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Queda e Triunfo   Queda e Triunfo
ED 088

O Cateter de 65 Centímetros

Aos vinte e cinco anos, num hospital de província, ele empurrou um tubo pela própria veia e desceu a pé até o raio-X para fotografar a prova.

Interno de cirurgia num hospital alemão de 1929, braço esquerdo estendido sob luz baixa, com um cateter fino entrando na dobra do cotovelo

Eberswalde, 1929: a descida até o raio-X

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Sala de curativos do Auguste-Viktoria-Heim, hospital municipal de Eberswalde, cidade de província a cinquenta quilômetros de Berlim, verão de 1929. Um interno de cirurgia de vinte e cinco anos tranca a porta por dentro e pinta de iodo a dobra do cotovelo esquerdo.

A ideia não era dele. Vinha de uma gravura de 1861, vista num manual de fisiologia do primeiro ano: dois franceses, Auguste Chauveau e Étienne-Jules Marey, enfiando tubos na jugular de um cavalo para medir a pressão dentro do coração do animal. O cavalo seguia de pé, mastigando.

Werner Forssmann tinha pedido autorização ao chefe do serviço, Richard Schneider, para tentar o mesmo num paciente. A resposta foi não, com o argumento óbvio da época: ninguém sabia o que acontece quando um corpo estranho encosta no músculo cardíaco de uma pessoa viva.

O material ficava trancado. A chave do armário estéril estava com a enfermeira Gerda Ditzen, e ela só concordou em ajudar sob uma condição: o cateter entraria no braço dela, não no dele. Forssmann prometeu, deitou-a na mesa e prendeu os pulsos com as tiras de couro.

Depois anestesiou o próprio cotovelo, abriu a veia e empurrou por trinta e cinco centímetros um cateter de borracha do calibre usado em ureter. Só então soltou as tiras e pediu que ela chamasse a radiologia.

Desceram a pé dois lances de escada, ele com o tubo pendurado no braço, até o porão onde ficava o aparelho de raios X. Uma enfermeira segurou um espelho na frente da tela fluoroscópica para que ele pudesse acompanhar a própria imagem enquanto empurrava.

O cateter parou aos sessenta e cinco centímetros, dentro do átrio direito. As chapas foram feitas ali, com data. Um colega entrou no meio do procedimento e tentou arrancar o tubo do braço dele à força.

Nada daquilo doeu. Forssmann relatou apenas um calor leve subindo pelo braço e vontade de tossir quando a ponta cruzou a altura do ombro. O que veio depois não teve nada de indolor, e também não teve nada a ver com medicina.

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I  A Queda

O número de circo na Charité

 
 

O artigo saiu em 5 de novembro de 1929 na Klinische Wochenschrift, uma das revistas médicas mais respeitadas da Alemanha, sob um título sem rodeio: a sondagem do coração direito. Poucas páginas, uma radiografia e a descrição do próprio autor como sujeito do experimento.

A repercussão maior não veio da medicina. Veio dos jornais de Berlim, que trataram o caso como proeza, com manchete e retrato do interno de província que tinha entrado no próprio coração.

Em seguida veio a briga por prioridade. Ernst Unger, cirurgião em Berlim, sustentou que já havia feito cateterismo em vasos humanos em 1912, junto com Fritz Bleichröder, sem controle radiológico e sem saber ao certo onde a ponta tinha parado. Forssmann precisou publicar um adendo reconhecendo o trabalho anterior.

A vaga que ele havia conquistado ficava na Charité, em Berlim, sob Ferdinand Sauerbruch, o cirurgião mais poderoso do país e o homem que decidia quem teria carreira acadêmica na Alemanha.

Ninguém contestou a radiografia. O que foi julgado ali foi o modo de conseguir a imagem, e o tamanho de quem tinha conseguido.

 

Sauerbruch leu o artigo, leu os jornais e mandou chamar o interno. O encontro durou o suficiente para uma frase, repetida depois em todo obituário e em toda aula sobre o caso.

 

Com truques desses você se habilita num circo, não numa clínica alemã respeitável.

~ Ferdinand Sauerbruch, citado em Werner Forssmann, Selbstversuch: Erinnerungen eines Chirurgen, 1972

 

A demissão veio poucos dias depois. Forssmann voltou para Eberswalde sem carta de recomendação e sem o degrau que a Charité representava, e a porta da cardiologia acadêmica alemã ficou fechada pelo resto da vida profissional dele.

Ainda tentou por mais dois anos. Repetiu a sondagem no próprio corpo, nove vezes ao todo, e em 1931 injetou contraste na própria circulação para tentar fotografar as câmaras cardíacas em funcionamento, o primeiro esboço do que viraria a angiocardiografia.

Levou o trabalho ao congresso da Sociedade Alemã de Cirurgia, em Munique, e não encontrou interlocutor. As veias do braço esquerdo dele já estavam esclerosadas de tanto uso.

Em 1932 filiou-se ao partido nazista, escolha que a própria autobiografia dele trata como erro, sem tentativa de defesa. Serviu como cirurgião do exército durante a guerra e terminou prisioneiro dos americanos.

Solto em 1945, sem hospital que o contratasse, passou um período cortando madeira na Floresta Negra. Quem sustentava a casa era Elsbeth, a mulher dele, médica, com um consultório de clínica geral em Bad Kreuznach.

Quando voltou a exercer, foi como urologista, no consultório dela, atendendo pedra nos rins e próstata numa cidade termal do vale do Nahe. Tinha quarenta e poucos anos e nenhuma ligação com o assunto que havia inaugurado.

 
 
 
 

II  O Triunfo

O telefonema para Bad Kreuznach

 
 

Em 1940, num laboratório do Bellevue Hospital, em Nova York, um médico francês chamado André Cournand procurava um jeito de medir quanto sangue o coração humano bombeava por minuto sem precisar abrir o tórax de ninguém.

