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50% escolheram Chiquinha Gonzaga em 1876. Sai em 03/10.
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O Advogado Que Pediu a Lei dos Animais
Católico e anticomunista, ele defendeu os comunistas de graça em 1937, foi preso em 1968 e subiu ao palanque das Diretas aos 90 anos.
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Rio de Janeiro, Tribunal de Segurança Nacional, 1937
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1893: nasce em Barbacena, Minas Gerais, Heráclito Fontoura Sobral Pinto, filho de um funcionário da estrada de ferro. Estuda com os padres jesuítas e sai da escola católico praticante, de missa diária, para a vida inteira.
1917: forma-se em direito no Rio de Janeiro, então capital da República. Nos anos 1920, trabalha como procurador (o advogado que acusa em nome do Estado) e depois abre banca própria no centro da cidade.
Anos 1920 e 1930: escreve para a imprensa católica e frequenta o Centro Dom Vital, o círculo de intelectuais que defende a Igreja contra o avanço das ideias de esquerda. Considera o comunismo um erro moral e escreve a condenação em artigos assinados.
10 de julho de 1934: o governo de Getúlio Vargas assina o Decreto 24.645, que proíbe maus-tratos a animais. Manter um bicho em lugar sem ar, sem luz ou sem descanso passa a ser crime. Poucos advogados leem o texto.
Novembro de 1935: militares ligados à Aliança Nacional Libertadora, frente de esquerda posta na ilegalidade meses antes, se levantam em Natal, Recife e no Rio. O governo esmaga o levante em poucos dias e usa o episódio para prender milhares de pessoas.
Dezembro de 1935: a polícia prende no Rio o alemão Arthur Ernst Ewert, que usava o nome falso de Harry Berger, enviado da Internacional Comunista para ajudar a organizar o levante. A mulher dele, Elise Ewert, é presa junto.
Março de 1936: cai o chefe do movimento, Luís Carlos Prestes, com a companheira alemã Olga Benário. Em setembro, Olga e Elise são embarcadas para a Alemanha de Hitler. Nenhuma das duas volta.
Setembro de 1936: nasce o Tribunal de Segurança Nacional, corte especial para julgar crimes políticos. Os réus do levante precisam de defensor, e quase nenhum advogado do Rio aceita o nome deles na procuração.
A Ordem dos Advogados do Brasil vai procurar alguém que não possa ser acusado de simpatia pela causa.
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I A Queda
O católico na cela dos comunistas
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Em janeiro de 1937, a Ordem dos Advogados nomeia Heráclito Fontoura Sobral Pinto defensor dativo (o advogado indicado pela Ordem quando o réu não tem quem o defenda) de Luís Carlos Prestes e Harry Berger. Ele tem 43 anos, é o anticomunista mais conhecido da advocacia carioca e aceita no primeiro dia.
Não cobra nada. Nem dos réus, que não têm como pagar, nem do Estado. Nas cartas que manda a Prestes, deixa claro desde a primeira linha que discorda de tudo o que o cliente pensa e que vai defendê-lo mesmo assim.
Prestes, no começo, recusa o defensor. Desconfia de um advogado católico nomeado pelo mesmo regime que o prendeu e se nega a assinar os papéis. Sobral continua indo à prisão, continua escrevendo petições e continua pedindo para ver o réu.
Com Berger, a situação é pior. O alemão está trancado num vão de escada no quartel da Polícia Especial, no Rio. O espaço não permite ficar de pé. Não tem cama, janela nem luz natural, e os guardas não deixam o preso dormir.
Berger já tinha passado por sessões de tortura desde a prisão. Quando Sobral consegue vê-lo, encontra um homem que fala sozinho, não reconhece datas e perdeu peso a ponto de mudar de rosto.
