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Queda e Triunfo   Queda e Triunfo
ED 107

O Ateliê do Engenho de Dentro

Nise da Silveira foi presa em 1936 pelos livros da própria estante e ficou oito anos fora do serviço público antes de reabrir uma sala.

Ateliê de pintura do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, 1946

Rio, 1946: o ateliê do Engenho de Dentro

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1936, Rio de Janeiro. Uma médica de trinta e um anos, funcionária do Hospital da Praia Vermelha, é denunciada por uma enfermeira da pensão onde mora. A acusação não trata de conduta profissional nem de paciente atendido: trata dos livros da estante dela. Havia obras marxistas na prateleira, e no clima do Estado Novo em formação a prateleira bastava.

Ainda em 1936: ela é levada presa e passa por celas do presídio da rua Frei Caneca. Entre os detidos daquele ano estão Graciliano Ramos, Olga Benário e Carlos Marighella. A médica cumpre mais de um ano de detenção sem julgamento por crime nenhum e sai em 1937 com um carimbo administrativo que vale mais que a sentença que não veio: demissão do serviço público.

1937 a 1944: sete anos e pouco fora de qualquer hospital do Estado. Ela vive de trabalho clínico avulso, troca de endereço várias vezes, e passa um período na clandestinidade enquanto o marido, também médico, responde por processo político. Não há laboratório, não há enfermaria, não há equipe. A psiquiatra formada na Bahia em 1926 fica quase uma década sem exercer psiquiatria pública.

1944: com a anistia, ela é reintegrada e volta ao serviço. O cargo que recebe não é prêmio de retorno. É o resto que sobrou depois de oito anos de ausência.

1946: chega ao Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, subúrbio do Rio. Encontra um hospital que trata psicose com eletrochoque, choque insulínico e lobotomia, e recebe a chefia da seção mais desprezada do prédio, a Terapêutica Ocupacional, a sala onde os internos varriam corredor e costuravam saco.

Ela pede tinta, papel, pincel e argila. Sete anos depois, imagens produzidas naquela sala estão numa exposição de museu de arte. Onze anos depois, estão penduradas num congresso internacional na Suíça a convite de Carl Gustav Jung.

Entre a estante confiscada e a parede do museu existem vinte e um anos, uma demissão e um posto que ninguém queria. A história começa numa cidade de Alagoas, com a filha única de um professor de matemática.

 

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I  A Queda

A prateleira que virou processo

 
 

15 de fevereiro de 1905: Nise Magalhães da Silveira nasce em Maceió, filha única de um professor de matemática e jornalista e de uma pianista. Estuda no colégio das irmãs em Alagoas e termina o secundário decidida a cursar medicina, o que na época significava sair do estado.

1921: aos dezesseis anos, entra na Faculdade de Medicina da Bahia. Forma-se em 1926, aos vinte e um, única mulher numa turma de mais de uma centena de formandos. A tese de conclusão dela trata de sintomas psíquicos em doença física, assunto que já apontava para onde a carreira iria.

1927: casa com o médico Mário Magalhães da Silveira, sanitarista, e o casal se muda para o Rio de Janeiro. Ela presta concurso e entra como psiquiatra no Hospital da Praia Vermelha, o hospício central da capital federal.

1936: a denúncia da enfermeira da pensão chega à polícia política. O material apreendido são livros. Ela é presa e responde ao processo do período que se seguiu ao levante comunista do ano anterior.

 

Nenhum ato profissional dela entrou na acusação. O que entrou foram os títulos de uma estante particular.

 

A prisão durou mais de um ano. Graciliano Ramos, detido no mesmo circuito de presídios, registrou a passagem dela nas páginas do livro que escreveu depois sobre aquela experiência.

 

Nise da Silveira, alagoana, senhora de rosto agradável, olhos claros e boca fina, falava com sensatez e brandura.

Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere, 1953

 

O que veio depois da soltura pesou mais que a cela. Demitida do serviço público, ela ficou impedida de ocupar qualquer posto oficial. Sem hospital, sem enfermaria, sem residente, sem verba de material. A prática de psiquiatria, que depende de instituição para existir, secou.

Foram oito anos assim. Parte deles na clandestinidade, com o casal escondido em casa de amigos enquanto a repressão do Estado Novo apertava sobre médicos ligados à esquerda. Ela leu, traduziu, acompanhou casos particulares e envelheceu dos trinta e um aos trinta e nove anos fora do lugar onde tinha aprendido a trabalhar.

O prejuízo técnico foi tão concreto quanto o financeiro. Psiquiatria daquele período se aprendia na enfermaria, com paciente acompanhado por meses e caso discutido em equipe. Quem ficava fora perdia a série inteira de observação e voltava sem repertório clínico acumulado, atrás de colegas que nunca tinham parado.

Quando a anistia veio, em 1944, ela reentrou no serviço público como quem recomeça do primeiro degrau. A colega de turma de 1926 já era chefia em outros hospitais. Ela era uma reintegrada com currículo interrompido, e recebeu a destinação que ninguém disputava.

