 |
|
A Queda do Dia
O Cheque de Dez Milhões
Um garoto de quinze anos entra na fábrica de rodas às seis da tarde com um esfregão na mão e sai às duas da manhã, e nenhum colega do turno sabe que ele vai dormir dentro de uma van estacionada.
|
| |
| Leia ouvindo Queda e Triunfo → |  |
|
|
|
|
|
| |
|
Um garoto de quinze anos entra na fábrica de rodas às seis da tarde com um esfregão na mão e sai às duas da manhã, e nenhum colega do turno sabe que ele vai dormir dentro de uma van estacionada.
Scarborough, subúrbio de Toronto, 1977. James Eugene Carrey tinha quinze anos, um pai contador que havia sido demitido, uma mãe adoentada na cama e uma família inteira empregada no mesmo galpão industrial.
Percy Carrey tocava saxofone e era bom o bastante para viver de música. Escolheu o caminho seguro, virou contador, sustentou quatro filhos com salário fixo e explicou a todo mundo que arte não paga aluguel.
Aos cinquenta e poucos anos, o caminho seguro o dispensou. A demissão veio sem aviso, a reserva durou pouco, e a casa da família foi a primeira coisa a ir embora.
|
A saída foi um acordo em bloco: a fábrica de rodas contratou a família inteira, pai, mãe e filhos, para limpar o chão e vigiar o galpão à noite. O turno começava depois da aula e terminava de madrugada. |
|
| |
|
Por um tempo, o endereço dos Carrey foi uma van Volkswagen e uma barraca armada no gramado da casa de uma parente. Seis pessoas, um veículo velho, o inverno de Ontário do lado de fora da lataria.
Jim entrava no colégio de manhã, cochilava na carteira e pegava o esfregão à tarde. Aos quinze anos, largou a escola de vez e passou a viver dentro do galpão, oito horas por dia, com cheiro de borracha queimada grudado na roupa.
A raiva daquela fase não tinha para onde ir. Ele contaria, décadas depois, que dormia com um taco de beisebol ao lado da cama, pronto para brigar com um inimigo que não tinha rosto nem endereço.
Dentro de casa, a função dele era outra. A mãe passava semanas deitada, e o filho mais novo descobriu que uma careta bem feita a tirava da cama por alguns minutos. Ele ensaiava caretas no espelho como quem ensaia um ofício.
Aos dez anos, já havia datilografado um currículo e enviado pelo correio a uma apresentadora de televisão americana, pedindo uma chance. Treze anos depois daquele turno na fábrica, ele estaria sozinho num carro parado numa estrada acima de Los Angeles, preenchendo um cheque de dez milhões de dólares para si mesmo.
|
| |
|
| |
|
| |
|
Ainda com a chave da fábrica no bolso, o garoto pediu ao pai que o levasse até o Yuk Yuk's, o clube de comédia do centro de Toronto, numa noite de microfone aberto. A mãe costurou o figurino, um terno amarelo de poliéster.
A plateia detonou o menino de terno amarelo. Ele desceu do palco humilhado, voltou para o turno da noite e ficou dois anos sem tentar de novo. Quando reapareceu no clube, em 1979, a sala inteira parou para assistir.
Aos dezenove anos, comprou passagem para Los Angeles com o dinheiro contado. Rodney Dangerfield o viu numa noite qualquer do The Comedy Store e o contratou na hora para abrir a turnê inteira dele.
Jim virou o melhor imitador da cidade. Fazia dezenas de vozes, dominava qualquer plateia, e percebeu, no meio do próprio sucesso, que ninguém ali sabia quem ele era por baixo das imitações.
|
Numa noite, no meio do show, ele abandonou em cima do palco o repertório que pagava suas contas. Saiu sem terminar o set e decidiu recomeçar do zero, sem vozes emprestadas, aos vinte e poucos anos. |
|
| |
|
Os meses seguintes foram salas hostis e madrugadas em branco. Ele subia sem material pronto, improvisava, ouvia vaia, voltava na noite seguinte. Alguns donos de clube simplesmente pararam de chamá-lo.
|
| |
Ele tinha o repertório mais afiado da cidade e nenhum contrato de cinema. O talento já estava pronto, a porta é que não abria. ~ Os anos de sala vazia |
|
| |
|
Em 1984, a televisão pareceu resolver a conta: um seriado na NBC, papel de protagonista, salário de gente grande. A emissora cancelou o programa em treze episódios, e o telefone silenciou de novo.
|
Vieram anos de teste sem retorno, papel pequeno em filme esquecido e conta bancária no vermelho. Ele devia dinheiro, dirigia um carro caindo aos pedaços e assistia de longe outros comediantes assinarem contratos de cinema. |
|
| |
|
Do outro lado da fronteira, o pai seguia sem se recuperar da demissão. O homem que havia escolhido a segurança e perdido tudo assim mesmo virou, para o filho, uma lição diária sobre o preço real de não arriscar.
