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O Incêndio de Hokusai

Perdeu o ateliê no fogo aos 79 anos, ainda pagava as dívidas do neto e pintou mais dez anos, até o Dragão sobre o Monte Fuji.

Ancião japonês com pincel diante de um ateliê de madeira em cinzas, Edo, 1839.

Edo, o ateliê de Hokusai depois do fogo, 1839

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Outubro de 1760: nasce em Edo, a cidade que hoje se chama Tóquio, o menino que o mundo conheceria como Katsushika Hokusai. É criado na casa de um fabricante de espelhos que servia à corte do xogum, e aprende cedo a mexer com ferramenta fina.

1773: aos 12 anos, trabalha numa livraria de empréstimo, onde os livros ilustrados passam pelas mãos dele antes de chegar aos leitores. Aos 14, vira aprendiz de entalhador, o ofício de cavar na madeira de cerejeira o desenho que depois vai para o papel.

1778: entra no ateliê do mestre Katsukawa Shunshō, especialista em retratos de atores do teatro kabuki. Ganha o primeiro nome artístico, Shunrō, e começa uma mania que duraria a vida inteira: trocou de nome de artista mais de 30 vezes e de endereço, pelas contas dos biógrafos, perto de 90.

1814: lança o primeiro volume do Hokusai Manga, cadernos de esboços com gente, bichos, plantas e fantasmas. A série chega a 15 volumes e vira manual de desenho para gerações de artistas japoneses.

1828: perde a segunda esposa e sofre um derrame. Recupera a mão, segundo contou depois, com um remédio caseiro de limão cozido em saquê.

1831: sai a gravura A Grande Onda de Kanagawa, da série Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji. Três barcos estreitos, remadores encolhidos e uma onda em garras sobre eles, com a montanha minúscula ao fundo.

1834: um neto acumula dívidas de jogo, e o avô de 74 anos assume a conta. Para escapar dos cobradores, passa uma temporada escondido em Uraga, longe de Edo, com nome falso. No mesmo ano, publica Cem Vistas do Monte Fuji e escreve no posfácio um cronograma de quanto ainda pretendia aprender até os 110 anos.

O pintor mais famoso do Japão estava pobre, endividado por outro e convencido de que o melhor trabalho nem tinha começado. Cinco anos depois, o fogo pôs o cronograma à prova.

 

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I  A Queda

As cinzas do ateliê

 
 

1839: um incêndio atinge o bairro onde Hokusai mora em Edo e consome a casa e o ateliê. Os relatos da época contam que ele saiu com os pincéis na mão e pouco mais.

Ficaram para trás os desenhos acumulados em décadas de trabalho: esboços, estudos, rascunhos de livros, a reserva inteira de um homem que desenhava todo dia desde os 6 anos.

Edo pegava fogo com frequência. As casas eram de madeira e papel, coladas umas nas outras, e os grandes incêndios eram tão comuns que a cidade tinha apelido para eles: flores de Edo. Para a maioria, perder a casa era rotina dura. Para um desenhista, era perder o arquivo de uma vida.

Hokusai tinha 79 anos pela contagem japonesa daquele tempo, em que a criança nasce com 1 ano e ganha outro a cada Ano-Novo. Vivia com a filha Katsushika Ōi, também pintora, que tinha voltado para casa depois de um casamento desfeito.

A conta do neto

O fogo levou o papel e deixou a dívida. As contas do neto seguiam abertas, e cada encomenda pagava um pedaço delas.

Hokusai nunca soube guardar dinheiro. Os biógrafos contam que ele deixava os pagamentos embrulhados sobre a mesa, sem abrir, e entregava os pacotes aos credores do jeito que chegavam. Quando a sujeira da casa acumulava, ele se mudava em vez de limpar.

O mercado também apertou. As Reformas Tenpō, a partir de 1841, endureceram a censura sobre gravuras de luxo, de atores e de cortesãs, e o comércio de estampas em Edo encolheu. O velho que tinha vendido milhares de gravuras via a encomenda minguar justo quando mais precisava dela.

O cronograma de 1834

O pintor tinha uma resposta escrita para a hora da perda, e ela estava no posfácio do livro do Fuji, publicado cinco anos antes do incêndio.

 

“Desde os 6 anos tenho a mania de copiar a forma dos objetos. Aos 73, compreendi um pouco a estrutura dos animais e das plantas. Aos 80, terei progredido; aos 90, entrarei no segredo da arte; aos 100, serei divino; aos 110, cada ponto e cada traço terá vida.” Katsushika Hokusai, posfácio de Cem Vistas do Monte Fuji, 1834.

 

Pelo cronograma dele, o fogo chegou um ano antes dos 80, a idade em que prometia ter progredido. Faltava material e sobrava agenda.

 

Aos 79 anos, Hokusai perdeu o ateliê e os desenhos, e guardou o plano escrito de quanto ainda ia aprender.

