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O Exílio de Maria Montessori na Índia

Saiu da Itália com as escolas fechadas pelo fascismo, foi confinada em Madras como estrangeira inimiga e formou mais de mil professores.

Mulher idosa de vestido escuro entre crianças indianas sentadas no chão de um jardim em Madras, 1940.

Adyar, Madras, por volta de 1940

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31 de agosto de 1870: nasce Maria Montessori em Chiaravalle, cidade pequena da província de Ancona, na Itália. É filha única de Alessandro Montessori, funcionário do monopólio estatal do tabaco, e de Renilde Stoppani, leitora voraz que empurrava a menina para os estudos.

1896: forma-se em medicina pela Universidade de Roma, uma das primeiras mulheres do país com o diploma. Vai atender crianças internadas nos manicômios da cidade e passa noites lendo os médicos franceses Jean Itard e Édouard Séguin, que ensinavam crianças com deficiência por meio de objetos de tocar.

1898: nasce Mario, filho dela com o médico Giuseppe Montesano. Os dois não se casam, e o menino cresce com uma ama no interior, longe da mãe, que só o assume em público quando ele tem 15 anos.

6 de janeiro de 1907: abre a Casa dei Bambini (Casa das Crianças) num cortiço do bairro operário de San Lorenzo, em Roma. Cerca de cinquenta crianças de 3 a 6 anos, filhas de pais que saíam cedo para a fábrica, ganham cadeiras do tamanho delas, cubos de madeira, letras recortadas em lixa e uma professora que observa mais do que fala.

1909: publica o método num livro, traduzido logo para o inglês como The Montessori Method (O Método Montessori). Salas no mesmo molde abrem em Nova York, Amsterdã, Barcelona e Madras, e professoras de vários países viajam a Roma para aprender com ela.

1922: Benito Mussolini chega ao poder em Roma. 1924: recebe a médica, gosta do que vê e transforma o método em política de governo, com escolas públicas e um curso oficial de formação de professores na capital.

Aos 54 anos, Maria Montessori tinha o apoio do homem mais poderoso da Itália. Dez anos depois, aquele apoio viria com uma conta, e ela se recusaria a pagar.

 

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I  A Queda

As salas que não marchavam

 
 

A resposta de ontem

Quanto a General Electric pagou pelo semáforo de Garrett Morgan?

US$ 40 mil. Em 1923, logo depois de receber a patente americana número 1.475.024, Garrett Morgan vendeu os direitos do sinal de três posições à General Electric. O valor aparece na Encyclopedia of Cleveland History, da Case Western Reserve University, e pagou parte da fazenda que ele comprou em Wakeman, Ohio.

Maria Montessori percebeu devagar o que o regime queria das escolas dela. A partir de 1930, o governo fascista passou a cobrar que as crianças das Casas vestissem o uniforme dos Balilla, a organização juvenil do partido, e que os professores jurassem lealdade a Mussolini.

O método pedia o oposto. A criança escolhe a atividade, trabalha sozinha no próprio ritmo e corrige o erro pelo próprio material, porque o cilindro errado não entra no buraco. O adulto interfere pouco. Uma sala Montessori não fazia fila nem cantava hino.

Em 1932, em Genebra, ela falou sobre paz e educação no Bureau International d'Éducation (Escritório Internacional de Educação). A palestra correu entre diplomatas e chegou a Roma como recado: educar para a obediência produzia soldados, educar para a autonomia produzia gente difícil de mandar.

 

“Estabelecer uma paz duradoura é obra da educação; tudo o que a política pode fazer é nos manter fora da guerra.” Maria Montessori, Educação e Paz (Education and Peace), 1949.

 

A ruptura de 1934

O choque veio em 1934. Montessori recusou a exigência de transformar as Casas em braço da juventude fascista e deixou a Itália. Mudou-se para Barcelona, onde Mario já vivia com a mulher e os quatro filhos.

Em 1936, o governo italiano fechou todas as escolas Montessori do país. Na Alemanha, o regime nazista tinha feito o mesmo três anos antes, e livros dela queimaram junto com outros em Berlim.

Barcelona durou pouco. Com a guerra civil espanhola, em 1936, a família subiu num navio de guerra britânico com o que cabia nas malas. Os materiais de madeira, as anotações e a casa ficaram para trás.

O refúgio em Laren

O destino seguinte foi Laren, cidade pequena perto de Amsterdã, na Holanda. Lá ficava a base da Associação Montessori Internacional, a AMI, fundada por ela e por Mario em 1929 para guardar o método e certificar os professores.

Aos 66 anos, sem país e sem uma única escola pública dela aberta na Itália, Maria Montessori recomeçou pelos cursos. Treinava professores estrangeiros, um grupo de cada vez, em sala alugada.

Em 1939, chegou a carta de George Arundale, presidente da Sociedade Teosófica, uma organização espiritual com sede no sul da Índia. Ele a convidava para dar um curso de formação de três meses em Adyar, bairro de Madras. Ela tinha 69 anos e aceitou. Mario foi junto.

 

O regime fechou as escolas da Itália, e Maria Montessori carregou o curso inteiro numa mala para o outro lado do mundo.

