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Queda e Triunfo

A Queda do Dia

O Cornetim do Reformatório

Um menino de onze anos aponta para o céu da Rampart Street o revólver que tirou da gaveta do padrasto, aperta o gatilho na virada do ano e termina a noite numa cela de Nova Orleans.

 

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Cornetim amassado sobre um banco de madeira no pátio de um reformatório, com uniformes de brim pendurados ao fundo
I

O Cornetim do Reformatório

 

Um menino de onze anos aponta para o céu da Rampart Street o revólver que tirou da gaveta do padrasto, aperta o gatilho na virada do ano e termina a noite numa cela de Nova Orleans.

Nova Orleans, 31 de dezembro de 1912. A cidade inteira comemora a virada estourando pólvora na rua, e Louis Armstrong entra na festa com a arma que ninguém sabia que ele tinha.

O disparo foi para o alto, sem alvo e sem estrago. O problema estava a poucos metros: um policial à paisana, que agarrou o menino por trás antes de ele conseguir baixar o braço.

Ele passou o resto da noite detido no distrito. Na manhã seguinte, um juiz de menores despachou o caso em poucos minutos e mandou o garoto para o Lar para Meninos de Cor, por tempo indeterminado.

Nada na ficha daquele menino sugeria futuro. Pai desaparecido meses depois do parto, mãe de quinze anos quando ele nasceu, escola abandonada no quinto ano.

Ele acordava antes do sol para entregar carvão de carroça, catava comida no fundo dos restaurantes e cantava em quarteto de esquina por moeda de chapéu.

Dentro do reformatório, o instrutor de música Peter Davis olhou para o recém-chegado como mais um encrenqueiro de back o' town e passou meses sem deixá-lo encostar num instrumento.

 

Quando enfim cedeu, entregou primeiro um pandeiro. Depois a caixa, depois uma trompa alto, e só então um cornetim amassado que dormia no depósito da casa.

Em menos de dois anos o mesmo menino saiu dali como líder da banda do reformatório, o instrumento debaixo do braço e nenhum endereço fixo para onde voltar.

Cinquenta e dois anos depois, aquele garoto tiraria os Beatles do primeiro lugar da parada americana.

 
 
⚔⚔⚔
 
 
II

A Queda

 

O endereço de nascimento já dizia quase tudo. Louis nasceu em 4 de agosto de 1901 num beco chamado Jane Alley, num pedaço de Nova Orleans que a própria cidade apelidava de Campo de Batalha.

William Armstrong foi embora poucos meses depois do parto para viver com outra mulher e nunca mais voltou de forma constante. Mary Ann, a mãe, tinha quinze anos e sustentava dois filhos como dava.

O menino cresceu entre a casa da avó e quartos de aluguel na beira de Storyville, o distrito onde a prostituição funcionava com aval da prefeitura e onde a música tocava a noite inteira.

Aos sete anos ele já trabalhava de segunda a segunda na carroça de carvão dos Karnofsky, imigrantes lituanos que o alimentavam na cozinha e o tratavam como se fosse da casa.

 

A rota da carroça entrava em Storyville ao anoitecer. Ele entregava o balde de carvão pela janela dos quartos e ouvia de graça, da calçada, as bandas que tocavam nos salões da esquina.

Foi essa família que o levou a uma loja de penhores e completou o dinheiro do primeiro cornetim, comprado por cinco dólares. Ele usou uma estrela de Davi no pescoço pelo resto da vida por causa daquela conta.

 

Botaram um menino de onze anos atrás do muro para consertar o comportamento dele. Consertaram outra coisa.

~ Nova Orleans, 1913

 

A pena por um disparo para o alto foi um ano e meio de internação, com uniforme de brim, cabelo raspado a máquina e feijão com melaço três vezes ao dia.

O regime era militar. Levantar às cinco, trabalho na horta, castigo físico para quem quebrasse regra e uma banda que desfilava pela cidade quando a diretoria precisava mostrar serviço a quem doava dinheiro.

Peter Davis batia primeiro e perguntava depois. Ele tinha certeza de que o garoto vindo de back o' town era caso perdido, e levou meses para reparar num detalhe.

O tal caso perdido ficava parado no canto do galpão, sem piscar, todas as vezes que a banda ensaiava.

 

A entrada foi por baixo: pandeiro, caixa, trompa alto. O cornetim veio por último, amassado e sem brilho, e o menino passou a dormir com ele do lado da cama.

Quando a banda finalmente desfilou pelas ruas Perdido e Liberty, com aquele cornetim na frente, os vizinhos que conheciam o garoto descalço encheram um chapéu de moeda no meio da calçada.

Ele foi liberado em junho de 1914, com doze anos e nenhum lugar certo para morar. Voltou a descarregar carvão e leite de dia, e passou a tocar em baile de bairro por alguns centavos a noite.

