In partnership with

Queda e Triunfo   Queda e Triunfo
ED 115

O Fotógrafo Que Plantou Uma Floresta

Em 1994 ele voltou da África sem conseguir mais apontar a câmera para gente, e foi cuidar de uma terra seca em Aimorés, Minas Gerais.

Encosta da fazenda em Aimorés coberta de Mata Atlântica replantada pelo Instituto Terra desde 1999

Aimorés: a mata que voltou na fazenda do pai

▼
 
 

8 de fevereiro de 1944: Sebastião Salgado nasce em Aimorés, no vale do Rio Doce, em Minas Gerais, filho único homem entre sete irmãs, numa fazenda de gado que na infância dele ainda tinha Mata Atlântica de pé em boa parte do terreno.

1969: formado em economia, sai do Brasil com a mulher, Lélia Deluiz Wanick, por causa da perseguição política da ditadura militar, e vai morar em Paris.

1970: Lélia compra uma câmera Leica para os estudos de arquitetura. Ele pede emprestado, revela os primeiros filmes e não devolve mais o equipamento.

1973: pede demissão da Organização Internacional do Café, em Londres, onde trabalhava como economista viajando pela África, e passa a viver de fotografia.

1979: entra na Magnum Photos, a agência cooperativa fundada por Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, e fotografa a fome no Sahel, as minas de ouro de Serra Pelada e a greve do ABC paulista.

1994: deixa a Magnum, monta com Lélia a própria agência, a Amazonas Images, e parte para cobrir o genocídio de Ruanda e os campos de refugiados no então Zaire.

1998: assume com Lélia a fazenda da família em Aimorés e funda o Instituto Terra, organização dedicada a replantar mata nativa na bacia do Rio Doce.

2013: lança Genesis, resultado de oito anos fotografando regiões do planeta ainda intactas, e publica o livro de memórias Da Minha Terra à Terra, escrito com a jornalista Isabelle Francq.

2021: publica Amazônia, com sete anos de trabalho entre povos indígenas e floresta de pé no norte do Brasil.

A leitura fácil dessa vida diz que um grande fotógrafo teve uma fase ambiental no fim da carreira. A cronologia mostra outra sequência: quatro anos sem conseguir trabalhar com gente, uma terra erodida recebida por herança e um viveiro de mudas montado como condição para voltar a fotografar.

 

Continue lendo ↓

 
 
 
 

I  A Queda

O médico que não achou nada de errado

 
 

Em julho de 1994, Sebastião Salgado estava nos campos de refugiados ruandeses montados às pressas perto de Goma, na fronteira do então Zaire. Havia cerca de um milhão de pessoas num terreno de lava vulcânica, sem água potável, e uma epidemia de cólera instalada entre elas.

Ele fotografou durante semanas as valas abertas por tratores, as filas de socorro e as famílias que chegavam a pé de Ruanda. Calculou depois, no livro Da Minha Terra à Terra, que tinha visto dezenas de milhares de pessoas partirem num intervalo de poucos dias.

Voltou para a França com o corpo em frangalhos. Tinha dor sem causa aparente, sangramento, perda de peso e insônia. Procurou um médico em Paris, fez exames e ouviu que não havia nada clinicamente errado com ele: a próstata estava boa, o sangue estava bom, o intestino estava bom.

 

O diagnóstico que o médico deu foi de outra ordem. Disse que Salgado não estava doente do corpo, estava doente daquilo que tinha visto, e que nenhum remédio resolveria aquele quadro. A recomendação foi parar de fotografar.

 

O problema prático era mais duro que a recomendação. Ele perdeu a capacidade de apontar a câmera para uma pessoa. Estava no meio do projeto Êxodos, um levantamento sobre migração forçada em mais de trinta países, e passou a evitar o enquadramento de rostos.

Em 1998, o pai, já idoso, decidiu repartir a fazenda de Aimorés entre os filhos. Sebastião e Lélia ficaram com a parte principal, aquela onde ele tinha crescido entre mata, nascentes e gado. Foram até lá esperando encontrar o lugar da infância.

Encontraram morro pelado. Décadas de pasto, queimada anual e corte de lenha para as siderúrgicas do vale tinham levado quase toda a cobertura vegetal. Segundo o levantamento feito depois pelo Instituto Terra, restava vegetação nativa em uma fração mínima dos cerca de setecentos hectares da propriedade, concentrada em faixas estreitas de grota.