 
 
 
 
 

II  O Triunfo

O cativeiro de Adyar

 
 

Maria Montessori desembarcou em Bombaim, hoje Mumbai, em 1939, semanas depois de a guerra começar na Europa. Seguiu de trem até Madras, hoje Chennai, e se instalou no terreno da Sociedade Teosófica, um parque de figueiras e coqueiros na foz do rio Adyar.

O primeiro curso reuniu professores indianos, missionários e alunos vindos do Ceilão, hoje Sri Lanka. As aulas eram em italiano, e Mario traduzia para o inglês frase a frase. Os alunos manuseavam os mesmos cubos, cilindros e letras de lixa de San Lorenzo, feitos por marceneiros de Madras com madeira local.

O curso de três meses previsto no convite virou permanência. Com a Europa em guerra, voltar à Holanda por mar ficou arriscado, e Arundale ofereceu casa e sala pelo tempo que fosse preciso.

Em 10 de junho de 1940, a Itália entrou na guerra ao lado da Alemanha. A Índia era colônia britânica, e todo italiano no território virou enemy alien (estrangeiro inimigo) da noite para o dia.

O presente do vice-rei

Mario foi levado para um campo de internamento em Ahmednagar, a mil quilômetros dali. Maria ficou confinada ao terreno de Adyar, proibida de sair sem autorização da polícia colonial.

Em 31 de agosto de 1940, ela fez 70 anos. Naquele dia, chegou um telegrama do vice-rei da Índia, Lord Linlithgow, com o recado de que Mario estava solto, como presente de aniversário. O filho voltou a Adyar, e o curso seguiu com os dois.

Os ingleses deixaram as aulas continuarem. Os alunos chegavam de outras províncias, e a estrangeira inimiga ensinava sob vigilância, com relatórios regulares à polícia. Nenhuma turma foi cancelada pelos ingleses durante a guerra.

As montanhas de Kodaikanal

Em 1942, mãe e filho foram transferidos para Kodaikanal, uma estação de montanha no sul da Índia, a 2 mil metros de altitude. Ficaram dois anos lá.

Montessori passou os dias com crianças ao ar livre, em lagos e trilhas. Dali saiu a Educação Cósmica, a parte do método para crianças de 6 a 12 anos: a história do universo, da Terra e da vida contada como uma narrativa só, da qual a criança faz parte.

Em 1944, os ingleses suspenderam as restrições. Ela voltou aos cursos em Madras e deu palestras em Ahmedabad e outras cidades.

A biógrafa americana Rita Kramer, no livro Maria Montessori: A Biography, de 1976, registra mais de mil professores formados por ela na Índia naqueles anos de guerra.

 

Confinada como estrangeira inimiga, Maria Montessori formou na Índia mais professores do que em qualquer outro país antes da guerra.

 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

A volta a Noordwijk

 
 

Maria Montessori deixou a Índia em 1946 e voltou à Holanda, onde a AMI tinha sobrevivido à ocupação alemã. Na bagagem trazia as palestras indianas, publicadas naquele ano como Education for a New World (Educação para um Mundo Novo).

Em 1947, a Itália do pós-guerra convidou a médica de volta e reabriu a Opera Montessori, a entidade oficial do método no país. As escolas fechadas em 1936 voltaram a funcionar uma a uma.

Ela visitou Roma, recebeu homenagens no parlamento italiano e não ficou. Ainda em 1947, embarcou de novo para a Índia, onde deu cursos até 1949. As aulas de Ahmedabad viraram o livro The Absorbent Mind (A Mente Absorvente), de 1949, sobre os primeiros seis anos de vida.

Entre 1949 e 1951, foi indicada três vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Não ganhou, e seguiu dando cursos em Londres, Paris e Roma até os 80 anos.

Mario continuou ao lado dela como diretor da AMI. A Índia, que a recebeu como convidada e a guardou como inimiga, manteve escolas e centros de formação abertos depois da independência, em 1947.

O que o exílio ensina

A trajetória deixa três passos para quem perde o lugar onde trabalhava:

1. Levar o ofício, não o prédio. Montessori perdeu as escolas, a casa e o país, e manteve o curso de formação, que cabia numa sala alugada.

2. Usar o confinamento como laboratório. Os dois anos presos em Kodaikanal produziram a Educação Cósmica.

3. Voltar sem pedir desculpa. Quando a Itália reabriu as portas em 1947, ela voltou com o mesmo método recusado em 1934.

 

Ninguém fechou o método de Maria Montessori: o regime fechou as salas, e ela abriu outras mais longe.

 

Maria Montessori faleceu em 6 de maio de 1952, aos 81 anos, em Noordwijk aan Zee, na costa holandesa. Está enterrada no cemitério católico da cidade. A AMI continua em Amsterdã, na casa onde ela viveu, e certifica professores em dezenas de países. A biografia de Rita Kramer reúne as datas e os episódios desta história.

Em Chiaravalle, a casa onde ela nasceu em 1870 é hoje um museu dedicado a ela, com cadeiras do tamanho de criança iguais às da sala de San Lorenzo.

 
 
Quiz da edição

No dia do aniversário de 70 anos de Maria Montessori, em 31 de agosto de 1940, o que chegou como presente?

AUma autorização para retomar os cursos em Madras
BUm passaporte diplomático emitido pelo governo britânico
CUm telegrama do vice-rei da Índia libertando o filho Mario do internamento
DUma carta do papa pedindo que ela voltasse para a Itália

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