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O Elevador de Serviço do Waldorf
Quatro ouros em Berlim, e Nova York manda o campeão subir pelo elevador de carga até o banquete em sua própria homenagem.
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A porta de serviço, a caminho da festa em sua homenagem
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Jesse Owens ganha quatro medalhas de ouro em Berlim, volta para Nova York e é levado pelo elevador de serviço do Waldorf-Astoria até a festa em sua própria homenagem, perde o registro de amador poucas semanas depois, passa anos correndo contra cavalos em praça de interior para pagar as contas, e só quatro décadas mais tarde entra na Casa Branca pela porta da frente.
Nova York, setembro de 1936. Um rapaz de vinte e dois anos desce da Broadway coberto de papel picado, atravessa o saguão do Waldorf-Astoria e é conduzido para os fundos do hotel, até a porta do elevador de carga. O banquete marcado para o salão lá em cima é em homenagem a ele.
Duas semanas antes, no Estádio Olímpico de Berlim, ele havia vencido os 100 metros, o salto em distância, os 200 metros e o revezamento 4x100, diante de mais de cem mil pessoas. Nenhum atleta do atletismo tinha ganhado quatro provas numa mesma edição dos Jogos desde 1900.
A cidade preparou a recepção com pompa. Carro aberto na Broadway, papel picado caindo das janelas dos escritórios, gente de terno e chapéu parada na calçada para ver de perto o homem que tinha vencido quatro vezes na frente da tribuna oficial alemã.
O elevador social do hotel, porém, não era para ele. Naquele endereço, naquele ano, homem negro subia pelos fundos, junto com a louça suja e os garçons. Entre a chuva de papel picado na avenida e a porta de serviço nos fundos havia menos de um quarteirão de distância.
Ele subiu pelo elevador de carga, entrou no salão e recebeu de pé os aplausos da mesma cidade que acabara de dizer por onde ele podia andar. A porta se fechou com ele dentro, entre carrinhos de serviço e bandejas empilhadas, e abriu de novo no andar do salão iluminado. Discursou, agradeceu, apertou as mãos que quiseram apertar a dele e foi embora pelo mesmo caminho.
A cena não virou manchete. Ficou como nota de rodapé, contada por ele mesmo, décadas depois, nas palestras com que passou a se sustentar. Nenhum jornal da cidade registrou por onde o homenageado da noite tinha chegado até o próprio banquete, e quem estava no salão aplaudiu de pé sem perguntar.
E o elevador foi a parte leve do que Berlim lhe custou. O homem mais rápido do planeta tinha vinte e dois anos, quatro medalhas de ouro numa mala e nenhum contrato assinado. As contas de verdade chegaram nas semanas seguintes, num telegrama que a Casa Branca nunca mandou e numa decisão de federação que fechou todas as pistas oficiais do mundo para ele. Antes do microfone que o sustentou por quatro décadas, veio a queda.
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I A Queda
O amador cassado aos vinte e dois anos
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James Cleveland Owens nasceu em 1913 em Oakville, Alabama, filho de meeiro e neto de escravizados, o caçula de dez irmãos.
Era criança doente e passou a primeira infância no algodão, ajudando o pai numa plantação que nunca foi da família.
Aos nove anos subiu com os pais para Cleveland, Ohio, na Grande Migração. Na matrícula da escola nova, a professora entendeu "Jesse" quando o menino disse "J.C.", e o nome pegou.
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Em maio de 1935, em Ann Arbor, ele igualou um recorde mundial e bateu outros três em quarenta e cinco minutos, com as costas machucadas de uma queda de escada. |
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Um daqueles recordes, o salto de 8,13 metros, ficaria de pé por vinte e cinco anos.
Na Universidade Estadual de Ohio, o melhor atleta do país não tinha bolsa. Ele operava elevador à noite, atendia em posto de gasolina e mandava dinheiro para a família.
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Ele operava elevador à noite para pagar a faculdade. Anos depois, outro elevador diria de novo qual era o lugar dele. ~ Columbus, Ohio, 1935 |
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Não podia morar no alojamento do campus, comia em restaurante separado e, em viagem de equipe, dormia longe dos companheiros de time.
Em agosto de 1936, o regime alemão montou os Jogos de Berlim como vitrine da superioridade de uma raça. Ele venceu quatro vezes, na frente da tribuna oficial.
No salto em distância, depois de duas tentativas nulas na eliminatória, foi um alemão, Luz Long, quem se aproximou e sugeriu que ele batesse bem antes da tábua. Owens se classificou, venceu, e Long o abraçou na pista à vista de todos.
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Voltou dos Jogos com quatro ouros, e da Casa Branca não veio convite, não veio aperto de mão, não veio nem telegrama. |
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Anos depois ele resumiria o episódio sem rodeio: quem o ignorou não foi Hitler, foi o presidente do próprio país dele.
Semanas depois de Berlim, a federação amadora americana exigiu que ele seguisse numa turnê de exibições pela Europa, sem receber nada por elas.
