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O Capuz de Garrett Morgan

Pagou um ator branco para vender o capuz que inventou e desceu ele mesmo num túnel cheio de gás sob o lago Erie.

Homem de capuz de lona com tubo comprido na entrada de um túnel escuro sob o lago Erie, 1916.

Túnel do lago Erie, Cleveland, 1916

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4 de março de 1877: nasce Garrett Augustus Morgan em Claysville, no Kentucky, sétimo de onze filhos de Sydney e Elizabeth Reed Morgan. Os dois pais tinham nascido escravizados.

1891: aos 14 anos, com o sexto ano completo, o máximo que a escola rural oferecia, sai de casa para Cincinnati, em Ohio. Trabalha como faz-tudo numa casa de família e paga, com o salário, aulas particulares de gramática.

1895: chega a Cleveland, cidade de fábricas na margem do lago Erie. Arruma emprego consertando máquinas de costura numa confecção e aprende cada modelo pelo avesso, peça por peça, desmontando no balcão o que os outros mecânicos desistiam de abrir.

1907: abre a própria oficina de conserto. 1908: casa com Mary Anne Hassek, costureira nascida na Boêmia. 1909: o casal monta um ateliê de alfaiataria com 32 funcionários, que costura casacos e vestidos para clientes brancos do centro da cidade.

1910: testando um líquido para lubrificar agulhas, Morgan repara que ele alisa a fibra de um pano de lã. Experimenta no pelo de um cachorro, depois no próprio cabelo, e funda a G. A. Morgan Hair Refining Company, que vende o creme alisante a barbearias da cidade.

1912: começa a desenhar um capuz de lona com um tubo comprido que desce até o chão, onde a fumaça de um incêndio fica mais rala. Na ponta do tubo, uma esponja molhada segura a fuligem.

1914: recebe a patente americana número 1.113.675, registrada como dispositivo de respiração. No mesmo ano, o capuz leva medalha de ouro numa exposição de segurança e saneamento em Nova York, e bombeiros de várias cidades pedem amostras pelo correio.

Aos 37 anos, Morgan tinha a patente, a medalha e uma empresa pronta para fabricar. Faltava o rosto para vender o capuz aos chefes de bombeiros, e o dele, descobriria logo, fechava a porta de metade dos compradores.

 

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I  A Queda

O ator na tenda

 
 

A resposta de ontem

Quantos gols Puskás marcou pela seleção da Hungria?

84 gols. Entre 1945 e 1956, Ferenc Puskás vestiu a camisa da Hungria em 85 partidas e marcou 84 vezes, quase um gol por jogo, pela contagem da RSSSF (Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation). Depois, naturalizado espanhol, fez quatro jogos pela Espanha e não marcou nenhum.

Garrett Augustus Morgan fundou em 1914 a National Safety Device Company, a Companhia Nacional de Aparelhos de Segurança, para fabricar o capuz. Os acionistas eram empresários brancos de Cleveland. Ele ficou com o cargo de gerente geral e com a parte mais difícil: vender.

O método de venda era a demonstração. Montava-se uma tenda de lona fechada numa praça, e dentro dela se queimava piche, enxofre, formol e esterco até a fumaça ficar preta e ácida.

Um homem de capuz entrava na tenda e ficava lá dentro por vinte minutos. Saía andando, tirava a lona da cabeça e respirava normalmente diante dos bombeiros da cidade.

 

“Fornecer um acessório portátil que permita a um bombeiro entrar numa casa cheia de gases espessos e sufocantes e de fumaça, e respirar livremente ali por algum tempo.” Garrett A. Morgan, patente americana 1.113.675, 1914.

 

O disfarce de Big Chief Mason

Morgan sabia o que acontecia quando o inventor aparecia em pessoa. Nas cidades do Sul, onde vigoravam as leis Jim Crow (o conjunto de leis estaduais de segregação racial), um chefe de bombeiros não assinava contrato com um homem negro.

A solução foi dividir o papel em dois. Morgan contratou um ator branco, de terno, para se apresentar como o inventor, explicar o aparelho e apertar a mão dos compradores.

Ele mesmo entrava na tenda. Para isso, vestia uma fantasia de indígena e se apresentava como Big Chief Mason (Grande Chefe Mason), um assistente inventado na hora. Era o homem dentro da fumaça, o único que conhecia o capuz por dentro.

O truque funcionou por dois anos. Cidades de Ohio, de Nova York e do Sul compraram capuzes, e a fábrica cresceu com as encomendas.

Nas fotos de divulgação daquele período, quem aparece ao lado do aparelho é o ator. O inventor, quando aparece, está de capuz na cabeça, sem rosto à vista.

Os pedidos devolvidos

O disfarce tinha um ponto fraco: a imprensa. Quando jornais publicaram a fotografia do verdadeiro inventor, encomendas começaram a voltar.

Departamentos de bombeiros do Sul cancelaram pedidos já fechados. O aparelho era o mesmo, testado nas mesmas tendas, com a mesma patente. Mudou apenas a cor da pele de quem assinava a invenção.

Morgan não processou ninguém e não escreveu carta aos jornais. Continuou fabricando, vendendo no Norte e guardando capuzes no depósito da empresa, em Cleveland.

A esposa, Mary Anne, cuidava do ateliê de costura e da contabilidade da casa. O creme alisante seguia pagando as contas enquanto o capuz esperava compradores dispostos a olhar só para o aparelho.

 

Garrett Morgan inventou um aparelho para respirar dentro da fumaça e precisou se esconder atrás de um ator para conseguir vendê-lo.