 
 
⚔⚔⚔
 
 
III

O Triunfo

 

O cornetista mais respeitado da cidade era Joe Oliver, que todo mundo chamava de Rei. Oliver reparou no garoto que rondava os salões, deu aula de graça, mandou servir comida na cozinha e um dia entregou a ele um cornetim usado.

Quando Oliver se mudou para Chicago em 1918, quem ocupou a vaga dele na banda de Kid Ory foi o menino do reformatório. Aos dezessete anos, ele tinha o melhor emprego de sopro de Nova Orleans.

Em 1919 ele foi contratado para tocar nos barcos a vapor que subiam o Mississippi, onde foi obrigado a aprender a ler partitura, e passou três temporadas inteiras no rio.

 

Em 1922 chegou o chamado de Chicago. Oliver o queria como segundo cornetim da Creole Jazz Band, e em poucas semanas a cidade percebeu que o segundo tocava mais alto e mais longe que o primeiro.

Entre 1925 e 1928, à frente dos grupos Hot Five e Hot Seven, ele gravou a série de discos que reescreveu a gramática do jazz.

 

A abertura de "West End Blues", gravada em 1928, virou matéria de aula em conservatório e é estudada até hoje compasso a compasso.

Ele tirou o jazz da toada coletiva e inventou o solo como se conhece hoje. Antes dele, a banda inteira improvisava junto. Depois dele, um instrumento assume a frente e conta a história sozinho.

A história, porém, não termina no primeiro topo. Nos anos 1950 e 1960 o nome dele virou alvo dentro da própria categoria.

 

Músicos jovens chamavam o repertório dele de antiquado e o sorriso de palco de servil. Parte da imprensa o tratava como um homem que agradava demais a plateia branca.

O corpo cobrava junto. O lábio superior estava destruído por décadas de bocal, e ele subia ao palco com o tecido rachado, passando pomada alemã antes de cada apresentação.

Em 1963 a agenda seguia cheia, e o repertório era o mesmo havia anos. Boa parte da crítica tratava as apresentações como visita a um monumento, não como música viva.

 

O maior nome do jazz americano virou, para uma geração inteira de músicos, um número de nostalgia com trompete.

~ Nova York, 1963

 

No fim de 1963, aos 62 anos, o produtor o chamou para gravar o número-título de um musical da Broadway que nem tinha estreado. Ele gravou numa tarde, sem entusiasmo, recebeu o cachê e esqueceu a música.

A gravação ficou meses parada na prateleira. No começo de 1964 as rádios começaram a tocar, o público pediu, e o disco subiu a parada semana após semana enquanto os Beatles ocupavam o topo havia catorze semanas seguidas.

"Hello, Dolly!" tomou o primeiro lugar da parada americana em 9 de maio de 1964, encerrou a sequência dos Beatles no topo e fez do menino do reformatório, aos 62 anos, o artista mais velho a chegar lá até então.

 
 
 
⚔⚔⚔
 
 
IV

A Lição

 

Repare no que de fato mudou naquela noite de 1912. Não foi o castigo, não foi o regime militar, não foi o sermão do juiz de menores.

Foi um instrumento amassado colocado na mão de um menino que ninguém no tribunal achava que valia o trabalho.

O reformatório não existia para formar músico. Existia para tirar moleque da rua, e a banda estava lá porque rendia boa impressão diante de quem assinava o cheque da instituição.

 

Tiraram dele a rua, a mãe e a liberdade. Devolveram um cornetim de segunda mão.

~ O cornetim do reformatório

 

O que era vitrine da diretoria virou, sem que ninguém planejasse, a única escola de música a que aquele garoto teria acesso na vida.

Vale reparar em quem estava na sala. Peter Davis não era professor de conservatório, era funcionário de instituição pobre, com instrumento remendado e nenhuma expectativa sobre os internos. Ainda assim foi ele quem abriu a porta.

Armstrong repetiu a vida inteira que a melhor coisa que já tinha lhe acontecido foi ter sido detido naquela noite. Não é frase bonita de entrevista, é contabilidade fria: sem a detenção não havia banda, e sem a banda não havia cornetim.

Repare também no segundo tempo da história. Aos 62 anos ele estava catalogado como peça de museu pela própria categoria, e o que o devolveu ao topo não foi reinvenção nenhuma.

Foi a mesma coisa que ele fazia desde os doze anos em baile de bairro: pegar uma melodia simples, qualquer uma, e tocar como se aquela melodia fosse a coisa mais séria do mundo.

 

A pergunta que fica não é qual porta se fechou quando você caiu. É o que puseram na sua mão do outro lado dela, enquanto você só conseguia olhar para o muro.

 

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