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O Inspetor de Coelhos de Buenos Aires

Rebaixado pelo governo de Perón em 1946, Borges largou o cargo e voltou em 1955 para dirigir a Biblioteca Nacional, já quase cego.

Homem de terno e bengala diante das estantes da Biblioteca Nacional em Buenos Aires, 1955.

Buenos Aires, Biblioteca Nacional, 1955

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24 de agosto de 1899: nasce Jorge Luis Borges em Buenos Aires, filho de Jorge Guillermo Borges, advogado e professor de psicologia, e de Leonor Acevedo. A família carrega uma doença dos olhos que passa de geração em geração; o pai e a avó paterna, a inglesa Frances Haslam, perdem a vista aos poucos.

1914: os Borges viajam para a Europa e ficam presos na Suíça pela Primeira Guerra Mundial. Em Genebra, o rapaz estuda no Collège Calvin, aprende francês e latim e lê sozinho os alemães.

1921: volta a Buenos Aires depois de três anos na Espanha, onde andou com os poetas do ultraísmo (vanguarda que punha a metáfora acima de tudo). Em 1923, paga com dinheiro da família a edição de Fervor de Buenos Aires, o primeiro livro de poemas.

Fevereiro de 1938: o pai morre. Meses depois, aos 38 anos, Borges aceita o primeiro emprego fixo da vida, de auxiliar na Biblioteca Municipal Miguel Cané, uma sala de bairro com pouco leitor na zona sul da cidade.

1938 e 1939: os colegas passam o expediente falando de futebol e de corridas de cavalo. Borges cataloga tão depressa que pedem a ele para ir devagar e não deixar o resto da equipe mal. Ele obedece, termina a cota cedo e passa as tardes lendo e escrevendo no porão.

24 de dezembro de 1938: sobe uma escada às pressas, bate a cabeça na quina de uma janela recém-pintada e a ferida infecciona. Passa semanas com febre alta, com medo de ter perdido o juízo. Para testar a própria cabeça, escreve um conto novo, Pierre Menard, autor do Quixote.

1944: reúne os contos desse período em Ficções, livro que viria a ser traduzido no mundo inteiro. Na prefeitura, o autor continua no mesmo posto de auxiliar, com o mesmo salário curto e o mesmo bonde de todo dia até a biblioteca.

Dois anos depois, um despacho da prefeitura mexeu nesse posto, e o funcionário miúdo da Miguel Cané descobriu o preço de ter assinado manifestos contra os militares.

 

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I  A Queda

Aves, coelhos e um discurso

 
 

Jorge Luis Borges tinha 46 anos e quase nove de biblioteca quando o coronel Juan Domingo Perón assumiu a presidência da Argentina, em 4 de junho de 1946. O escritor tinha defendido os Aliados durante a Segunda Guerra e assinado manifestos contra o governo militar de onde Perón saiu.

Semanas depois da posse, chegou o aviso: Borges estava promovido a inspetor de aves e coelhos nos mercados municipais de Buenos Aires. A palavra promovido era a piada do despacho. O cargo tirava o escritor dos livros e o punha para conferir galinhas em feira.

Ele foi à prefeitura perguntar o motivo. No relato que publicou em 1970, ouviu de um funcionário uma resposta sem rodeio: ele tinha ficado a favor dos Aliados na guerra, e aquilo era a consequência. Borges pediu demissão no dia seguinte.

O biógrafo Edwin Williamson, no livro Borges: A Life, de 2004, trata a transferência como castigo político da nova administração e registra que o detalhe das aves e dos coelhos vem do relato do próprio Borges, que contava a cena com ironia pelo resto da vida.

O jantar de agosto

A Sociedade Argentina de Escritores ofereceu a ele um jantar de desagravo (homenagem de reparação a quem sofreu uma ofensa pública) em agosto de 1946. Borges era tímido a ponto de não conseguir falar diante de plateia e pediu a um amigo para ler o discurso que tinha escrito.

O texto não citava Perón pelo nome. Atacava as ditaduras em geral, e a sala inteira entendeu o endereço.

A casa sem salário

Sem o emprego, Borges precisava pagar as contas da casa onde morava com a mãe, Leonor, então viúva. Para ganhar a vida, aceitou dar conferências sobre literatura inglesa, budismo e escritores americanos, no Colegio Libre de Estudios Superiores e em cidades do interior.

O homem que mandava outro ler o próprio discurso aprendeu a falar em público aos 47 anos. Contou depois que, nas primeiras palestras, decorava o texto inteiro e mal levantava os olhos do papel.

Em 1948, o regime cobrou também a família. A mãe e a irmã, a pintora Norah Borges, foram presas depois de cantar o hino nacional num protesto na rua Florida. Norah passou um mês na prisão feminina do Buen Pastor; Leonor, com mais de 70 anos, cumpriu a pena em casa.

 

“As ditaduras fomentam a opressão, as ditaduras fomentam o servilismo, as ditaduras fomentam a crueldade; mais abominável é o fato de que fomentam a idiotice.” Jorge Luis Borges, discurso no jantar da Sociedade Argentina de Escritores, 1946.

 
 

O autor de Ficções perdeu o emprego de catalogador por ter defendido os Aliados e passou a viver de palestra.