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Em 1937, Sobral Pinto pede à Justiça que Harry Berger receba ao menos o tratamento que o Decreto 24.645, de 1934, garante a um cavalo ou a um cão. |
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O argumento é jurídico. O decreto proíbe manter animal em lugar sem ar, sem luz e sem espaço para se mover. O vão de escada viola cada item. Se a lei protege o bicho, diz a petição, o Estado não pode negar o mínimo a um homem que ainda nem foi julgado.
O pedido corre os jornais e envergonha o governo. Berger continua preso, mas a imprensa passa a contar a história da escada.
O custo chega rápido. Em 1937, colegas de tribunal e de igreja acusam Sobral de servir aos comunistas. Parte dos clientes pagantes some do escritório. Ele responde por carta que não defende a ideia do réu, defende o direito dele a um julgamento.
Em maio de 1937, o Tribunal de Segurança Nacional condena Prestes a 16 anos e 8 meses de prisão. Berger também recebe pena longa. Em novembro, Vargas fecha o Congresso e decreta o Estado Novo, a ditadura que dura até 1945.
Sobral segue recorrendo, perdendo e recorrendo de novo, agora contra uma ditadura com censura, e manda cartas ao próprio ministro da Justiça, Francisco Campos, cobrando o direito de defesa.
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II O Triunfo
De Goiânia à Candelária
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Em abril de 1945, com o fim do Estado Novo à vista, Vargas assina a anistia. Prestes sai da cadeia depois de nove anos e, semanas depois, sobe ao palanque para apoiar o homem que o prendeu. Sobral, que passou oito anos defendendo o preso, discorda de novo e diz em público.
Berger também é solto em 1945, mas a prisão levou a sanidade dele. Volta para a Alemanha e passa o resto da vida internado num hospital psiquiátrico da Alemanha Oriental, onde morre em 1959. Os meses no vão de escada deixaram marca que nenhuma anistia desfez.
Os anos passam, e o advogado que defendeu comunistas passa a defender quem o regime da vez persegue. Depois do golpe militar de 1964, a lista muda de lado: estudantes, jornalistas, políticos cassados, gente de esquerda e de direita.
Em 13 de dezembro de 1968, o governo do marechal Costa e Silva baixa o Ato Institucional nº 5, o AI-5, que suspende o habeas corpus (a ordem judicial que manda soltar quem está preso sem motivo legal) para crimes políticos e fecha o Congresso.
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Na madrugada seguinte, em Goiânia, onde tinha ido paraninfar uma turma de formandos em direito, Sobral Pinto é preso aos 75 anos e levado para um quartel. |
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Passa dias detido. Na versão que os biógrafos registram, um oficial tenta explicar a ele que o Brasil vive uma "democracia à brasileira". Sobral responde que conhece peru à brasileira, e que democracia não aceita adjetivo.
Solto, volta ao escritório no centro do Rio e continua pegando os casos que outros recusam. Durante a década de 1970, entra com pedidos a favor de presos políticos, denuncia a tortura nos quartéis e se recusa a aceitar os cargos que lhe oferecem para calar.
Em 1979, com 85 anos, ainda atende no mesmo escritório, e os presos que defende nessa década já não pensam como os de 1937: alguns são militantes armados, outros são ex-aliados do próprio regime caídos em desgraça. Ele não pergunta a ideologia de ninguém antes de assinar a procuração.
Naquele ano, publica o livro Por que defendo os comunistas, em que explica a própria regra: a defesa não depende da opinião do advogado sobre o réu.
Em 10 de abril de 1984, cerca de 1 milhão de pessoas lotam a Candelária, no Rio, para pedir eleição direta para presidente. No palanque sobe um homem de 90 anos, curvado, de terno escuro. Sobral Pinto lê em voz alta o primeiro artigo da Constituição:
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“Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido.” Sobral Pinto, discurso no comício das Diretas Já na Candelária, 1984 |
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A multidão repete a frase com ele. A emenda das diretas cai no Congresso 15 dias depois, mas o regime militar termina em 1985.
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