 
 
 
 

II  O Triunfo

A noite do túnel 5

 
 

Cleveland bebia água do lago Erie. Para buscá-la longe da sujeira da margem, a prefeitura cavava túneis sob o fundo do lago até torres de captação no meio da água, chamadas de cribs (as torres de tomada d'água).

Em 24 de julho de 1916, por volta das dez da noite, uma bolsa de gás natural explodiu dentro do túnel em construção da torre número 5. Os operários que trabalhavam lá embaixo ficaram presos no escuro, com o ar envenenado.

Equipes de resgate desceram atrás deles. Várias não voltaram: o gás derrubava os homens em minutos, antes que alcançassem os colegas caídos.

O inventor de pijama

Alguém lembrou do homem dos capuzes. De madrugada, mensageiros bateram na casa de Garrett Morgan, que saiu ainda de pijama com o irmão, Frank Morgan, e uma carga de capuzes no carro.

Os dois vestiram o aparelho e desceram no túnel com voluntários. Lá embaixo, carregaram nas costas os homens caídos, um por vez, até o elevador.

O capuz funcionava do jeito previsto na patente. O tubo pendia até perto do chão do túnel, onde o ar ainda trazia algum oxigênio, e a esponja molhada segurava parte da poeira levantada pela explosão.

Os relatos da época divergem na contagem exata. O que todos registram: Morgan e o grupo tiraram com vida pelo menos dois operários e trouxeram para cima corpos que, sem o capuz, ninguém mais conseguiria buscar. O desastre deixou cerca de vinte vítimas, entre trabalhadores e socorristas.

Morgan desceu várias vezes. Os gases do túnel o afetaram pelo resto da vida, com crises que voltavam anos depois.

A medalha dos vizinhos

Os primeiros jornais deram crédito a outros homens do resgate. A medalha oficial de bravura do Carnegie Hero Fund, fundo americano criado para premiar heróis civis, não chegou até ele, e Morgan atribuiu a recusa à cor da pele.

Moradores de Cleveland agiram por conta própria. Juntaram dinheiro e entregaram a ele uma medalha de ouro cravejada de diamantes, com o título de cidadão mais valente da cidade.

A notícia do resgate também fez o capuz chegar a bombeiros e mineradoras de vários estados. A demonstração mais convincente da invenção tinha acontecido sem tenda, sem ator e sem fantasia.

 

No túnel sob o lago Erie, o inventor escondido atrás de um ator desceu de rosto próprio e trouxe homens vivos.

 
 
 
 
 

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III  A Lição

O sinal de três posições

 
 

Garrett Morgan seguiu inventando. Em 1920, fundou o jornal Cleveland Call, voltado aos leitores negros da cidade, que depois se fundiu a outro título e virou o Call and Post, publicado até hoje.

Comprou um carro e começou a dirigir pelas ruas de Cleveland, onde carroças, bondes e automóveis disputavam os cruzamentos. Depois de ver um acidente grave numa esquina, desenhou um sinal de trânsito com uma terceira posição.

Os sinais da época tinham só duas ordens, pare e siga, e trocavam de uma para a outra sem intervalo. O de Morgan acrescentava um braço que parava todas as direções ao mesmo tempo, para o cruzamento esvaziar antes da troca.

A patente americana número 1.475.024 saiu em 1923. Morgan vendeu os direitos à General Electric e comprou uma fazenda em Wakeman, Ohio, onde abriu um clube para a comunidade negra.

Versões do sinal com fase de parada geral se espalharam pelas cidades americanas nas décadas seguintes. A luz amarela dos semáforos atuais cumpre a mesma função de esvaziar o cruzamento, embora venha de outros inventores e outras patentes.

O que o capuz ensina

A trajetória deixa três passos para quem tem o produto certo e encontra a porta fechada:

1. Separar o produto da porta. Morgan não mudou o capuz para agradar ao comprador; mudou só quem o apresentava.

2. Guardar a prova. A patente de 1914 e a medalha de Nova York registraram a autoria de Morgan antes de qualquer disfarce.

3. Estar pronto no dia do teste. Os capuzes estavam no depósito, à mão, na madrugada em que Cleveland precisou deles.

 

A autoria escondida na tenda voltou ao inventor quando ele próprio desceu no túnel, diante da cidade inteira.

 

Em 1943, Morgan perdeu quase toda a visão por glaucoma. Faleceu em Cleveland em 27 de agosto de 1963, aos 86 anos, e está enterrado no cemitério Lake View, na mesma cidade. Os papéis dele estão na Western Reserve Historical Society, e a Encyclopedia of Cleveland History reúne as datas desta história.

Desde 1991, a estação de tratamento que capta a água do lago Erie para Cleveland, por túneis sob o fundo do lago iguais ao da torre 5, leva o nome Garrett A. Morgan. O sinal de três posições rendeu mais dinheiro a ele do que o capuz.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quanto a General Electric pagou a Garrett Morgan pela patente do semáforo?

 
 
Quiz da edição

No esquema de vendas do capuz contra fumaça, criado por Garrett Morgan em 1914, qual disfarce ele usava para entrar na tenda de demonstração enquanto um ator branco se apresentava aos compradores como o inventor?

AUniforme de bombeiro, apresentando-se como engenheiro da empresa
BFantasia de indígena, apresentando-se como Big Chief Mason
CMáscara de médico, apresentando-se como assistente de laboratório
DTerno escuro, apresentando-se como representante da General Electric

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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