 
 
 
 
 
 
 

II  O Triunfo

O leão de cada manhã

 
 

Sem ateliê, Hokusai voltou ao ponto de partida de todo aprendiz: a folha do dia. A partir de 1842, passou a desenhar toda manhã um shishi, o leão-guardião das tradições chinesa e japonesa, que espanta o azar.

Chamou a série de nisshin joma, exorcismos diários. Eram desenhos rápidos, a pincel e tinta, em papel simples, muitos com a data anotada no canto. Centenas sobreviveram, e mostram um traço que mudava de manhã para manhã, como quem afina um instrumento.

O ritual tinha duas funções. Protegia a casa, pela crença da época, e mantinha a mão em movimento numa fase em que a encomenda grande rareava.

A viagem a Obuse

1842: com 83 anos pela contagem da época, Hokusai faz a primeira viagem a Obuse, na província de Shinano, a cerca de 240 quilômetros de Edo, atravessando as montanhas. Quem chama é Takai Kōzan, comerciante rico da vila, que estudava pintura com ele.

Kōzan montou para o mestre um ateliê e pagou as despesas. Hokusai voltou a Obuse mais de uma vez nos anos seguintes, e ali encontrou o que Edo já não oferecia: espaço, sustento e encomendas grandes.

Entre 1844 e 1845, pintou os tetos de dois carros de festival da vila. Num deles, um dragão e uma fênix. No outro, duas ondas, uma macho e outra fêmea, que giram como redemoinhos e retomam, quase quinze anos depois, a onda de Kanagawa.

1848: aos 88 anos, entrega o maior trabalho da fase, uma fênix pintada no teto do salão do templo Ganshō-in, com as asas abertas em vermelho, verde e ouro. O teto ocupa o tamanho de 21 tatames, e o desenho foi feito com a ajuda de Kōzan e da filha Ōi.

O velho louco por pintura

Nessa época, Hokusai assinava Gakyō Rōjin Manji, que quer dizer o velho louco por pintura. O nome trazia a idade junto, e ele fazia questão de anotar quantos anos tinha em cada obra, como quem marca a altura de uma criança no batente da porta.

A filha Ōi trabalhava ao lado dele e assumia parte das encomendas. Ela pintava as mulheres melhor do que ele, admitia o pai, e manteve o ateliê de pé nos anos em que a mão do velho tremia.

 

Sem ateliê e sem os desenhos antigos, Hokusai fez na casa dos 80 anos algumas das maiores pinturas da carreira.

 
 
 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

O dragão dos 89 anos

 
 

1849: Hokusai pinta Dragão sobre o Monte Fuji, um rolo vertical de seda. A montanha aparece branca de neve, e um dragão negro sobe por trás dela, enrolado numa coluna de fumaça e nuvem, rumo ao alto da composição.

A obra saiu assinada aos 89 anos. Dez anos separavam a pintura do incêndio que tinha levado o ateliê, e o pintor seguia anotando a própria idade como quem conta degraus.

Na primavera daquele ano, adoeceu em Edo. O primeiro biógrafo dele registrou as últimas palavras:

 

“Se o céu me desse mais dez anos... Se o céu me desse mais cinco anos, eu poderia me tornar um pintor de fato.” Katsushika Hokusai, citado por Iijima Kyoshin em Katsushika Hokusai Den, 1893.

 

Hokusai partiu em maio de 1849, numa casa alugada em Asakusa. Deixou um poema de despedida: como alma, vai passear pelos campos de verão.

Três passos do ateliê queimado

A trajetória deixa três passos para quem perde o acervo de uma vida no meio do caminho:

1. Escrever o plano antes da perda. O posfácio de 1834 já dizia o que Hokusai pretendia aprender aos 80 e aos 90, e o incêndio de 1839 não apagou a página que importava.

2. Recomeçar pela menor unidade. O leão de cada manhã era uma folha só, feita antes de qualquer encomenda, e manteve a mão viva nos anos de mercado fechado.

3. Ir aonde o trabalho é pedido. Edo encolheu, e o velho de 83 anos atravessou as montanhas até Obuse, onde havia teto, mecenas e paredes para pintar.

 

Hokusai perdeu o ateliê aos 79 anos e assinou uma obra-prima dez anos depois.

 

O Dragão sobre o Monte Fuji está hoje no Museu Hokusai de Obuse, a poucas ruas dos carros de festival com as ondas e a fênix no teto. A fênix do Ganshō-in segue no mesmo salão onde foi pintada.

A Grande Onda de Kanagawa virou a imagem japonesa mais reproduzida do mundo, em museu, camiseta e emoji. Quase ninguém que a reconhece sabe dos dez anos de trabalho feitos depois do fogo.

No rolo de 1849, a fumaça do dragão sobe do mesmo Fuji que Hokusai desenhou a vida inteira, e a assinatura no canto marca 89 anos, a idade em que o velho louco por pintura ainda achava que estava aprendendo.

★ RARO

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