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O Editorial que Debochou de Goddard por 49 Anos
Em 1920 o New York Times disse que faltava a Robert Hutchings Goddard a física do ginásio, e só corrigiu a frase em julho de 1969.
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Auburn: o campo do primeiro voo de combustível líquido
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5 de outubro de 1882: Robert Hutchings Goddard nasce em Worcester, Massachusetts, filho de um vendedor de facas e ferramentas.
1919: a Smithsonian Institution publica o relatório dele, A Method of Reaching Extreme Altitudes, com as contas de quanto empuxo levaria uma carga pequena até fora da atmosfera.
13 de janeiro de 1920: o New York Times dedica um editorial anônimo ao relatório e escreve que ao professor falta a instrução que se ensina no ginásio.
16 de março de 1926: no sítio da tia Effie Ward, em Auburn, Massachusetts, o primeiro foguete de combustível líquido da história sobe 12,5 metros em 2,5 segundos e cai num canteiro de repolho congelado.
1929: um lançamento maior em Auburn acorda a vizinhança, chama bombeiro e polícia, e o estado de Massachusetts proíbe novos testes em campo aberto.
1930: com verba da Fundação Guggenheim, intermediada por Charles Lindbergh, o laboratório muda para Roswell, no Novo México.
1935: um dos foguetes dele ultrapassa a velocidade do som e volta guiado por giroscópio, duas marcas inéditas para a engenharia da época.
10 de agosto de 1945: Goddard morre em Baltimore, aos 62 anos, com 214 patentes registradas em vida ou logo depois, e sem ver um foguete seu usado por ninguém.
17 de julho de 1969: com a Apollo 11 a caminho da Lua, o New York Times publica uma nota corrigindo o editorial de 1920.
Editorial sem assinatura tem uma vantagem cruel sobre a pessoa atacada: ninguém precisa responder pelo erro depois. A nota curta de 1920 saiu na página em que o jornal falava por si mesmo, virou piada de redação e ficou pendurada no nome de Robert Hutchings Goddard por quase meio século, enquanto ele soldava câmara de combustão com as próprias mãos no porão de um laboratório universitário.
O ponto atacado era técnico e tinha resposta desde o século XVII. Goddard sustentava que um foguete empurra a si mesmo contra a própria massa expelida, e funciona melhor no vácuo, onde não existe ar para frear a carcaça. O jornal sustentava que sem ar não existe apoio, logo não existe empurrão. A seção a seguir começa pelo relatório de 1919 e pelo parágrafo escondido no fim dele que a imprensa transformou em manchete de viagem à Lua.
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I A Queda
A coluna sem assinatura de 1920
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Robert Hutchings Goddard tinha 37 anos e uma cátedra de física na Clark University, em Worcester, quando a Smithsonian Institution aceitou publicar A Method of Reaching Extreme Altitudes, em 1919. O texto era sóbrio, cheio de tabelas, e tratava de um problema prático: medir a alta atmosfera com instrumento levado por foguete, mais alto do que qualquer balão alcançava.
No fim das 69 páginas ele acrescentou um exercício de cálculo. Se alguém quisesse provar que a carga chegou ao destino, bastaria mandar junto pó de magnésio, que ao queimar na superfície lunar daria um clarão visível de um telescópio na Terra. Foi um parágrafo entre dezenas, escrito como demonstração de ordem de grandeza.
A imprensa leu o parágrafo e ignorou o resto. As manchetes falaram em foguete lunar, em viagem tripulada, em um professor de Worcester prometendo a Lua. Goddard passou semanas recebendo repórter e carta de voluntário disposto a embarcar, e gastou a paciência explicando que tinha calculado combustível, não passagem.
Em 13 de janeiro de 1920 o New York Times fechou a conta com um editorial anônimo. O texto dizia que o professor, ocupando cadeira na Clark e com o aval do Smithsonian, parecia não dispor do conhecimento distribuído diariamente nas escolas secundárias, porque insistia que um foguete se moveria onde não há ar contra o qual empurrar.
