|
|
O Catálogo Que Princeton Se Recusou a Enviar
Formada em Vassar em 1948, pediu o catálogo da pós-graduação em astronomia de Princeton e recebeu como resposta que o programa não aceitava mulheres.
|
Andrômeda, 1970: as bordas rápidas demais
|
| ▼ |
| |
| |
|
23 de julho de 1928: nasce em Filadélfia, numa família em que o pai é engenheiro elétrico e a mãe trabalha na companhia telefônica local.
1938: aos dez anos, monta com o pai um telescópio de papelão e lente comprada avulsa, apontado pela janela do quarto em Washington, e passa noites acompanhando o caminho das estrelas sobre o telhado.
1948: forma-se em Vassar, a única aluna de astronomia da turma daquele ano. Escreve para Princeton pedindo o catálogo da pós-graduação e recebe uma resposta curta: o programa de astronomia não enviava catálogo para mulheres, porque não aceitava mulheres.
1950: com vinte e dois anos, um bebê de um mês em casa e o mestrado em Cornell recém-terminado, apresenta na reunião de dezembro da Sociedade Astronômica Americana a hipótese de que as galáxias não se afastavam apenas pela expansão do universo, mas giravam em torno de um eixo comum. A plateia trata a comunicação como erro de aluna.
1954: defende o doutorado em Georgetown, orientada por George Gamow, mostrando que as galáxias se agrupam em vez de estarem espalhadas ao acaso pelo céu. O trabalho fica quase vinte anos sem eco.
1965: entra na equipe do Departamento de Magnetismo Terrestre da Instituição Carnegie e se torna a primeira mulher autorizada a observar oficialmente no telescópio de 200 polegadas do Monte Palomar, onde não existia banheiro feminino no prédio dos observadores.
1970: publica com Kent Ford, no Astrophysical Journal, a curva de rotação da galáxia de Andrômeda medida com um espectrógrafo de tubo intensificador de imagem. As estrelas da borda giravam quase tão rápido quanto as do centro, coisa que a gravidade da matéria visível não explicava.
1980: com Ford e Norbert Thonnard, publica no Astrophysical Journal as curvas de rotação de vinte e uma galáxias espirais. Todas achatadas, todas com o mesmo excesso de velocidade nas bordas.
A distância entre a carta de Princeton em 1948 e o artigo de 1980 costuma ser contada como uma história de portas que se abriram devagar. A cronologia mostra outro percurso: trinta e dois anos de trabalho em instrumentos emprestados, temas que ninguém disputava e noites de observação em prédios sem banheiro para ela.
|
| |
|
Continue lendo ↓
|
| |
|
| |
|
I A Queda
A carta que voltou de Princeton
|
| |
| |
|
O pedido de 1948 era administrativo, do tipo que qualquer secretaria despacha sem pensar. Uma recém-formada em astronomia escreve para a universidade pedindo o catálogo do programa de pós-graduação, para saber quais disciplinas eram oferecidas e como se candidatar. A resposta que chegou informava que o material não seria enviado, porque o departamento de astronomia não recebia candidatas.
A regra não era exceção daquele ano nem interpretação de um funcionário mal-humorado. O programa de astronomia de Princeton passou a admitir mulheres na pós-graduação apenas em 1975, vinte e sete anos depois da carta.
A alternativa foi Cornell, escolhida também porque o marido, físico, fazia doutorado lá. Em Ithaca ela assistiu a aulas de Richard Feynman e Hans Bethe, terminou o mestrado em 1951 e escreveu uma dissertação sobre o movimento de conjunto das galáxias.
|
| |
A tese de mestrado propunha que, descontada a expansão do universo, sobrava nos dados um movimento coletivo das galáxias, como se todas girassem em torno de um centro comum. Era 1950, e ninguém tinha pedido aquela pergunta. |
|
| |
|
A apresentação aconteceu na reunião de dezembro de 1950 da Sociedade Astronômica Americana. Ela tinha vinte e dois anos, um filho de um mês, e viajou de trem com os pais porque não dirigia. Falou dez minutos. A discussão seguinte tratou o resultado como artefato de amostra pequena, e o trabalho não saiu em revista com revisão de pares.
