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O Arco de Abebe Bikila
Dois ouros olímpicos na maratona, um carro capotado em 1969 e a volta à competição sentado, com arco e flecha na mão.
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Stoke Mandeville, Inglaterra, 1970
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7 de agosto de 1932: nasce em Jato, aldeia da província de Shewa, na Etiópia, Abebe Bikila, filho de um pastor de ovelhas. Cresce correndo atrás do rebanho nos planaltos, a mais de 2 mil metros de altitude.
1952: muda para Adis Abeba e entra na Guarda Imperial, a tropa que protege o imperador Haile Selassie. Faz corridas longas de treino entre o quartel e as colinas da capital.
1956: vê passar pela cidade os atletas etíopes que voltam da Olimpíada de Melbourne e decide que quer correr como eles.
1959: começa a treinar com o sueco Onni Niskanen, contratado pelo governo para preparar os fundistas (corredores de longa distância) do país.
10 de setembro de 1960: corre a maratona olímpica de Roma descalço, à noite, iluminado por tochas. Cruza a chegada sob o Arco de Constantino, monumento de mármore do século IV, em 2 horas, 15 minutos e 16 segundos. É o primeiro africano negro campeão olímpico.
21 de outubro de 1964: em Tóquio, agora de tênis, vence de novo, em 2 horas, 12 minutos e 11 segundos, seis semanas depois de operar o apêndice. Ninguém tinha ganhado duas maratonas olímpicas. Depois da chegada, ainda faz alongamentos no gramado, diante de um estádio que esperava vê-lo exausto.
1968: na Cidade do México, abandona a prova perto do quilômetro 17, com uma fratura no perônio (o osso fino da perna).
Aos 36 anos, o soldado mais famoso da África tem duas medalhas de ouro, um posto de capitão na Guarda e um Fusca de presente do imperador.
Na noite de 22 de março de 1969, ele dirige esse Fusca numa estrada de terra perto de Sheno, a cerca de 70 quilômetros ao norte da capital, voltando sozinho para casa. O carro sai da pista e capota.
Para entender o que sobrou do corpo que venceu duas maratonas, é preciso abrir o prontuário daquela madrugada.
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I A Queda
A estrada de Sheno
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Abebe Bikila é encontrado preso nas ferragens do Fusca na manhã seguinte ao acidente, depois de horas caído numa vala, sem conseguir sair do carro. Os relatos falam de chuva, de pista ruim e de um veículo que vinha no sentido contrário. A causa exata nunca foi esclarecida: não houve perícia pública.
Os médicos de Adis Abeba encontram uma lesão grave na coluna, na altura do pescoço. Nos primeiros dias, ele mal mexe os braços. O diagnóstico da época fala em tetraplegia (perda de movimento nos quatro membros).
O imperador Haile Selassie manda transferi-lo para a Inglaterra. O destino é o Hospital Stoke Mandeville, em Aylesbury, a uma hora de Londres, o centro mais conhecido do mundo no tratamento de lesão de medula.
Ali trabalha o neurologista alemão Ludwig Guttmann, que fugiu do nazismo em 1939 e mudou o tratamento dos lesados de coluna na Inglaterra. Até a década de 1940, a maioria desses pacientes não passava de dois anos de vida. Guttmann trocou o leito parado por exercício, banho, trabalho e esporte.
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Em março de 1969, Abebe Bikila, bicampeão olímpico da maratona, chega a Stoke Mandeville sem mexer as pernas e com os braços fracos. |
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Os meses no hospital recuperam parte do que o acidente levou. Os braços voltam a ter força. As pernas, não. O laudo final é paraplegia (perda de movimento das pernas, com os braços preservados).
Para um maratonista, a sentença tem um peso particular. As pernas que o tinham levado por 42 quilômetros pelas ruas de Roma, sem sapato, nunca mais sustentariam o próprio peso.
Os médicos explicam a ele que a medula espinhal, quando lesionada daquela forma, não se regenera. A fisioterapia devolve força aos músculos que ainda recebem sinal do cérebro. O resto fica parado.
Os visitantes contam um homem calado e educado, que agradece as enfermeiras e não fala do acidente. O jornalista Tim Judah, que entrevistou parentes e colegas dele, descreve no livro Bikila: Ethiopia's Barefoot Olympian, de 2008, um paciente que aceitava a fisioterapia sem reclamar e que ficava longos períodos em silêncio.
Ele tem 36 anos, mulher e quatro filhos em Adis Abeba, e um salário de capitão que depende do favor do imperador.
Em Adis Abeba, o país acompanha as notícias pelo rádio. O capitão da Guarda Imperial, que tinha voltado de Tóquio desfilando em carro aberto pela capital, agora depende de ajuda para se vestir.
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II O Triunfo
Sentado diante do alvo
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No método de Ludwig Guttmann, o esporte é remédio. Os pacientes de Stoke Mandeville jogam basquete em cadeira de rodas, nadam, lançam dardo e atiram com arco e flecha. Em 1948, ele organizou ali os Jogos de Stoke Mandeville, uma competição entre pacientes que cresceu até virar a origem dos Jogos Paralímpicos.
O arco é a porta de entrada mais comum. Exige braço, tronco e concentração, e o atleta compete sentado, na mesma linha de tiro que qualquer outro.
O alvo fica a dezenas de metros. O atirador precisa manter o tronco firme na cadeira, puxar a corda até o queixo e soltar sem tremer o pulso. Para quem perdeu as pernas, o tronco vira a base inteira do tiro, e o treino começa por aprender a se equilibrar sentado.
Abebe Bikila começa a treinar no arco ainda internado. Puxa a corda, segura o fôlego e solta. O homem que vencia pela resistência das pernas aprende uma prova decidida pela imobilidade.
Onni Niskanen, o treinador sueco de Roma e Tóquio, visita o antigo atleta na Inglaterra. Os dois tinham passado uma década contando quilômetros. Agora contam flechas no centro do alvo.
Em julho de 1970, cerca de 16 meses depois do acidente, ele entra na lista de competidores dos Jogos Internacionais de Stoke Mandeville. Disputa o arco e flecha e o tênis de mesa, de cadeira de rodas, com atletas de dezenas de países.
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Em julho de 1970, o bicampeão olímpico da maratona volta a usar número de competidor, sentado, com um arco na mão. |
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Ele não sobe ao pódio no arco: não há registro de medalha dele naquela edição. A presença basta para virar notícia na imprensa inglesa, que acompanha o etíope de cadeira de rodas mirando o alvo.
Em 1971, ele vai à Noruega para uma competição de inverno para atletas com deficiência e vence uma prova de trenó na neve. Segundo Tim Judah, ele disse aos organizadores que os homens de sucesso conhecem a tragédia, e que tinha aceitado as duas como vontade de Deus.
Ainda em 1971, volta à Etiópia. Recebe a visita de fãs, de jornalistas estrangeiros e de jovens corredores que querem conhecer o campeão de Roma. Em 1972, viaja como convidado à Olimpíada de Munique e é aplaudido de pé pelo estádio ao ser anunciado.
Não voltou a andar. Voltou a competir, e o estádio de Munique aplaudiu o competidor.
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