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A frase circulou como sentença. Colega de departamento repetia em corredor, aluno repetia em sala, e por décadas bastou citar o editorial para desqualificar qualquer pedido de verba com a palavra foguete escrita dentro. |
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O efeito sobre ele foi de porta fechada. Goddard parou de dar entrevista, passou a registrar patente antes de publicar qualquer resultado, numerou cadernos de laboratório em código e recusou sócio. Trabalhava com um punhado de assistentes fiéis, testava peça de madrugada e guardava o dado em cofre.
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É difícil dizer o que não se pode fazer, porque o sonho de ontem é a esperança de hoje e a realidade de amanhã. Robert H. Goddard, On Taking Things for Granted (discurso de formatura), 1904 |
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O isolamento custou caro à obra dele. Sem publicação corrente, engenheiro nenhum pôde construir em cima do que ele já tinha resolvido, e o campo perdeu anos repetindo do zero problema de bomba, de bico e de válvula que já estava resolvido numa oficina de Massachusetts.
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II O Triunfo
Doze metros e meio no sítio da tia Effie
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O primeiro voo aconteceu em 16 de março de 1926, numa tarde de neve suja, no sítio da tia Effie Ward, em Auburn. O aparelho tinha estrutura de tubo fino, gasolina de um lado, oxigênio líquido do outro, e a câmara de combustão montada em cima, arranjo esquisito que parecia uma lâmpada de rua de cabeça para baixo.
Goddard acendeu a mistura com um maçarico amarrado a uma vara. O foguete queimou por vinte segundos parado, levantou, subiu 12,5 metros, percorreu 56 metros em linha inclinada e caiu em 2,5 segundos. Esther Goddard, a mulher dele, estava com a câmera de cinema e filmou até a película acabar, poucos segundos antes da decolagem. Sobrou uma fotografia, tirada logo antes, e uma anotação de caderno com os números.
Nenhum jornal cobriu o voo. Ele não avisou ninguém, e o relatório foi para o Smithsonian em envelope lacrado, onde ficou anos sem leitor. A nota do editorial já tinha ensinado a ele quanto custava aparecer.
Em julho de 1929 um foguete maior subiu de Auburn com barômetro, termômetro e uma câmera pequena a bordo. O estrondo trouxe ambulância, bombeiro e polícia, os jornais locais escreveram sobre um míssil lunar caído em Worcester, e o corpo de bombeiros do estado proibiu qualquer novo lançamento em Massachusetts.
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Charles Lindbergh leu a notícia da proibição, procurou Goddard em casa e convenceu a família Guggenheim a bancar o laboratório. Em 1930 a oficina inteira mudou para um descampado perto de Roswell, no Novo México, onde não havia vizinho para acordar. |
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Os quinze anos de Roswell renderam a engenharia moderna de foguete em peça separada: bomba para alimentar combustível sob pressão, bico de exaustão refrigerado pela própria mistura, leme de gás para corrigir rumo, estabilização por giroscópio e paraquedas de recuperação. Em 1935 um dos aparelhos passou da velocidade do som e voltou controlado.
Ele ofereceu a tecnologia ao Exército e à Marinha dos Estados Unidos, e recebeu polidez sem contrato. Durante a guerra acabou empregado em foguete auxiliar de decolagem de hidroavião, trabalho menor perto do que tinha no caderno. Goddard morreu em Baltimore em 10 de agosto de 1945, poucos meses depois de examinar um V-2 alemão capturado e reconhecer ali, peça por peça, patentes com o nome dele.
Em 1960 o governo americano fechou acordo de um milhão de dólares com a viúva e com a Fundação Guggenheim pelo uso das patentes em programas militares, o maior pagamento do gênero feito até então por invenção de um pesquisador solitário.
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