Ele estava exausto, tinha propostas comerciais esperando em casa e pegou o navio de volta. A resposta veio rápido: a AAU cassou o registro de amador dele.
Aos vinte e dois anos, o homem de quatro medalhas de ouro estava proibido de competir em qualquer pista oficial do mundo. As propostas comerciais evaporaram junto.
Sobrou o que pagava no mesmo dia: exibição em praça de interior, corrida contra cavalo, contra motocicleta, contra cachorro, com vantagem na largada para a plateia ter emoção.
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II O Triunfo
O microfone que pagou mais que a pista
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Ele nunca escondeu as corridas contra cavalo.
No fim de 1936, num hipódromo em Havana, venceu um cavalo de corrida nas cem jardas, com vantagem na saída, e levou por aquela tarde mais dinheiro do que a pista amadora lhe pagou em toda a carreira.
Perguntavam se não era humilhante para um campeão olímpico. A resposta dele virou frase repetida até hoje: quatro medalhas de ouro não se comem.
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Ele parou de esperar convite para pista oficial e passou a tratar qualquer praça com plateia como palco pago. |
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A lavanderia que abriu quebrou. A banda que levou em turnê não deu certo. O dinheiro entrava e saía, e em certo momento ele pediu concordata.
O que sobrou de tudo aquilo foi uma descoberta simples: em cada exibição, antes de correr, ele falava com a plateia. E a plateia ficava.
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Ele passou a cobrar pela fala. Escola, igreja, clube de bairro, jantar de empresa, convenção de vendas: onde houvesse microfone, havia contrato.
Na década de 1950 já era um dos oradores mais requisitados dos Estados Unidos, com agenda cheia e cachê que pista nenhuma jamais lhe pagou.
Em 1955 o governo americano o nomeou embaixador esportivo e o mandou representar o país na Índia, na Malásia e nas Filipinas.
Montou empresa de relações públicas em Chicago, tocou programas esportivos para meninos de periferia e virou presença fixa nos Jogos como convidado de honra.
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Em 1950, os jornalistas esportivos americanos votaram e o elegeram o maior atleta do atletismo da primeira metade do século. |
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Quatro medalhas de ouro não se comem. ~ Jesse Owens, sobre as corridas contra cavalos |
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Não foi linha reta nem história limpa. Em 1966 ele respondeu por sonegação de imposto, pagou multa e seguiu na estrada, falando.
Em Berlim, a avenida que leva ao Estádio Olímpico virou Jesse-Owens-Allee, e uma escola da cidade passou a levar o nome dele. O país onde ele nasceu demorou mais.
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Em agosto de 1976, aos sessenta e dois anos, ele entrou na Casa Branca pela porta da frente e recebeu do presidente Gerald Ford a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honraria civil dos Estados Unidos. |
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III A Lição
Parar de esperar a pista oficial
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Repare no que quatro medalhas de ouro resolveram e no que não resolveram.
Elas não compraram um andar de elevador em Nova York, não renderam telegrama e não pagaram aluguel. O maior reconhecimento do esporte mundial não mudou nada da vida prática dele.
Por quarenta anos, o homem mais rápido do planeta em 1936 continuou tendo que inventar o próprio sustento todo mês.
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Ninguém lhe devolveu o elevador social. Ele subiu pelo de serviço e continuou subindo por quarenta anos. ~ O elevador de serviço do Waldorf |
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Repare agora no que ele fez com a diferença. Não parou de correr, parou de esperar pista oficial.
Correr contra cavalo em praça de interior é ridículo visto de fora. Visto de dentro, era o único palco disponível, e ele subiu nele sem fingir que era outra coisa.
A frase sobre não dar para comer medalha não é amargura, é contabilidade. Ele olhou o que tinha na mão, viu que não pagava conta e foi procurar o que pagava.
E o que pagava estava justamente onde ele achava que havia só enfeite: não na velocidade, e sim na plateia que a velocidade juntava.
O microfone acabou rendendo mais que a pista. O produto nunca foi correr, era a história que a corrida deixou pronta para contar.
Repare, por fim, no elevador. Ele podia ter recusado a subida e virado as costas para a homenagem, e ninguém no mundo o culparia.
Ele subiu, entrou, discursou e continuou entrando em todo salão que o deixasse entrar, por quatro décadas, até a porta da frente abrir sozinha. Não foi paciência, foi teimosia com endereço certo.
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A pergunta que fica não é por qual porta mandaram você entrar. É se você chegou ao salão assim mesmo. |
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🧠 Quiz da edição
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Semanas depois de Berlim, Jesse Owens largou a turnê de exibições pela Europa e voltou para casa. O que a federação amadora americana fez com ele?
Resultado da última edição: 67% acertaram.
Defenda seu título de {{titulo_quiz | Gladiador (3 acertos seguidos garantem o primeiro)}}.
Veja o ranking de quem mais acerta →
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