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O Compositor Falido que Escreveu o Messias em 24 Dias
Händel perdeu a companhia de ópera e o movimento do braço direito, e em 1741 escreveu em 24 dias a obra que estreou para soltar devedores.
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Fishamble Street, Dublin: onde o Messias estreou
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1685: Georg Friedrich Händel nasce em Halle, na Saxônia, filho de um barbeiro cirurgião que queria o menino advogado e proibia instrumento dentro de casa.
1712: instala-se em Londres e vira o fornecedor oficial de ópera italiana da corte inglesa, com salário anual pago pela Coroa.
1728: A Ópera do Mendigo, peça cantada em inglês por personagens de rua, faz sucesso enorme na cidade e transforma a ópera italiana em alvo de chacota.
1734: a Ópera da Nobreza, companhia rival bancada pelo príncipe de Gales, contrata os cantores dele e racha a plateia pagante de Londres em duas casas meio vazias.
abril de 1737: aos 52 anos, Händel sofre um derrame que paralisa o braço direito e deixa a fala embolada.
julho de 1741: Charles Jennens envia a ele um libreto (o texto a ser cantado) feito só de versículos bíblicos.
22 de agosto de 1741: Händel começa a compor na casa da Brook Street.
14 de setembro: entrega a partitura completa, 259 páginas de próprio punho, vinte e quatro dias depois da primeira nota.
13 de abril de 1742: o Messias estreia no Music Hall da Fishamble Street, em Dublin, num concerto beneficente.
1750: passa a reger a obra todo ano no Foundling Hospital, orfanato londrino, em benefício das crianças.
1759: morre em Londres, aos 74 anos, e é enterrado na Abadia de Westminster.
Ópera italiana em Londres era um negócio de margem estreita e vaidade cara. A companhia pagava fortunas aos castrati e às primas-donas importadas da Itália, encomendava cenário novo a cada temporada e dependia de um punhado de aristocratas assinantes que podiam sumir por briga política, por moda ou por tédio. O compositor não era um artista subsidiado: era o sócio que assinava contrato de cantor, alugava teatro e respondia pelo prejuízo quando a casa não enchia.
A plateia londrina cansou. Queria entender a letra e queria piada sobre o próprio país, e a ópera em italiano oferecia o oposto. Quem vivia do negócio via o mercado encolher temporada após temporada, porque o repertório inteiro de um compositor ficava preso a uma língua que o público recusava.
A seção a seguir começa no ano em que o homem mais bem pago da música inglesa perdeu a companhia, a saúde e o crédito na praça, e precisou decidir o que fazer com uma técnica de trinta anos que já não tinha comprador.
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I A Queda
A ópera italiana que o deixou sem crédito
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Georg Friedrich Händel chegou aos anos 1730 como o músico mais poderoso de Londres e saiu deles devendo dinheiro. Ele dirigia a Royal Academy of Music, a companhia de ópera bancada por assinantes nobres e pela Coroa, e sustentava um elenco de estrelas italianas cujos salários consumiam boa parte da arrecadação de uma temporada inteira.
O primeiro golpe veio do teatro popular. Em 1728, A Ópera do Mendigo, de John Gay, encheu casa noite após noite com salteadores e prostitutas cantando melodias conhecidas em inglês, e a piada central era a própria ópera italiana. Depois dela, o gênero que Händel dominava virou sinônimo de afetação estrangeira na conversa da cidade.
O segundo golpe veio de cima. Em 1733 um grupo de aristocratas descontentes fundou a Ópera da Nobreza, companhia rival com o príncipe de Gales como padrinho, e levou embora os cantores principais dele. Duas companhias passaram a disputar a mesma plateia pequena, e as duas perderam dinheiro.
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Händel dirigia temporada, pagava elenco e assumia o rombo com o próprio bolso. Ele não era um funcionário da corte com salário garantido, era o empresário que responde pela conta quando as poltronas ficam vazias. |
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Em abril de 1737, no fim de uma temporada desastrosa, o corpo cobrou. Ele sofreu o que os médicos da época chamavam de perlesia, isto é, uma paralisia: o braço direito parou, a fala saiu embolada e os amigos escreveram cartas dizendo que o raciocínio dele estava afetado. Para um compositor que escrevia a própria partitura à mão e regia do cravo, a mão direita parada encerrava a profissão.
Os sócios do teatro entenderam desse jeito. A companhia foi fechada e o nome dele circulou em Londres como caso encerrado, um estrangeiro de meia-idade, doente e endividado, que tinha ficado rico com uma moda que passou.
Händel embarcou para Aachen, na Alemanha, e passou seis semanas em banhos quentes de água sulfurosa, tratamento padrão para paralisia naquele século. Ficava nas termas muito além do tempo que os médicos recomendavam. Ao voltar, sentou-se ao órgão de uma igreja da cidade e tocou por horas diante de quem estava lá, e a notícia de que a mão direita havia respondido chegou a Londres antes dele.
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II O Triunfo
Vinte e quatro dias na casa da Brook Street
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A mão voltou, o mercado não. Händel retomou temporadas de ópera entre 1738 e 1741 e continuou perdendo dinheiro, até desistir do gênero que o sustentara por três décadas. A saída foi um formato que ele já vinha testando: o oratório, obra sacra cantada em inglês, sem cenário, sem figurino e sem castrato, executada em concerto por solistas, coro e orquestra. Custava uma fração de uma montagem italiana e falava a língua do público.
Em julho de 1741 chegou pelo correio o libreto de Charles Jennens, proprietário rural rico, colecionador e devoto anglicano que já havia trabalhado com ele. O texto não contava uma história com personagens: era uma colagem de versículos do Antigo e do Novo Testamento, em três partes, sobre a profecia, o sacrifício e a ressurreição. Nenhum nome próprio aparece cantado na obra inteira.
Händel começou em 22 de agosto e trabalhou quase sem sair de casa, na Brook Street, em Londres. Fechou a primeira parte em seis dias, a segunda em nove, a terceira em seis, e gastou o resto em orquestração. Em 14 de setembro a partitura estava pronta: 259 páginas escritas a bico de pena, com rasuras, atalhos e datas anotadas no canto por ele mesmo.
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Ele compunha rápido por ofício, não por milagre. Parte do material do Messias reaproveita música que ele já tinha escrito, inclusive duetos italianos profanos transformados em coro, prática comum e declarada na oficina de um compositor do século XVIII. |
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A estreia não aconteceu em Londres. Convidado pelo duque de Devonshire, então vice-rei da Irlanda, Händel passou nove meses em Dublin e programou a obra nova para um concerto de caridade em benefício de três instituições: o hospital Mercer's, a Charitable Infirmary e a sociedade que pagava a soltura de presos por dívida.
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Uma peça sacra é mais adequada à quaresma do que às canções do teatro de ópera. Anúncio do Dublin Journal sobre a estreia do Messias, citado em Handel: Messiah, de Donald Burrows, 1991 |
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O Music Hall da Fishamble Street comportava umas seiscentas pessoas e a procura estourou a lotação. Os organizadores publicaram pedido nos jornais para que as senhoras fossem sem armação de saia e os cavalheiros deixassem a espada em casa, o que abriu espaço para cerca de setecentos ouvintes. A arrecadação da noite de 13 de abril de 1742 ficou perto de quatrocentas libras, dividida entre as três casas, e o dinheiro da parte destinada aos devedores tirou 142 homens da prisão.
Londres reagiu pior. Quando a obra chegou ao Covent Garden, em 1743, parte do clero acusou de profanação levar palavra bíblica a um teatro pago, e o cartaz precisou anunciar apenas Um Oratório Sagrado, sem o título. O próprio Jennens escreveu a um amigo que a música tinha ficado aquém do texto dele. A aceitação veio devagar, por repetição anual, e não por consagração imediata.
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