O doutorado em Georgetown foi feito à noite, entre 1952 e 1954, com aula em horário que permitisse cuidar dos filhos durante o dia e com o marido esperando dentro do carro no estacionamento. A tese, orientada por George Gamow, mostrava que a distribuição das galáxias tinha grumos, agrupamentos, em vez da dispersão uniforme que o consenso assumia.
O resultado foi publicado e praticamente ignorado. A comunidade só voltou a essa pergunta nos anos 1970, quando levantamentos maiores confirmaram a estrutura em grumos que ela tinha descrito duas décadas antes.
Nos dez anos seguintes ela ensinou em Georgetown, publicou pouco e escolheu deliberadamente temas periféricos. A regra que ela mesma explicava era simples: trabalhar onde havia menos gente competindo, porque disputa de prioridade consumia tempo que ela não tinha e gerava atrito que ela não queria.
Em 1965, aos trinta e sete anos, entrou para o Departamento de Magnetismo Terrestre da Carnegie. Pediu emprego lá porque queria acesso a instrumento de verdade, e porque no prédio funcionava a oficina onde Kent Ford construía espectrógrafos. Aceitou um posto abaixo da própria qualificação para chegar perto do equipamento.
|
| |
|
| |
|
II O Triunfo
As bordas que giravam rápido demais
|
| |
| |
|
O aparelho de Ford era um espectrógrafo com tubo intensificador de imagem, capaz de registrar espectros dez vezes mais rápido que uma chapa fotográfica comum. Ele permitia medir a velocidade de regiões individuais dentro de uma galáxia, ponto a ponto, em vez de tratar o objeto inteiro como uma mancha só.
A escolha do alvo foi prática. Andrômeda é a grande espiral mais próxima da Via Láctea, brilhante o bastante para render espectro de suas regiões externas e grande o bastante para ser dividida em dezenas de pontos de medida. Rubin e Ford passaram noites do fim dos anos 1960 apontando o instrumento para nuvens de hidrogênio ionizado espalhadas pelo disco da galáxia.
O que a física orbital previa era conhecido. No sistema solar, Mercúrio corre a quarenta e sete quilômetros por segundo e Netuno a cinco, porque a massa está concentrada no centro e a velocidade cai com a distância. Uma galáxia com a massa concentrada no bojo luminoso deveria mostrar o mesmo desenho: bordas lentas.
|
| |
Nós espiamos um mundo novo e vimos que ele é mais misterioso e mais complexo do que tínhamos imaginado. Vera Rubin, Bright Galaxies, Dark Matters, 1997 |
|
| |
|
1970: o artigo assinado por Rubin e Ford no Astrophysical Journal mostra a curva de rotação de Andrômeda estendida até cerca de vinte e quatro mil parsecs do centro. A curva não desce. As nuvens da periferia giravam quase na mesma velocidade das regiões internas, e a matéria luminosa da galáxia não dava conta de segurar aquilo.
|
| |
Se a velocidade das bordas não cai, a massa continua crescendo para fora mesmo onde a luz já acabou. A conclusão aritmética é que a maior parte da galáxia não emite luz nenhuma. |
|
| |
|
A dupla passou a década seguinte repetindo a medida em outras espirais, de tamanhos e brilhos diferentes, para eliminar a hipótese de que Andrômeda fosse um caso isolado. Em 1978 publicaram um primeiro conjunto com dez galáxias, e em 1980, com Norbert Thonnard, as curvas de rotação de vinte e uma espirais no Astrophysical Journal.
Todas as vinte e uma tinham curva achatada. O padrão se repetia em galáxia grande e pequena, luminosa e apagada, próxima e distante. O excesso de massa invisível chegava a algo entre cinco e dez vezes a massa que aparecia nos telescópios.
A hipótese de matéria não luminosa já existia no papel desde os anos 1930, quando o astrônomo Fritz Zwicky notou que as galáxias do aglomerado de Coma se moviam rápido demais para a massa visível do conjunto. O que faltava era medida limpa, repetida e difícil de contestar. As curvas de rotação forneceram exatamente isso, e a comunidade passou a tratar a matéria escura como problema central da cosmologia.
O reconhecimento veio depois dos cinquenta anos. Eleita para a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos em 1981, recebeu a Medalha Nacional de Ciência das mãos do presidente em 1993 e a Medalha de Ouro da Real Sociedade Astronômica britânica em 1996, a segunda mulher a receber a honraria em cento e vinte e oito anos.
|
|
| |