 
 
 
 
 

II  O Triunfo

Os livros e a noite

 
 

Jorge Luis Borges seguiu escrevendo durante os anos de Perón. Em 1949 publicou O Aleph, outro livro de contos, e de 1950 a 1953 presidiu a Sociedade Argentina de Escritores, a mesma casa do jantar de 1946.

16 de setembro de 1955: um levante militar chamado Revolução Libertadora derruba Perón. Em outubro, o governo provisório nomeia Borges diretor da Biblioteca Nacional, instalada num casarão da rua México, no bairro de San Telmo.

O novo diretor já não lia. Aos 56 anos, enxergava vultos e manchas de cor; contou depois que o amarelo foi a última cor a ficar com ele. Ganhou centenas de milhares de livros no mesmo ano em que perdeu a capacidade de abrir um deles sozinho.

Dois diretores antes dele

Borges gostava de lembrar uma coincidência da casa. Dois diretores anteriores da Biblioteca Nacional, o escritor José Mármol e o crítico francês Paul Groussac, também tinham terminado cegos. Groussac comandou a biblioteca de 1885 a 1929, e Borges se via como o terceiro da linhagem.

Ele transformou a coincidência num poema. O Poema de los dones (Poema dos dons) saiu no livro El hacedor (O fazedor), de 1960, e abre com a cena do diretor diante das estantes que não consegue ler.

A mãe como leitora

Leonor Acevedo, perto dos 80 anos, passou a ler para o filho em voz alta e a anotar o que ele ditava. Funcionários e alunos ajudavam no resto do expediente.

Borges compunha de cabeça, andando pela rua ou pelo casarão, e foi o motivo de voltar ao verso metrificado e à rima, que se guardam na memória com facilidade, e preferiu textos curtos, que cabem inteiros na cabeça antes do ditado.

A cátedra e o Formentor

1956: recebe o Prêmio Nacional de Literatura e assume a cátedra de literatura inglesa e norte-americana na Universidade de Buenos Aires, onde dá aula por mais de uma década.

1961: divide com o irlandês Samuel Beckett o Prêmio Formentor, criado por editores europeus. O prêmio levou Ficções a editoras de vários países, e o ex-auxiliar da Miguel Cané passou a viajar para dar cursos nos Estados Unidos e na Europa.

 

“Ninguém rebaixe a lágrima ou censura esta declaração da maestria de Deus, que com magnífica ironia me deu a um só tempo os livros e a noite.” Jorge Luis Borges, Poema de los dones, El hacedor, 1960 (tradução livre).

 
 

Nove anos depois do castigo, Borges ganhou a chave da maior biblioteca do país e já não enxergava as letras.

 
 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

O casarão da rua México

 
 

Jorge Luis Borges ficou 18 anos na direção da Biblioteca Nacional. Saiu em 1973, quando Perón voltou ao poder pelo voto, e recusou continuar no cargo sob o governo que o tinha mandado para os mercados.

Os últimos anos foram de viagens e entrevistas. Em 1986, casou com María Kodama, antiga aluna e companheira de viagens. Em 14 de junho daquele ano, morreu em Genebra, a cidade da adolescência, aos 86 anos, e está enterrado no Cemitério dos Reis, no bairro de Plainpalais.

Três gestos da rua México

Entre o despacho de 1946 e a nomeação de 1955, Borges fez três movimentos úteis a quem perde o posto:

1. Contar o castigo com exatidão. Ele nomeou o cargo absurdo, as aves e os coelhos, e a precisão fez a piada pesar contra quem assinou o despacho.

2. Trocar a ferramenta perdida. Sem o salário, aprendeu a falar em público; sem a vista, passou a compor de memória, em verso rimado e texto curto.

3. Aceitar o trabalho miúdo enquanto o cargo não volta. As palestras do interior pagaram a casa durante nove anos e treinaram o professor que a universidade contratou em 1956.

 

O escritor mandado para os mercados em 1946 terminou a carreira como o diretor mais lembrado da Biblioteca Nacional.

 

A Biblioteca Nacional Mariano Moreno deixou o casarão de San Telmo em 1992 e funciona hoje num prédio na rua Agüero, no bairro da Recoleta. A obra de Borges segue em reedição: no Brasil, a Companhia das Letras publica os contos, os poemas e os ensaios.

Os fatos centrais desta edição vêm do Ensaio autobiográfico, que Borges escreveu em 1970 com o tradutor Norman Thomas di Giovanni, e da biografia Borges: A Life, de Edwin Williamson, publicada em 2004.

A Biblioteca Municipal Miguel Cané continua aberta na rua Carlos Calvo, em Buenos Aires, e guarda uma placa para o auxiliar que lia no porão em 1938, antes de a prefeitura mandá-lo contar coelhos.

 
 
Quiz da edição

Em 1946, o governo de Perón deu a Borges uma suposta promoção que era, na prática, um castigo. Qual foi o novo cargo dele?

AFiscal de pesos e medidas nas feiras de Buenos Aires
BZelador do arquivo da prefeitura
CInspetor de aves e coelhos nos mercados municipais
DInspetor de transporte público da capital

Resultado da última edição: 33% acertaram.

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