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O Carregador de Malas do Savoy

Guccio Gucci abriu a loja em Florença em 1921. Os netos brigaram por décadas, e em 1993 a família perdeu a marca.

Carregador de hotel com malas de couro no saguão do Savoy, em Londres, década de 1890.

Hotel Savoy, Londres, década de 1890

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26 de março de 1881: nasce Guccio Gucci em Florença, filho de Gabriello Gucci, artesão do couro e da palha numa cidade de oficinas pequenas. O menino cresce entre fivelas, fôrmas de madeira e retalhos de pele curtida.

Década de 1890: ainda adolescente, Guccio cruza a Europa e arruma emprego no Hotel Savoy, em Londres, aberto em 1889 à beira do Tâmisa. Carrega malas, opera o elevador e sobe baús de couro até as suítes dos hóspedes ricos. Decora as marcas gravadas nas bagagens, o peso das alças e a costura que aguenta navio e trem.

Começo do século XX: volta a Florença e entra na Franzi, oficina de malas finas da cidade. Ali aprende a escolher a pele, curtir, cortar e costurar à mão.

1921: abre com a mulher, Aida Calvelli, uma loja de artigos de couro na Via della Vigna Nuova, em Florença. Vende selas, luvas, malas e bolsas a cavaleiros toscanos e a turistas ingleses.

1938: a casa chega a Roma, na Via Condotti, a rua das vitrines caras da capital. Os filhos Aldo, Vasco e Rodolfo já trabalham no balcão e na oficina.

1947: com o couro racionado depois da guerra, os artesãos dobram a fogo varas de bambu importado e fazem delas a alça de uma bolsa. A Bamboo vira a primeira peça famosa da casa.

1953: Aldo abre a loja de Manhattan, na rua 58 Leste. A vitrine estreia o mocassim com freio, o sapato baixo enfeitado com uma réplica em metal da peça que vai na boca do cavalo.

O rapaz que carregava baús alheios no Savoy agora tinha lojas em três cidades e três filhos com direito a elas. O que vem a seguir conta como os herdeiros levaram a herança para salas de reunião, tribunais e repartições do fisco.

 

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I  A Queda

A guerra dos herdeiros

 
 

Guccio Gucci partiu em 2 de janeiro de 1953, em Milão, aos 71 anos, semanas antes da inauguração em Manhattan. Deixou a empresa aos três filhos homens. Grimalda, a filha, ficou fora da partilha: o pai achava o negócio assunto de homens.

Aldo, o mais velho, cuidava das lojas nos EUA e tinha faro para vitrine. Rodolfo, que nos filmes dos anos 1930 assinava Maurizio D'Ancora, administrava a loja de Milão. Vasco tocava a fábrica de Florença.

Vasco partiu em 1974, e Rodolfo comprou a parte dele. A empresa ficou dividida meio a meio entre os dois irmãos restantes. Aldo repassou uma fatia da metade dele aos filhos Giorgio, Roberto e Paolo.

O gravador de Paolo

Paolo Gucci, filho de Aldo e desenhista da casa, queria lançar uma linha própria, assinada por ele. O pai e o tio vetaram o projeto. Em 1980, Paolo foi demitido da empresa da família.

Em 1982, numa reunião do conselho em Florença, ele levou um gravador para registrar as queixas. A discussão terminou em agressão. Paolo saiu da sala com o rosto arranhado e abriu processo contra os parentes.

A vingança veio pelo fisco. Paolo entregou às autoridades americanas papéis sobre as contas do pai. Em 1986, Aldo Gucci, aos 81 anos, se declarou culpado de sonegação e cumpriu um ano e um dia numa prisão federal da Flórida.

O neto que vendeu a casa

Rodolfo partiu em 1983 e deixou a metade dele ao único filho, Maurizio Gucci, formado em direito. Maurizio se aliou ao primo Paolo, tirou o tio Aldo do comando e virou presidente da casa.

Em 1987, a justiça italiana o acusou de falsificar assinaturas para fugir do imposto sobre a herança. Maurizio fugiu para a Suíça e depois foi absolvido. Nos mesmos anos, o Investcorp, banco de investimento do Bahrein, comprou em silêncio as ações de Aldo e dos filhos dele.

Aldo Gucci partiu em Roma em 1990, aos 84 anos, sem ações da empresa do pai e longe das lojas americanas que ele mesmo tinha aberto.

Sob Maurizio, a empresa perdia dinheiro. Ele sonhava com lojas e móveis de luxo e não equilibrava as contas. Em 1993, vendeu ao Investcorp os 50% que restavam. A jornalista Sara Gay Forden, no livro The House of Gucci (A casa Gucci), de 2000, calcula a operação em cerca de 170 milhões de dólares.

 

Setenta e dois anos depois da loja da Via della Vigna Nuova, a empresa de Florença deixou de ter um Gucci entre os donos.

 
 
 
 
 
 
 
 

II  O Triunfo

O estilista do Texas

 
 

Guccio Gucci não reconheceria a casa de 1994. A marca estava sem família, com dívidas e com o logotipo dos dois G, tirado das iniciais dele, estampado em chaveiro barato de aeroporto. Nos anos 1980, os herdeiros tinham licenciado o sobrenome para quase qualquer produto.

