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O Gravador de 35 Quilos Que Só o Tribunal Quis
Ibuka montou a futura Sony em 1946 num prédio bombardeado, viu a panela de arroz falhar e só vendeu o gravador de 1950 a tribunais.
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Tóquio, 1950: o Type-G de 35 quilos
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Nihonbashi, Tóquio, outono de 1945. No terceiro andar de uma loja de departamentos queimada pelos bombardeios, com o teto ainda aberto em pontos e a chuva pingando nas bancadas, um engenheiro de trinta e sete anos chamado Masaru Ibuka instalou sete pessoas e uma mesa de trabalho improvisada.
O prédio era o que sobrara do Shirokiya. O bairro inteiro tinha virado escombro nos ataques daquele ano, e o que passava por escritório era um pedaço de piso alugado barato porque ninguém mais queria alugar. Quando chovia forte, os funcionários abriam guarda-chuva sobre os equipamentos.
O negócio inicial era humilde e imediato: converter rádios de ondas curtas. Durante a guerra o governo japonês proibira a recepção de emissoras estrangeiras e mandara mutilar os aparelhos domésticos. Com o fim do conflito, milhares de famílias queriam os rádios de volta ao normal, e a oficina de Ibuka fazia a conversão por poucos ienes.
Em 7 de maio de 1946, o grupo virou empresa de verdade, registrada como Tokyo Tsushin Kogyo, capital de cento e noventa mil ienes, cerca de vinte funcionários. O documento de fundação que Ibuka escreveu à mão não falava de lucro nem de participação de mercado. Falava em construir uma fábrica onde engenheiros pudessem trabalhar em liberdade.
O sócio mais jovem, Akio Morita, tinha vinte e cinco anos e vinha de uma família de produtores de saquê da província de Aichi que preferia vê-lo tocando o negócio da casa, catorze gerações de tradição contra uma oficina de engenheiro num prédio sem teto. A empresa dos dois não tinha produto próprio, não tinha marca conhecida e não tinha ideia clara do que fabricaria além de consertos.
Faltava também qualquer coisa parecida com mercado. O Japão de 1946 vivia de racionamento, a inflação corroía o preço de tudo em questão de semanas e o consumidor comum não tinha dinheiro para gastar em aparelho novo.
O nome Sony só apareceria doze anos depois. Antes dele veio uma sequência de tentativas que não deram em nada, e uma máquina pesada demais que quase ninguém quis comprar.
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I A Queda
A panela de arroz que nunca cozinhou
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O primeiro produto próprio da empresa foi uma panela de arroz elétrica. A ideia era simples e boa no papel: um balde de madeira com eletrodos de alumínio em espiral no fundo, ligados na tomada. A corrente passava pela água, aquecia e cozinhava o arroz sem fogão, num país onde combustível era escasso e caro.
Na bancada funcionou. Fora dela, não. O resultado dependia do tipo de arroz, da quantidade de água e da condutividade do que fosse posto ali dentro. Uma leva saía crua no centro, a seguinte saía queimada no fundo, e a terceira virava um mingau grudado nos eletrodos.
Ibuka mandou fazer cerca de cem unidades. Não conseguiu vender nem essas cem. O produto que deveria financiar a empresa nova ficou empilhado, e a panela de arroz elétrica confiável só chegaria ao mercado japonês anos depois, feita por outra companhia, com um mecanismo completamente diferente.
A tentativa seguinte foi uma almofada elétrica, essencialmente fios de aquecimento costurados dentro de tecido. Vendeu melhor, porque o inverno japonês do pós-guerra era brutal e casa aquecida era luxo. Também trouxe reclamação de queimadura e de superaquecimento, e a empresa recolheu o que pôde para não responder por acidente.
A conta dos primeiros anos cabe em poucas linhas.
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| • Ano de instalação da oficina em Nihonbashi: 1945 | | • Funcionários na fundação formal, em maio de 1946: cerca de 20 | | • Capital de registro da Tokyo Tsushin Kogyo: 190 mil ienes | | • Panelas de arroz elétricas fabricadas e não vendidas: cerca de 100 | | • Anos entre a fundação e o nome Sony: 12 |
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A empresa que viraria símbolo mundial de engenharia passou os primeiros anos fabricando coisas que não funcionavam direito e vivendo de conserto de rádio alheio. |
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O que salvou o caixa nesse período não foi invenção nenhuma. Foi trabalho por encomenda: reparo de equipamento de comunicação, contratos pequenos com emissoras e um voltímetro que a empresa fornecia à radiodifusão pública japonesa, produto sem glamour que pagava a folha no fim do mês.
Foi numa dessas visitas a uma emissora, em 1949, que Ibuka viu pela primeira vez um gravador de fita americano, trazido pelas forças de ocupação. Passou a tarde inteira com o aparelho e saiu convencido de que aquilo, e não panela de arroz, era o produto da empresa dele.
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Estabelecer um local de trabalho ideal, livre, dinâmico e agradável, onde engenheiros de espírito sincero possam exercer sua habilidade técnica ao mais alto nível. Masaru Ibuka, Propósito de Fundação da Tokyo Tsushin Kogyo, 1946 |
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O texto tinha três anos quando ele viu o gravador. Era a única coisa que a empresa possuía de valor real naquele momento: um propósito escrito, uma equipe pequena de engenheiros e nenhum produto de sucesso no currículo.
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II O Triunfo
Vinte gravadores para os tribunais
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O problema imediato não era a máquina. Era a fita. Ninguém no Japão fabricava fita magnética, e importar estava fora de alcance com o câmbio e as restrições da ocupação. A empresa teria que fazer a própria.
A equipe cortou papel resistente em tiras finas à mão, com lâmina e régua, e passou a testar revestimentos magnéticos caseiros. O material veio de oxalato ferroso queimado numa frigideira até virar pó de óxido, misturado com laca e aplicado tira por tira com pincéis de pelo de guaxinim, escolhidos por não soltarem cerda no revestimento.
Em 1950 a empresa lançou o Type-G, o primeiro gravador de fita fabricado no Japão. Pesava trinta e cinco quilos, ocupava o tamanho de um baú e custava cento e sessenta mil ienes, quantia que equivalia a vários anos de salário de um funcionário comum na época.
Ibuka e Morita saíram vendendo com a certeza de que o produto se explicava sozinho. Não se explicava. Quem via o aparelho achava graça, elogiava a engenhoca e ia embora sem comprar. O gravador virou brinquedo caro de demonstração, e as vendas do primeiro ano foram desastrosas.
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A empresa tinha fabricado uma máquina que ninguém sabia para que servia, e passou meses tratando aquilo como problema de preço quando era problema de uso. |
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A virada veio de uma observação prosaica. O sistema judicial japonês, reformado no pós-guerra, estava sufocado por falta de estenógrafos: audiências eram registradas à mão e havia atraso crônico de transcrição em tribunais de todo o país.
Morita levou o Type-G aos tribunais e vendeu, de uma vez, cerca de vinte aparelhos para registro de audiência. Não era o consumidor sonhado, era um comprador institucional com uma dor específica, e foi ele que provou que a máquina tinha função e não só curiosidade.
Em seguida vieram as escolas. A empresa montou uma operação de venda direta a instituições de ensino para uso em aulas de idioma e treinamento de professores, e o modelo mais leve, o H, começou a circular em salas de aula do país inteiro.
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Nosso plano é liderar o público com produtos novos, em vez de perguntar a ele que produtos quer. Akio Morita, Made in Japan, 1986 |
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A lição do tribunal ficou dentro da empresa por décadas. Em 1955 veio o TR-55, primeiro rádio transistorizado japonês, e em 1958 a companhia trocou o nome comprido de Tokyo Tsushin Kogyo por uma palavra curta que qualquer estrangeiro conseguisse pronunciar: Sony.
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