A água tinha ido junto com as árvores. As nascentes que abasteciam a casa e o gado secaram, a não ser um punhado que ainda pingava na estação de chuva. O solo exposto abriu voçorocas, aqueles rasgos fundos de erosão que a enxurrada cava no barro, e o que descia morro abaixo virava assoreamento no leito do Rio Doce.

Ele olhou para aquele terreno e reconheceu o próprio estado. A terra recebida de herança estava na mesma situação em que ele tinha voltado da África: exaurida, sem o que dar, improdutiva para qualquer finalidade.

 
 
 
 

II  O Triunfo

Dois milhões de mudas na terra do pai

 
 

A decisão não saiu dele. Saiu de Lélia Wanick Salgado, que era arquiteta e editava os livros e as exposições do marido desde os anos 1980. A proposta dela foi direta: replantar a Mata Atlântica que existia ali quando ele era menino.

 

Minha mulher teve uma ideia fabulosa: vamos replantar esta floresta.

Sebastião Salgado, palestra no TED "O drama silencioso da fotografia", 2013

 

Em abril de 1998 o casal criou o Instituto Terra, com sede na própria fazenda, e pediu o reconhecimento da área como Reserva Particular do Patrimônio Natural, o regime legal brasileiro que transforma terra privada em reserva protegida para sempre, sem permitir reversão pelos herdeiros.

O primeiro trabalho não foi plantar, foi aprender a produzir muda. A equipe montou um viveiro na fazenda, saiu a campo para coletar semente de mata remanescente da região e testou germinação espécie por espécie, porque quase nenhuma delas tinha protocolo de cultivo publicado.

O plantio começou em 1999, em curva de nível, com cova aberta à mão nas encostas mais íngremes. Nos primeiros anos a mortalidade foi alta: sol direto, solo compactado e formiga cortadeira. A equipe replantou as falhas a cada estação de chuva, por anos seguidos.

O Instituto Terra contabiliza hoje mais de dois milhões de mudas plantadas na propriedade e no entorno, de cerca de duzentas e noventa espécies nativas do bioma, e a recuperação de aproximadamente seiscentos hectares de floresta onde havia pasto degradado.

 

A água voltou antes dos animais. Pelo registro do próprio instituto, a fazenda passou de pouquíssimas nascentes ativas na virada do século para quase duas centenas de olhos d'água brotando ao longo do ano, inclusive na estação seca, porque a serrapilheira e a raiz voltaram a segurar a chuva no terreno.

 

Depois vieram os inventários de fauna. As contagens publicadas pelo Instituto Terra para a reserva registram mais de cento e setenta espécies de aves, algumas dezenas de mamíferos e uma lista de répteis e anfíbios, em área onde antes circulavam boi e capim.

Salgado voltou a fotografar em 2004, dez anos depois de Ruanda, e escolheu um assunto que cabia dentro do que ele estava fazendo em casa: paisagem, fauna e povos que vivem em regiões pouco alteradas. Rodou trinta e dois países até 2011 e chamou o conjunto de Genesis.

O projeto seguinte foi Amazônia, sete anos de viagem entre 2013 e 2019 com doze povos indígenas, publicado em livro em 2021. As pessoas voltaram para o enquadramento dele, e voltaram fotografadas em pé, em território próprio, nomeadas por povo e por aldeia.

O Instituto Terra também deixou de ser só o quintal da família. Virou centro de educação ambiental que forma agricultores, professores e técnicos do vale do Rio Doce em produção de muda e recuperação de nascente, e vira fornecedor de semente nativa para propriedades vizinhas.

 

Quem banca a edição de hoje

Free Workshop: Turn a Tiny Audience Into $10k/month

We’ve driven over $10M in revenue for our newsletter clients and are unpacking the plug-and-play system thousands of people are using to turn a small email list into $2k-$10k/month.

(…without needing to quit your job, without needing to get on camera, and without needing prior experience).

We’ll show you how to start a newsletter in <30 minutes, scale to 1,000 readers, and make your first $10,000 in revenue.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 
 
 

III  A Lição

A água que voltou nas grotas secas

 
 

A versão romântica dessa história diz que a natureza se cura sozinha quando a gente sai do caminho. O que aconteceu em Aimorés foi trabalho braçal de duas décadas: coleta de semente, viveiro, cova, replantio de falha e manutenção anual, feito por equipe contratada e paga.

