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I A Queda
A sujeira que voltava
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Susan Jocelyn Bell, que assinaria Jocelyn Bell Burnell depois do casamento em 1968, voltou ao traço semanas depois e notou o detalhe decisivo: a sujeira reaparecia no mesmo trecho do céu, 4 minutos mais cedo a cada dia. É o ritmo das estrelas, que nascem 4 minutos antes a cada noite. Interferência de carro, radar ou geladeira segue o relógio humano.
Antony Hewish apostou em interferência terrestre. A estudante insistiu e pediu um registrador rápido, capaz de esticar o sinal no papel. Durante semanas, ia ao campo no horário em que a fonte passava, e a fonte não aparecia.
28 de novembro de 1967: o sinal voltou com o papel correndo depressa, e o traço se abriu numa fila de pulsos separados por 1,33 segundo, regulares como um metrônomo. Nenhum objeto natural conhecido piscava assim.
O grupo apelidou a fonte, meio de brincadeira, de LGM-1, sigla de Little Green Men (homenzinhos verdes). Hewish chegou a medir se o ritmo variava como variaria um transmissor num planeta em órbita. Não variava.
O segundo sinal de dezembro
Na noite de 21 de dezembro de 1967, antes de viajar para o Natal, Bell foi ao laboratório analisar outro rolo e achou um segundo traço parecido, numa região distante do céu, perto da constelação de Cassiopeia. O frio travava o receptor; ela contou depois que soprou e xingou o aparelho até ele funcionar.
Dois sinais iguais em pontos afastados do céu descartavam os homenzinhos verdes. Era um fenômeno da natureza, e ninguém sabia qual.
24 de fevereiro de 1968: a revista Nature publicou o artigo Observation of a Rapidly Pulsating Radio Source (Observação de uma Fonte de Rádio de Pulsação Rápida). Hewish assinou em primeiro lugar, Bell em segundo, ao lado de mais três colegas. Meses depois, o astrofísico Thomas Gold propôs a explicação aceita: uma estrela de nêutrons, o caroço de uma estrela que explodiu, girando e varrendo a Terra com um feixe de rádio, como um farol.
O telefone dos jornais
A imprensa chegou a Cambridge. Os repórteres perguntavam a Hewish sobre astrofísica e a Bell sobre altura, medidas e cor do cabelo, e se ela era mais alta do que a princesa Margaret. Os fotógrafos a puseram sentada fingindo analisar gráficos para a câmera.
Ela defendeu o doutorado em 1969. Em 1974, a Academia Real das Ciências da Suécia deu o Nobel de Física a Antony Hewish, pelo papel decisivo na descoberta dos pulsares, e a Martin Ryle, pela radioastronomia. Bell ficou fora da citação.
O astrônomo Fred Hoyle protestou em público e falou em escândalo. Ela, aos 31 anos, recusou o papel de vítima e escreveu a própria leitura do caso.
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“Acredito que rebaixaria os Prêmios Nobel se eles fossem dados a estudantes de pesquisa, exceto em casos muito excepcionais, e não creio que este seja um deles.” Jocelyn Bell Burnell, Petit Four, Annals of the New York Academy of Sciences, 1977. |
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Um traço de 6 milímetros revelou uma classe nova de estrela, e o Nobel foi para o orientador. |
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II O Triunfo
Meio período, física inteira
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Jocelyn Bell Burnell casou em 1968 com Martin Burnell, funcionário do governo local, e na Inglaterra daquele tempo a mulher casada largava o emprego ou acompanhava o marido. Ela acompanhou, e trocou de área de pesquisa a cada mudança de cidade.
Em Southampton, trabalhou com astronomia de raios gama, a luz de energia mais alta do universo. Em Londres, no Mullard Space Science Laboratory (Laboratório Mullard de Ciência Espacial), passou aos raios X. Em Edimburgo, no Observatório Real, cuidou do telescópio James Clerk Maxwell, de ondas milimétricas, instalado no Havaí.
Em 1973 nasceu o filho, Gavin, e ela ficou anos em meio período, num tempo sem creche no trabalho. Contou depois que, a cada emprego novo, chegava como novata, sem a rede de colegas que os homens da geração dela levavam de um posto ao seguinte.
A cátedra na Open University
1991: assume a cátedra de física da Open University, a universidade britânica de ensino a distância. Mulher titular de física no Reino Unido era raridade contada nos dedos, e ela começou a ouvir jovens pesquisadoras com histórias parecidas com a dela.
Os títulos vieram aos poucos. Recebeu a medalha Herschel da Royal Astronomical Society (Sociedade Astronômica Real) em 1989, foi nomeada Dama do Império Britânico em 2007, presidiu o Institute of Physics (Instituto de Física) de 2008 a 2010 e, em 2014, virou a primeira mulher a presidir a Royal Society of Edinburgh (Sociedade Real de Edimburgo).
Os 3 milhões de 2018
6 de setembro de 2018: a fundação do Breakthrough Prize, financiada por empresários da tecnologia, anunciou para ela um prêmio especial de física fundamental, de 3 milhões de dólares, pela descoberta dos pulsares e por uma carreira de liderança científica. O valor superava o do Nobel daquele ano.
Ela doou a quantia inteira ao Instituto de Física, para criar o Bell Burnell Graduate Scholarship Fund (fundo de bolsas de doutorado Bell Burnell). As bolsas pagam doutorado em física para mulheres, minorias étnicas e estudantes refugiados.
A justificativa dela foi prática. Disse que não precisava do dinheiro e que percebeu o traço de 1967 em parte por ser forasteira em Cambridge: mulher, norte-irlandesa, quacre, com medo de ser mandada embora e, na dúvida, checando cada centímetro de papel.
Gente de fora, no raciocínio dela, enxerga o que o grupo de dentro já parou de olhar. O fundo existe para pôr mais gente assim na sala.
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Quarenta e quatro anos depois do Nobel, Jocelyn Bell Burnell ganhou um prêmio maior e entregou cada dólar a quem chega de fora. |
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