Aos vinte e oito anos, o balanço era esse: treze anos de palco, nenhum filme relevante, nenhuma reserva. O talento já estava afiado e a porta continuava fechada, o que é uma combinação que quebra a maioria das pessoas.
Ele tinha trocado uma cidade pela outra e continuava com a mesma sensação do galpão de Scarborough, a de estar trabalhando muito dentro de um lugar que não levava a canto nenhum.
|
| |
|
| |
|
| |
|
No fim de 1990, Jim adotou um ritual noturno. Pegava o carro, subia a Mulholland Drive, parava num mirante sobre Los Angeles e ficava ali dizendo em voz alta, sozinho, que os diretores daquela cidade queriam trabalhar com ele.
Numa dessas noites, ele tirou o talão do porta-luvas e escreveu um cheque de dez milhões de dólares para si mesmo, por serviços de atuação prestados, datado para o Dia de Ação de Graças de 1995. Dobrou o papel e guardou na carteira.
O cheque ficou lá dentro por anos e foi se desfazendo de tanto ser dobrado e desdobrado. Não era uma previsão nem um amuleto. Era hora marcada com um número e uma data, revista todo dia, no bolso de trás.
|
|
|
Abril de 1990, Los Angeles. Um programa novo de humor na televisão americana abriu espaço para um canadense magro que fazia caretas impossíveis, e Jim finalmente teve o primeiro salário estável da vida adulta.
|
Em 1994, quatro anos depois do papel guardado na carteira, ele emendou três filmes em doze meses. Recebeu trezentos e cinquenta mil dólares pelo primeiro, um pouco mais pelo segundo, e saiu do ano como o maior nome de bilheteria da comédia mundial. |
|
| |
|
O cachê subiu junto e subiu rápido. O ator que aceitava trezentos mil por um papel passou a negociar em outra faixa, com estúdios disputando a agenda dele no mesmo período.
Foi quando chegou o contrato de Debi e Lóide: dez milhões de dólares, o valor exato escrito na estrada escura, assinado antes que a data marcada no cheque chegasse.
|
| |
Ele não adivinhou o número. Marcou hora com o número, e apareceu todo dia até o número aparecer também. ~ A madrugada na Mulholland Drive |
|
| |
|
O pai não chegou a ver o Dia de Ação de Graças anotado no papel. Quando Percy partiu, em 1994, Jim dobrou o cheque uma última vez e colocou no bolso do paletó dele, junto com um bilhete de agradecimento.
Dois anos depois, o mesmo homem virou o primeiro ator da história a receber vinte milhões de dólares por um único filme, o dobro do número que havia escrito para si mesmo quando não tinha nada.
|
O garoto que varria o chão de uma fábrica de rodas em Scarborough e dormia com a família dentro de uma van assinou, dezoito anos depois, um contrato pelo valor exato que tinha inventado sozinho num carro parado. |
|
| |
| |
|
| |
|
| |
|
Você provavelmente nunca vai passar um inverno inteiro dormindo numa van com a família nem varrer o chão de uma fábrica depois da aula. Mas quase todo mundo já viu um plano seguro desmoronar sem pedir licença.
O emprego estável que sumiu numa reestruturação. A carreira montada sobre o conselho de alguém que queria o seu bem. A conta que chegou justamente na fase em que você tinha feito tudo certo.
|
| |
O pai escolheu o emprego seguro e foi dispensado dele assim mesmo. Não existe caminho sem risco, existe risco escolhido por você ou escolhido por outra pessoa. ~ A herança do contador |
|
| |
|
O cheque de Jim Carrey não tinha poder nenhum. Papel não paga cachê e não abre porta de estúdio. O que ele fez foi transformar um desejo vago em três coisas concretas: um número, uma data e um compromisso diário com a própria ambição.
A parte que quase ninguém copia são os quatro anos entre a assinatura e o contrato. As madrugadas em clube vazio, as vaias, os testes perdidos, o carro velho subindo a mesma estrada toda noite para repetir a mesma frase em voz alta.
|
| |
A pergunta que fica não é quanto você escreveria no seu cheque. É se você aguenta abrir a carteira todo dia, por anos, até o número virar verdade. |
|
| |
|
Guia Queda e Triunfo · Novo
O Primeiro Passo de Quem Perdeu Tudo
As 12 viradas mais improváveis da história e o passo inicial que todas têm em comum.
|
|
|