Repare na ordem dos acontecimentos. Ele não se recuperou e depois plantou. Ele plantou durante o período em que não conseguia exercer o próprio ofício, e a volta ao trabalho aconteceu cinco anos depois do primeiro plantio, quando já havia árvore de três metros no morro da frente.

 

A floresta não era metáfora de recuperação pessoal. Era uma obra com prazo longo, resultado medível em nascente e em espécie de ave, que ocupou as mãos dele num período em que o ofício antigo estava inacessível.

 

Vale olhar os intervalos. Entre o diagnóstico em Paris e o primeiro plantio, cinco anos. Entre o primeiro plantio e a volta ao trabalho fotográfico, outros cinco. Entre a muda na cova e a árvore adulta que segura a nascente, quinze a vinte anos. Nenhum desses prazos caberia num ano de calendário.

 
1Aceite tarefa de prazo longo quando o prazo curto travou. A cova aberta em 1999 não deu resultado visível em 1999, e era justamente o tipo de trabalho que ele conseguia fazer naquele ano.
2Meça a recuperação em coisa contável. Nascente ativa, muda viva, espécie registrada: números que dizem se o trabalho está funcionando, sem depender do humor de quem trabalha.
3Trabalhe no terreno que você tem acesso. Ele não escolheu a melhor área de restauração do Brasil, pegou a fazenda que caiu no colo dele em 1998, com as voçorocas que ela já tinha.
 

Um detalhe muda o tamanho da conta. O pedido de Reserva Particular do Patrimônio Natural feito em 1998 tornou a proteção daquela mata permanente, independente de herança, venda ou mudança de interesse da família. A floresta plantada pelo casal não pode voltar a ser pasto.

Sebastião Salgado morreu em Paris em 23 de maio de 2025, aos oitenta e um anos, de complicações de leucemia que os médicos associaram a uma malária severa contraída em 1998, no mesmo ano em que o casal assumiu a fazenda. A obra fotográfica segue sob guarda da Amazonas Images, dirigida por Lélia, e os fatos centrais desta edição vêm do livro de memórias Da Minha Terra à Terra, de 2013, do documentário O Sal da Terra, de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, de 2014, e dos relatórios do Instituto Terra.

A fazenda de gado onde ele nasceu em 1944, no vale do Rio Doce, hoje se chama Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Bulcão, tem mata fechada nas encostas que estavam peladas em 1998 e recebe visita agendada pelo Instituto Terra, com o viveiro de mudas funcionando ao lado da casa da família.

 

Que terreno seco caiu no seu colo e ainda espera a primeira cova aberta por você?

 
 

Ebook + app · 8 dias

Capa do ebook
+
O app no celular
1
2
3
4
5
6
7
8

o plano de 8 dias, dentro do app

Em 8 dias, 1 passo por dia. O ebook ensina, o app cobra.

📖O ebook ensina: As 12 viradas mais improváveis da história e o passo inicial que todas têm em comum.
📱O app treina: 1 passo por dia no celular, marcado e anotado. Atrasou, o plano espera.
 
Quero o ebook + app →
 
Quiz da edição

Depois de Ruanda em 1994, quantos anos Salgado ficou sem conseguir fotografar pessoas antes de voltar em 2004?

AQuatro anos
BSete anos
CDez anos
DDezoito anos

Resultado da última edição: 50% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

⚔️⚔️⚔️⚔️⚔️  ótima ⚔️⚔️⚔️⚔️  boa ⚔️⚔️⚔️  ok ⚔️⚔️  ruim ⚔️  péssima
 
Recomendação de Newsletter
Biografia do Dia

Biografia do Dia

A vida de um nome que ficou na história, em três minutos por dia. No seu email todo dia às 06:06.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Chame mais um leitor pra crônica

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
EDIÇÃO
Colecionador
 
DO MÊS
🥇
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook O Primeiro Passo de Quem Perdeu Tudo
ebook O Primeiro Passo de Quem Perdeu Tudo

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
Amanhã nesta news

ED 117 · amanhã às 09:09

Sima Qian

Sima Qian, condenado em 99 a.C.

 

Levante-se. Per aspera ad astra.

QUEDA E TRIUNFO

Toda queda esconde um triunfo

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos