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1839: um incêndio atinge o bairro onde Hokusai mora em Edo e consome a casa e o ateliê. Os relatos da época contam que ele saiu com os pincéis na mão e pouco mais.
Ficaram para trás os desenhos acumulados em décadas de trabalho: esboços, estudos, rascunhos de livros, a reserva inteira de um homem que desenhava todo dia desde os 6 anos.
Edo pegava fogo com frequência. As casas eram de madeira e papel, coladas umas nas outras, e os grandes incêndios eram tão comuns que a cidade tinha apelido para eles: flores de Edo. Para a maioria, perder a casa era rotina dura. Para um desenhista, era perder o arquivo de uma vida.
Hokusai tinha 79 anos pela contagem japonesa daquele tempo, em que a criança nasce com 1 ano e ganha outro a cada Ano-Novo. Vivia com a filha Katsushika Ōi, também pintora, que tinha voltado para casa depois de um casamento desfeito.
A conta do neto
O fogo levou o papel e deixou a dívida. As contas do neto seguiam abertas, e cada encomenda pagava um pedaço delas.
Hokusai nunca soube guardar dinheiro. Os biógrafos contam que ele deixava os pagamentos embrulhados sobre a mesa, sem abrir, e entregava os pacotes aos credores do jeito que chegavam. Quando a sujeira da casa acumulava, ele se mudava em vez de limpar.
O mercado também apertou. As Reformas Tenpō, a partir de 1841, endureceram a censura sobre gravuras de luxo, de atores e de cortesãs, e o comércio de estampas em Edo encolheu. O velho que tinha vendido milhares de gravuras via a encomenda minguar justo quando mais precisava dela.
O cronograma de 1834
O pintor tinha uma resposta escrita para a hora da perda, e ela estava no posfácio do livro do Fuji, publicado cinco anos antes do incêndio.
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Sem ateliê, Hokusai voltou ao ponto de partida de todo aprendiz: a folha do dia. A partir de 1842, passou a desenhar toda manhã um shishi, o leão-guardião das tradições chinesa e japonesa, que espanta o azar.
Chamou a série de nisshin joma, exorcismos diários. Eram desenhos rápidos, a pincel e tinta, em papel simples, muitos com a data anotada no canto. Centenas sobreviveram, e mostram um traço que mudava de manhã para manhã, como quem afina um instrumento.
O ritual tinha duas funções. Protegia a casa, pela crença da época, e mantinha a mão em movimento numa fase em que a encomenda grande rareava.
A viagem a Obuse
1842: com 83 anos pela contagem da época, Hokusai faz a primeira viagem a Obuse, na província de Shinano, a cerca de 240 quilômetros de Edo, atravessando as montanhas. Quem chama é Takai Kōzan, comerciante rico da vila, que estudava pintura com ele.
Kōzan montou para o mestre um ateliê e pagou as despesas. Hokusai voltou a Obuse mais de uma vez nos anos seguintes, e ali encontrou o que Edo já não oferecia: espaço, sustento e encomendas grandes.
Entre 1844 e 1845, pintou os tetos de dois carros de festival da vila. Num deles, um dragão e uma fênix. No outro, duas ondas, uma macho e outra fêmea, que giram como redemoinhos e retomam, quase quinze anos depois, a onda de Kanagawa.
1848: aos 88 anos, entrega o maior trabalho da fase, uma fênix pintada no teto do salão do templo Ganshō-in, com as asas abertas em vermelho, verde e ouro. O teto ocupa o tamanho de 21 tatames, e o desenho foi feito com a ajuda de Kōzan e da filha Ōi.
O velho louco por pintura
Nessa época, Hokusai assinava Gakyō Rōjin Manji, que quer dizer o velho louco por pintura. O nome trazia a idade junto, e ele fazia questão de anotar quantos anos tinha em cada obra, como quem marca a altura de uma criança no batente da porta.
A filha Ōi trabalhava ao lado dele e assumia parte das encomendas. Ela pintava as mulheres melhor do que ele, admitia o pai, e manteve o ateliê de pé nos anos em que a mão do velho tremia.
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