Cournand e Dickinson Richards, da Universidade Columbia, tinham lido o artigo de 1929. O que para Sauerbruch era número de circo era, para eles, a única descrição publicada de um tubo colocado com segurança dentro de um coração vivo, com radiografia junto.

Eles refizeram o percurso em cães, depois em pacientes, e converteram a manobra em instrumento de medida. Com o cateter no átrio direito dava para colher sangue venoso misto, medir pressão câmara por câmara e calcular o débito cardíaco pelo princípio de Fick.

A diferença entre o que ele fez e o que eles fizeram cabe numa palavra: repetição. Forssmann provou uma vez, em si mesmo, que era possível. Cournand e Richards provaram centenas de vezes, em pacientes de verdade, que era útil.

O primeiro trabalho clínico saiu em 1941. Durante a guerra, o método foi usado para estudar o choque traumático em feridos, com financiamento do esforço de guerra americano, e mostrou onde a circulação falhava antes de a pressão do paciente despencar.

A descoberta não voltou pelas mãos dele. Voltou porque o artigo continuava na estante, esperando alguém com uma pergunta que o cateter soubesse responder.

 

Depois de 1945 o cateterismo virou rotina. Serviu para diagnosticar defeito congênito antes de operar, mapear a circulação pulmonar e abrir caminho para a cirurgia cardíaca, que só existe porque alguém consegue saber, antes de cortar, o que há dentro.

Em 11 de outubro de 1956 o Instituto Karolinska anunciou o Nobel de Fisiologia ou Medicina do ano, dividido em três nomes: Cournand, Richards e um urologista alemão que ninguém na área conhecia.

 

O cateter cardíaco foi a chave na fechadura.

~ André Cournand, conferência do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, Estocolmo, 1956

 

O telefone tocou no consultório de Bad Kreuznach. Forssmann tinha cinquenta e dois anos, clinicava urologia e havia mais de vinte anos não acompanhava o que se publicava em cardiologia. Não sabia que o artigo dele seguia sendo citado do outro lado do Atlântico.

A frase que ele deu aos repórteres naquele dia entrou para o folclore do prêmio: sentia-se como um pároco de aldeia que acaba de saber que foi nomeado bispo.

Em dezembro foi a Estocolmo receber a medalha ao lado dos dois americanos que fizeram o trabalho que ele não pôde fazer. Em 1958 assumiu a chefia da cirurgia do Hospital Evangélico de Düsseldorf, e depois recebeu o título de professor honorário em Mainz.

Tinha cinquenta e quatro anos quando voltou a dirigir um serviço hospitalar. Entre a radiografia de Eberswalde e o telefonema haviam passado vinte e sete anos.

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III  A Lição

O registro que sobreviveu ao exílio

 
 

Vale separar duas coisas que a história costuma vender embrulhadas juntas, porque a leitura mais fácil aqui é a errada.

A leitura fácil diz que o herói foi a coragem. Que o rapaz teve peito de furar a própria veia e que o gesto lhe rendeu o Nobel vinte e sete anos depois. Coragem não atravessou o Atlântico, e coragem não é reproduzível por terceiros.

O que atravessou foram algumas páginas indexadas numa revista de circulação internacional, com data, método descrito passo a passo e uma radiografia que qualquer leitor podia examinar sem precisar confiar na palavra do autor.

Sauerbruch não estava errado ao chamar aquilo de número. Feito uma vez, num braço só, sem série e sem controle, aquilo era mesmo um número. O erro dele foi supor que número nunca vira método quando alguém escreve o número direito.

Um feito impressiona a sala onde aconteceu. Um registro trabalha em salas que você nunca vai visitar.

 

Existe um custo aqui que não deve ser suavizado. Forssmann perdeu a carreira que queria, e o prêmio não devolveu nenhum dos vinte e sete anos. Ele passou o melhor período produtivo da vida tratando pedra nos rins numa cidade termal, longe do assunto que tinha aberto.

Também não há como limpar a filiação de 1932. Ele foi um homem premiado que fez uma escolha indefensável na juventude, e as duas coisas estão no mesmo currículo.

E o método que ele usou não passaria hoje em nenhum comitê de ética, nem deve passar. O que sobrevive da história não é o autoexperimento, é a disciplina de registrar o resultado como se outra pessoa fosse precisar dele.

 

Pelas descobertas relativas ao cateterismo cardíaco e às alterações patológicas no sistema circulatório.

~ Instituto Karolinska, comunicado do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, 1956

 

Na sua vida, o equivalente é mais simples do que parece. O trabalho bom que você faz dentro de uma empresa, de um cargo ou de uma relação tende a morrer junto com o vínculo, porque só existe na memória de quem estava na sala naquele dia.

Escrever o que foi feito, com data, número e o passo a passo de como refazer, é o que separa uma história que você conta de uma prova que trabalha sozinha. A primeira depende de você estar presente. A segunda funciona depois que você foi mandado embora.

Não é preciso vencer a autoridade no debate. Basta deixar o registro num lugar onde alguém consiga encontrar quando precisar dele.

 

O melhor trabalho que você fez este ano está registrado em algum lugar que sobreviva à sua saída, ou só na memória de quem estava na sala?

 
 
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Para conseguir a chave do armário de material estéril, o que Werner Forssmann prometeu à enfermeira Gerda Ditzen antes do procedimento?

AQue dividiriam o crédito da descoberta com o chefe do serviço
BQue o cateter entraria no braço dela, não no dele
CQue pediria autorização formal de Richard Schneider depois
DQue o procedimento seria feito em outro hospital, longe da Charité

Resultado da última edição: 29% acertaram.

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