ela reconhecia o inchaço de tornozelo porque teve o mesmo, e sabia por experiência própria que dar comida demais rápido demais a um desnutrido piora o quadro.
2O reconhecimento público virou infraestrutura de arrecadação. O nome que vendia vestido em 1961 abria porta de gabinete em 1989, e ela usou as duas coisas para o mesmo fim.
3Vinte anos de silêncio não apagaram a experiência. O episódio de Arnhem ficou guardado quase sem uso de 1945 a 1988, e serviu de qualificação profissional quando ela tinha cinquenta e nove anos.
 

Na Somália, em 1992, ela já estava com dores abdominais que atribuía a uma infecção de viagem. Em novembro daquele ano, em Los Angeles, o diagnóstico foi câncer no apêndice, com metástase abdominal. Ela voltou para a Suíça em avião cedido por Givenchy e faleceu em 20 de janeiro de 1993, aos sessenta e três anos, em Tolochenaz. O prêmio humanitário Jean Hersholt da Academia foi entregue ao filho dela naquele março.

Vale dizer o que continua em aberto. O número de vítimas do inverno da fome holandês não é fechado, e os levantamentos do pós-guerra trabalham com ordens de grandeza, não com contagem nominal. O peso exato dela em maio de 1945 aparece em versões diferentes conforme o biógrafo, e nenhum prontuário da época sobreviveu. Também não existe documento que confirme cada detalhe do trabalho dela para a resistência, contado pela própria e por vizinhos de Velp décadas depois.

Os fatos centrais desta edição vêm da biografia Audrey Hepburn, de Barry Paris, de 1996, do livro Audrey Hepburn, an Elegant Spirit, escrito pelo filho dela, Sean Hepburn Ferrer, em 2003, e do estudo de coorte da fome holandesa, tocado desde 1976 pelo centro médico acadêmico da Universidade de Amsterdã, que acompanha quem foi concebido ou nasceu naquele inverno.

Os bulbos de tulipa voltaram a virar flor no ano seguinte à libertação, e os campos de Arnhem são hoje rota de turismo de primavera. Em Velp, a Villa Beukenhof da rua Rosendaalselaan continua de pé com uma placa que lembra quem passou o inverno de 1944 ali dentro, e a sepultura dela, no pequeno cemitério de Tolochenaz, na Suíça, recebe visita aberta e costuma ter tulipa em cima.

 

Que experiência sua, guardada há décadas como vergonha, é na verdade a sua única credencial?

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, de que país eram as tropas que chegaram a Velp em 7 de maio de 1945 e encontraram Audrey Hepburn debilitada?

AEstados Unidos
BCanadá
CReino Unido
DPolônia

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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