 
 
 
 

II  O Triunfo

A sala onde se pedia tinta

 
 

1946: o Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, tinha centenas de internos e um arsenal terapêutico feito de choque e cirurgia. Ela recusou aplicar eletrochoque e recusou encaminhar paciente para lobotomia, e por causa da recusa foi remanejada para a Terapêutica Ocupacional, uma seção de faxina e costura tida como castigo dentro do hospital.

Ela transformou a seção. Abriu ateliês de pintura, modelagem, marcenaria, encadernação e tapeçaria, contratou monitores que não eram médicos e mandou tirar o corretivo do meio: nada de tema imposto, nada de correção técnica, nada de nota. O interno recebia o material e pintava o que quisesse, pelo tempo que quisesse.

O ateliê de pintura ficou sob a monitoria do jovem artista Almir Mavignier, que trouxe para dentro do hospital a atenção do circuito de arte do Rio. Foi por ele que o crítico Mário Pedrosa e os artistas Abraham Palatnik e Ivan Serpa entraram naquela sala e passaram a olhar as telas como obra, não como sintoma.

Ela guardou tudo. Cada folha, cada tela, cada peça de argila foi datada, catalogada e arquivada, inclusive o rabisco repetido e a série que parecia idêntica à do dia anterior, porque a repetição era justamente o que revelava o processo interno de quem produzia.

 

A seção destinada a ocupar as mãos dos internos virou o maior arquivo de produção plástica de pacientes psiquiátricos do país.

 

1947: a mostra dos trabalhos sai do hospital. 1949: o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro abre a exposição Nove Artistas de Engenho de Dentro, organizada com Mário Pedrosa, e a crítica de arte da capital discute Emygdio de Barros, Adelina Gomes, Raphael Domingues e Carlos Pertuis pelo que pintaram.

20 de maio de 1952: ela funda no próprio Engenho de Dentro o Museu de Imagens do Inconsciente, com acervo, ficha de catalogação e sala de estudo. Hoje o museu contabiliza cerca de trezentas e cinquenta mil obras guardadas, número que a própria instituição divulga em seus levantamentos de acervo.

1954: ela envia imagens do acervo para Carl Gustav Jung, em Zurique, e começa uma correspondência sobre os símbolos que reapareciam nas séries. 1957: Jung a convida a levar o material ao Segundo Congresso Internacional de Psiquiatria, na Suíça, onde ela apresenta a exposição e conhece o psiquiatra pessoalmente.

Ela nunca chamou aquelas peças de arte de louco nem de curiosidade clínica. Tratou cada série como material de estudo sobre o funcionamento da mente, escreveu sobre os símbolos que voltavam nas telas de um mesmo autor ao longo de anos e formou uma geração de pesquisadores dentro do próprio museu.

1956: funda a Casa das Palmeiras, clínica de atendimento em regime aberto para quem saía de internação, criada para que ninguém precisasse voltar ao hospital por falta de lugar onde ser recebido. Trabalhou no Engenho de Dentro até 1974 e seguiu ativa em pesquisa e ensino até 1999, aos noventa e quatro anos.

 

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III  A Lição

A ficha de catalogação

 
 

A leitura fácil dessa história diz que o talento sempre acha caminho. A leitura honesta diz outra: os oito anos fora do serviço público foram perda seca, e nada os compensou. Ela não escolheu o exílio profissional, não o transformou em sabática e não saiu de lá melhor do que entrou.

O que mudou foi o que ela fez com o pior posto do hospital quando finalmente teve um. Recebeu a seção de castigo e tratou aquela sala como laboratório, não como punição cumprida.

 

Ela não conseguiu escolher o cargo que recebeu, mas escolheu integralmente o que entrava naquela sala.

 

Vale registrar o custo. Mais de um ano preso, demissão, clandestinidade, oito anos sem enfermaria e um retorno pelo degrau mais baixo. Também vale registrar o atrito posterior: a instituição resistiu ao método dela por décadas, o eletrochoque continuou sendo aplicado no mesmo prédio, e o reconhecimento acadêmico só chegou quando o museu já tinha milhares de peças arquivadas.

Três movimentos separam quem reconstrói de quem apenas espera a vaga voltar:

 
1Aceite o posto pequeno sem aceitar a definição dele. A Terapêutica Ocupacional era faxina supervisionada até ela redefinir o que se fazia lá dentro, sem pedir autorização para mudar o conteúdo do trabalho.
2Catalogue o que os outros descartam. Ela datou e arquivou a produção diária dos internos quando ninguém no hospital via valor naquilo, e foi esse arquivo que sustentou tudo o que veio depois.
3Deixe entrar quem enxerga do lado de fora. Ao abrir a sala para artistas e críticos, ela conseguiu que o trabalho fosse julgado por outro critério que não o do prontuário.
 

A sala da Terapêutica Ocupacional do Engenho de Dentro continua aberta ao público, agora com o nome de Museu de Imagens do Inconsciente, no mesmo endereço do Rio de Janeiro, e cada peça exposta ali carrega a ficha de catalogação com data e nome do autor, do jeito que ela mandou preencher em 1946.

 

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