O Investcorp pôs dois nomes no comando. Domenico De Sole, advogado italiano que cuidava das lojas americanas, assumiu a direção-geral. Tom Ford, estilista nascido no Texas e contratado em 1990 para a roupa feminina, virou diretor de criação em 1994.

Em março de 1995, Ford levou à passarela de Milão calças de veludo de cintura baixa, camisas de cetim justas e mocassins com freio em cores vivas. As lojas ficaram sem estoque, e as revistas de moda chamaram a coleção de renascimento da marca.

No mesmo ano, a empresa abriu o capital (começou a vender ações ao público) em Wall Street e na bolsa de Amsterdã. O dinheiro dos novos acionistas pagou as dívidas da década anterior. De Sole cortou as licenças baratas e recolheu os chaveiros das lojas de aeroporto.

Via Palestro, 8h40

Enquanto a coleção vendia, o último herdeiro morava em Milão com a nova companheira, Paola Franchi, e planejava abrir um negócio próprio de luxo com o dinheiro da venda.

Em 27 de março de 1995, às 8h40, Maurizio Gucci subiu a escada do prédio do escritório, na Via Palestro, 20. Um homem disparou quatro tiros pelas costas. O porteiro Giuseppe Onorato foi baleado no braço e sobreviveu. Maurizio tinha 46 anos.

A polícia levou quase dois anos para achar a mandante. Em janeiro de 1997, prendeu a ex-mulher dele, Patrizia Reggiani, mãe das duas filhas do casal, Alessandra e Allegra. Ela tinha contratado o atirador Benedetto Ceraulo por meio de uma amiga vidente, Giuseppina Auriemma.

Em 1998, o tribunal de Milão condenou Reggiani a 29 anos de prisão. A imprensa italiana a apelidou de Vedova Nera (viúva negra). Ela deixou a cadeia em 2016, depois de 18 anos presa.

A disputa dos bilionários

Em 1999, Bernard Arnault, dono do grupo LVMH, comprou ações para tomar a Gucci. De Sole reagiu e vendeu 40% da empresa a François Pinault, dono do grupo PPR. Em 2004, a PPR assumiu o controle inteiro, e Ford e De Sole deixaram a casa.

 

Os tiros da Via Palestro acertaram o último Gucci no ano em que a marca voltou às vitrines do mundo sem nenhum Gucci no comando.

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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III  A Lição

O freio na vitrine

 
 

Guccio Gucci fundou uma casa de família, e a família quase a afundou. A marca sobreviveu porque as peças desenhadas por ele e pelos filhos continuaram a vender depois da partida de todos os Gucci.

Em 2013, a PPR trocou de nome e virou Kering, grupo francês dono também da Saint Laurent e da Bottega Veneta. A Gucci é a maior marca do grupo e segue com sede em Florença.

O mocassim com freio de 1953 continua no catálogo. Em 1985, entrou para a coleção permanente do MoMA, o museu de arte moderna de Manhattan. A Bamboo de 1947 voltou às vitrines em versões novas, com a alça de bambu ainda dobrada a fogo por artesãos da Toscana.

Em Florença, no Palazzo della Mercanzia, na Piazza della Signoria, a marca abriu em 2011 um museu com bolsas, malas e documentos do arquivo da casa.

O livro da família

Em 2000, Sara Gay Forden, correspondente em Milão do Women's Wear Daily (diário americano do comércio da moda), publicou The House of Gucci. O livro virou filme em 2021, dirigido por Ridley Scott.

 

“A qualidade é lembrada muito depois de o preço ser esquecido.” Lema atribuído a Aldo Gucci, citado por Sara Gay Forden em The House of Gucci, 2000.

 

Três lições da casa Gucci

Três lições da família servem a quem herda ou divide um negócio:

1. Escrever a regra da sucessão antes do enterro. A partilha de 1953 deixou três irmãos sem chefe e com poder igual de veto.

2. Resolver a briga em casa, longe do fisco. A denúncia de Paolo levou o pai à prisão e enfraqueceu a família diante do banco.

3. Pôr o produto acima do sobrenome. A Bamboo e o mocassim sobreviveram aos herdeiros porque ninguém mexeu no desenho.

 

A família perdeu a empresa em 1993, e as peças de 1947 e de 1953 seguem à venda com o sobrenome de Guccio na etiqueta.

 

Os fatos centrais desta edição vêm de The House of Gucci, de Sara Gay Forden, publicado pela William Morrow em 2000, e da cobertura do julgamento de Patrizia Reggiani em Milão, em 1998.

O carregador que subia baús alheios no saguão do Savoy assina hoje as malas do grupo Kering, vendidas no mundo inteiro com as iniciais dele e sem nenhum Gucci na diretoria.

 
 
Quiz da edição

Quem entregou às autoridades americanas os papéis sobre as contas de Aldo Gucci, levando-o à condenação por sonegação em 1986?

APaolo Gucci, filho de Aldo e desenhista da casa
BMaurizio Gucci, neto do fundador
CRodolfo Gucci, irmão de Aldo
DPatrizia Reggiani, ex-mulher de Maurizio

Resultado da última edição: 40% acertaram.

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